Editorial
A capital do Norte merece ser bem governada – e finalmente está!
Em Moçambique, onde o exercício da cidadania muitas vezes se resume a reclamar – com toda a razão – da má governação, da corrupção, da inércia ou do compadrio, há raros momentos em que o jornalismo também precisa cumprir outro papel: o de elogiar quando há mérito. Sem bajulação. Sem medo de ser confundido com simpatia política. Apenas com a coragem de dizer: está a ser bem feito.
É o que se passa com a cidade de Nampula desde Fevereiro de 2024, sob a liderança de Luís Giquira. Com pouco tempo no cargo, o novo edil da terceira maior cidade do país tem mostrado que é possível, sim, fazer diferente. Assumiu uma autarquia mergulhada em problemas históricos – lixo acumulado, estradas esburacadas, falta de transporte público, mercados degradados – e em vez de se refugiar em desculpas, começou a trabalhar. Rápido,
É justo lembrar que Luís Giquira não era, à partida, o nome mais óbvio. Quando se lançou candidato às eleições autárquicas de 2023, poucos apostavam nele como favorito. Concorria contra nomes experientes como Paulo Vahanle (Renamo), então presidente do Conselho Autárquico, além de adversários como Carlos Saíde (MDM), Santos Almeida (AMUSI), e outros com alguma presença na esfera política local. Mas ele venceu. E com isso, Giquira assumiu a liderança de uma cidade profundamente ferida por anos de desleixo, depois da morte de Mahamudo Amurane. Não bastava ganhar. Era preciso governar. E, até aqui, tem feito isso com seriedade e uma boa capacidade de resposta. Giquira é, antes de político, um empresário com histórico no sector industrial. Essa experiência privada parece ter moldado a sua abordagem prática e orientada a resultados. Ao contrário de muitos gestores públicos, que se perdem na burocracia, o edil de Nampula trouxe um ritmo mais directo, exigente, operacional.
Não tardou a montar a sua equipa. A 19 de Fevereiro de 2024, empossou os vereadores e assessores para as áreas-chave do município. E ali lançou um aviso claro: “precisamos de entrega abnegada e urgência na resolução dos problemas”. Esse discurso, tão repetido em ocasiões solenes, muitas vezes morre ali mesmo. Mas com Giquira não ficou só nas palavras.
Uma das primeiras batalhas foi contra o lixo – uma praga urbana que Nampula vinha arrastando como um destino inevitável. Giquira entendeu o simbolismo do gesto: cuidar do lixo é cuidar da dignidade da cidade. A 10 de Fevereiro de 2024, menos de uma semana após tomar posse, arrancou com a campanha de remoção de resíduos no mercado de Waresta, numa iniciativa apoiada pelo empresariado local. O impacto foi imediato. Não apenas pelas toneladas de lixo removidas, mas pela mensagem que passou: há um novo comando, e este comando se importa. Em meados de Fevereiro deste ano, a introdução de três camiões modernos de recolha de resíduos consolidou esse avanço. O sistema de saneamento, longe de estar perfeito, já respira outro ar. E a cidade também.
Outro ponto alto da gestão de Giquira foi o resgate de uma prática abandonada: a divulgação diária das receitas municipais. Uma medida simples, mas poderosa, que aumenta a confiança dos cidadãos e, sobretudo, torna mais difícil a corrupção. Esse gesto remete à era de Mahamudo Amurane, edil falecido, que marcou a cidade pela transparência e austeridade. Giquira recupera esse espírito com um pragmatismo digno de nota. E fá-lo sem dramatismo, como quem diz: é o mínimo que se exige de quem gere dinheiro público.
Se há uma queixa transversal em Nampula é sobre as estradas. As crateras urbanas que dificultam o transporte, encarecem os serviços e atrasam a vida de todos. Mesmo em plena época chuvosa, com o risco de investir em solo instável, o novo edil decidiu intervir. Aplicou saibro em pontos críticos, melhorando minimamente a circulação até o fim do período das chuvas. Quando o tempo melhorou, não perdeu tempo. Lançou a primeira pedra para a reabilitação da estrada de Marrere – um eixo vital para o funcionamento da cidade, que liga o centro urbano ao Hospital Geral de Marrere, à Universidade Lúrio e à Direcção Provincial da Ciência e Tecnologia. Uma obra adiada por anos, agora já no fim e a funcionar para os munícipes.
Simultaneamente, avançou com a construção da Avenida Samora Machel, um dos maiores projectos estruturantes da sua gestão. Mesmo com as dificuldades geográficas, os trabalhos terminaram com sucesso. Igualmente, vias como as do bairro de Muahivire – durante anos esquecidas – ganharam nova vida. A 15 de Abril, iniciou também a reabilitação de raiz da estrada do Matadouro, além da recuperação de passeios e jardins. Um detalhe que faz toda a diferença: a cidade começa a ter traços de civilização.
E talvez um dos gestos mais simbólicos desta viragem de mentalidade tenha sido a introdução, pela primeira vez, de semáforos funcionais nas principais avenidas da cidade. A medida, simples à primeira vista, representa um salto civilizacional. Onde antes reinava o caos e a incerteza no trânsito, começa a nascer uma lógica de organização e respeito mútuo. São sinais que não apenas regulam o fluxo automóvel, mas comunicam, silenciosamente, que a cidade se leva a sério.
Com mais de 800 mil habitantes, Nampula precisa de soluções urgentes e duradouras para a mobilidade urbana. Ciente disso, Giquira apostou numa abordagem dual: por um lado, iniciou a recuperação dos autocarros herdados de gestões anteriores (sete já estão operacionais); por outro, introduziu nos finais de Janeiro deste ano, oito novos autocarros. Pode parecer pouco, mas é muito numa cidade habituada ao improviso e à sobrecarga de transporte informal.
Outro marco relevante foi o lançamento da primeira pedra para o novo mercado do peixe, conhecido como Belenenses. Com financiamento de um milhão de dólares, a infraestrutura promete oferecer condições modernas de conservação de pescado – algo essencial para a saúde pública e para a economia informal da cidade. É um exemplo de investimento em dignidade económica. Em vez de empurrar os vendedores para ruas poeirentas e sem saneamento, o município aposta na organização e valorização do trabalho.
Num tempo em que os líderes autárquicos se escondem atrás dos seus gabinetes, Giquira decidiu fazer o contrário. Na semana finda lançou uma plataforma electrónica denominada “visitnampula” para divulgar as potencialidades da cidade.
Importa frisar que a autarquia não foi entregue com cofres cheios. Pelo contrário. A falta de liquidez forçou o edil a contrair um empréstimo de 50 milhões de meticais para responder a emergências, enquanto esperava pelo repasse do Fundo de Compensação Autárquica (FCA). A decisão pode gerar debate – e deve. Mas revela uma gestão que não se esconde atrás da desculpa da falta de recursos. Assume riscos, toma decisões e explica-se.
Claro que ainda há muito por fazer. Nampula continua com bolsões de insalubridade. Há bairros periféricos que parecem esquecidos pelo desenvolvimento. Os comerciantes informais assaltaram a cidade e dominam ruas e passeios inteiros. A criminalidade urbana, embora fora da alçada directa do município, continua a preocupar. Mas o que distingue esta gestão é justamente isso: não ignora os problemas, enfrenta-os. E, mais importante, mostra resultados concretos – visíveis aos olhos de qualquer munícipe.
Este editorial não é uma carta-branca. Luís Giquira não está isento de críticas – e NGANI saberá fazê-las quando necessário. Mas hoje, este jornal prefere ocupar outro lugar: o do reconhecimento. Porque Nampula merece, desde Amurane, um governo que lhe devolva o brilho. Porque os seus mais de 800 mil habitantes distribuídos por 18 bairros localizados em seis postos administrativos, merecem andar por estradas dignas, viver em zonas limpas, vender em mercados com condições humanas, e confiar nos seus dirigentes. Luís Giquira não fez milagres. Mas num país acostumado a promessas vazias e não cumpridas, ele está a cumprir. E isso, por si só, já é digno de nota. A cidade agradece.