As imagens que vimos no fim de semana na nossa bela cidade sabiamente dirigida pelo edil Giquira, por ocasião da primeira Convenção Nacional da ANAMOLA, impressionam pela dimensão, pela intensidade e pela espontaneidade. As multidões que acompanham Venâncio Mondlane, os banhos de povo que se formam ao longo das estradas e o comício apinhado de gente suscitam admiração em uns, inquietação em outros e, em alguns sectores do poder, uma ansiedade que se torna cada vez mais difícil de disfarçar.
No entanto, há uma verdade simples que precisa de ser dita com clareza e serenidade: não é preciso ter medo da ANAMOLA. Nem da ANAMOLA, nem da Renamo, nem do MDM, nem de qualquer outra força política que consiga conquistar simpatia popular. A democracia não foi concebida para produzir unanimidade, mas para permitir a coexistência pacífica de diferenças. O pluralismo não é uma ameaça ao Estado; é, pelo contrário, uma das suas mais importantes garantias. Os partidos nascem, crescem e desaparecem, os líderes passam, mas o povo permanece. E é por isso que nenhum partido, por mais glorioso que seja o seu passado, pode reivindicar a propriedade exclusiva da consciência dos cidadãos.
Talvez alguns sectores ainda não tenham percebido que os moçambicanos de hoje já não são os mesmos de ontem. O país mudou. O mundo mudou. As pessoas mudaram. O acesso à informação ampliou-se, as comparações tornaram-se inevitáveis e a capacidade de julgar e avaliar cresceu. O cidadão contemporâneo já não se contenta com palavras grandiosas ou narrativas históricas. Quer resultados. Quer ver escolas a funcionar, hospitais equipados, estradas transitáveis, oportunidades de emprego e perspectivas para os seus filhos.
Os moçambicanos não são ingratos. Pelo contrário, são um povo profundamente justo. Sabem reconhecer o mérito e sabem dar a César o que é de César. A Frelimo foi durante décadas um partido querido por milhões de cidadãos. Ninguém pode apagar o seu papel histórico na luta pela independência e na construção do Estado moçambicano. E nada impede que volte a ser amplamente acarinhada pelo povo. Mas para isso terá de reencontrar a sua melhor versão. Terá de voltar a servir os cidadãos em vez de se servir deles. Terá de compreender que o amor dos povos não é uma herança transmissível nem um direito adquirido para sempre. Os povos não vivem de recordações. Vivem de pão, de escolas, de hospitais, de emprego, de esperança e de dignidade.
As multidões que hoje seguem Venâncio Mondlane não podem ser lidas apenas como uma manifestação de adesão partidária. Há nelas algo mais profundo e mais inquietante. O que se vê nas ruas de Nampula, de Chimoio, da Beira ou de Maputo é o retrato de um país cansado. É o rosto de uma sociedade saturada. É a expressão de gerações inteiras que nasceram, cresceram e chegaram à idade adulta sem nunca terem conhecido o desenvolvimento prometido. Há jovens que só ouviram falar de potencial, mas nunca experimentaram prosperidade. Há famílias que viram os anos passarem sem que as suas vidas melhorassem substancialmente. Há cidadãos que assistem à ascensão económica e social de uma pequena elite enquanto a maioria continua a lutar diariamente pela sobrevivência. E esse contraste cansa. Cansa profundamente. O que se observa nas multidões não é apenas entusiasmo político. É exaustão. É uma forma colectiva de dizer que já não se suporta a ausência de perspectivas e que o sofrimento prolongado deixou de ser tolerável.

Os povos não vivem de recordações. Vivem de pão, de escolas, de hospitais, de emprego, de esperança e de dignidade.
E, perante esse fenómeno, a resposta nunca poderá ser a intolerância ou a violência. A história ensina-nos que nenhum regime conseguiu preservar a sua legitimidade através do medo. O recurso à repressão, às perseguições ou à intimidação jamais substituiu a boa governação. Pelo contrário, os governos verdadeiramente fortes são aqueles que não receiam a existência de adversários fortes. Quem trabalha com seriedade não precisa de temer opositores populares. Quem apresenta resultados não necessita de perseguir ninguém. Quem governa bem não precisa de se inquietar com as multidões dos outros.
A melhor resposta a um partido que cresce nunca foi a violência. Foi sempre a capacidade de governar melhor. E, por isso mesmo, seria um erro histórico interpretar a ascensão da ANAMOLA como uma declaração de guerra à Frelimo. Na realidade, ela deveria ser entendida como um aviso e, quem sabe, até como uma oportunidade. As democracias saudáveis precisam de oposição forte. Precisam de concorrência. Precisam de escrutínio. Precisam da possibilidade real de alternância. É essa possibilidade de perder que obriga os governos a trabalhar melhor e a permanecer ligados às aspirações dos cidadãos.
Aliás, os acontecimentos recentes da própria cidade de Nampula oferecem uma lição importante. Há poucos meses, mais de dez mil pessoas responderam ao apelo do governador Eduardo Abdula e marcharam nas ruas da cidade na campanha “Stop Makha”, destinada ao combate ao tráfico e consumo de drogas. A mobilização foi impressionante e mereceu elogios generalizados. Ninguém se sentiu ameaçado por aquelas multidões. Ninguém considerou que a concentração popular representasse um perigo para a República. Pelo contrário, ela foi encarada como uma demonstração saudável de participação cívica. Se assim foi, por que razão haveria de ser diferente quando os cidadãos decidem reunir-se em torno de um partido político ou de um líder da oposição?
Há povo para todos. A democracia é isso. O povo não pertence a ninguém. Os cidadãos não são propriedade privada de qualquer partido ou dirigente. Cada homem e cada mulher têm o direito inalienável de escolher as causas, os projectos e os líderes em que desejam acreditar. Ninguém possui autoridade moral para exigir que todos gostem da mesma organização política. Ninguém pode ser obrigado a amar esta ou aquela força partidária. A liberdade inclui o direito de mudar de opinião, o direito de se entusiasmar e até o direito de se desiludir.
Talvez seja justamente essa verdade simples que alguns sectores ainda se recusam a aceitar. O tempo da obediência automática acabou. O cidadão moderno observa, compara, avalia e decide. Os moçambicanos aprenderam a distinguir entre trabalho e fingimento, entre propaganda e resultados, entre populismo e governação séria. Já não se deixam impressionar facilmente por discursos grandiosos quando a realidade quotidiana lhes apresenta um cenário diferente.
A Frelimo não precisa de combater Venâncio Mondlane. Precisa de combater as razões que levam milhares de pessoas a procurar alternativas. Não precisa de travar a ANAMOLA. Precisa de travar a pobreza, o desemprego e o desespero. Não precisa de responder ao crescimento dos seus adversários com hostilidade. Precisa de responder com resultados. Porque, no fim das contas, os moçambicanos continuam a ser um povo generoso e justo, que sabe reconhecer.
Portanto ilustres, o que vimos nas ruas de Nampula não é uma mensagem de guerra. Não é uma mensagem de ódio. Não é uma mensagem de vingança. É uma mensagem de saturação. É o grito silencioso de um povo cansado de esperar. E as nações sábias escutam os sinais do seu povo antes que a frustração se transforme em ruptura. Editorial, JornalNGANI220626
