Declarações de Caifadine Manasse sobre os níveis de emprego provocam indignação em Nampula, onde cidadãos acusam o Governo de ignorar a realidade vivida pela maioria dos moçambicanos
Redacção
Todos os anos, cerca de 500 mil jovens moçambicanos entram na idade activa à procura de uma oportunidade de trabalho. No entanto, a capacidade de absorção do mercado continua longe de acompanhar essa pressão crescente, agravando uma crise de emprego que afecta milhares de famílias em todo o país.
Apesar deste cenário, o ministro da Juventude e Desportos, Caifadine Manasse, afirmou, na última quinta-feira, durante a abertura da VIII sessão do Conselho Consultivo do Instituto Nacional de Emprego, na cidade de Nampula, que 71 por cento da população moçambicana se encontra empregada, contra 18 por cento que não possui ocupação.
As declarações do governante suscitaram reacções críticas entre vários cidadãos ouvidos pelo NGANI, que consideram os números distantes da realidade vivida pela maioria dos moçambicanos.
No seu discurso, Caifadine Manasse reconheceu que o país enfrenta dificuldades para responder ao elevado número de jovens que todos os anos entram no mercado de trabalho, tendo encorajado a juventude a apostar no auto-emprego como alternativa.
Entre os que contestam os dados apresentados está Carlito Alfredo, de 35 anos, licenciado em Gestão Ambiental, que afirma procurar emprego há vários anos sem sucesso.
“Quando um ministro vem dizer isso ao povo, só posso considerar como um insulto. Ele vive bem, anda em carros de luxo, mas a realidade que nós enfrentamos é completamente diferente. Isso mostra o quanto este país está desorientado”, afirmou.
Também Adilson Constantino, de 40 anos, mostrou-se indignado. Com nível médio de escolaridade, contou que tentou várias vezes ingressar na Polícia da República de Moçambique e no curso de formação de professores, mas acabou por abandonar as tentativas e investir no negócio de táxi-mota.
“Eu e os meus irmãos tivemos de vender a casa que os nossos pais nos deixaram. Com a parte que me coube, comprei esta motorizada para sustentar a minha família. É assim que vamos sobrevivendo”, relatou.
Outro entrevistado, Isidro Bolacha, considera que os números apresentados pelo ministro não correspondem à realidade.
“O ministro foi infeliz. Esse tipo de discurso pode ter servido para enganar as pessoas no passado, mas hoje o povo já abriu os olhos”, afirmou.
As preocupações manifestadas pelos cidadãos surgem numa altura em que relatórios internacionais continuam a retratar um cenário económico preocupante para Moçambique.
Recentemente, o Banco Mundial indicou que cerca de 81 por cento dos moçambicanos vivem com menos de três dólares por dia. O mesmo documento aponta ainda para elevados níveis de desigualdade social, colocando o país entre as nações mais desiguais do mundo. Celestino Manuel

