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Opinião

Quem é o verdadeiro terrorista?

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Há dias em que é difícil saber se vivemos numa República ou num regime de assalto permanente à decência. Venâncio Mondlane, o homem que ousou enfrentar o sistema nas urnas, é agora acusado de crimes que variam entre a instigação ao crime e o terrorismo. Tudo isto, claro, no melhor estilo dos regimes que trocam a legitimidade pela repressão. A PGR, que há muito deixou de inspirar confiança, mostra-se mais uma vez como a bengala política da Frelimo, apressando-se em construir um processo contra um candidato que, goste-se ou não, foi escolhido pelo povo.

Mas não nos desviemos do essencial: o verdadeiro terrorismo não se esconde nas declarações de um opositor, mas sim nas estruturas que devoram o Estado por dentro. A violência organizada contra cidadãos moçambicanos desde as eleições de Outubro de 2024 fala mais alto do que qualquer acusação forjada por cima do joelho. A repressão contra protestos legítimos resultou em centenas de mortos, sim, mortos, muitos deles jovens que apenas levantaram cartazes e suas vozes. A estes, o Estado respondeu com balas, chambocos, gás lacrimogéneo e o silêncio institucional.

Segundo a Human Rights Watch e a FIDH, mais de 300 pessoas perderam a vida e milhares foram detidas arbitrariamente entre Outubro de 2024 e os primeiros meses de 2025. Muitos desapareceram nos corredores escuros das esquadras e outros foram enterrados sem nome, sem justiça, sem paz. Esta é a verdadeira definição de terrorismo de Estado, conceito que o académico Paul James descreve como o uso sistemático da violência por parte do governo para impor o medo, eliminar oposição e garantir a manutenção do poder. Soa familiar?

A isto soma-se o papel vergonhoso da Comissão Nacional de Eleições (CNE) e do Conselho Constitucional, que fecharam os olhos à vontade popular e abriram os braços à fraude. A presidência do Conselho Constitucional, exercida pela veneranda, e curiosamente cúmplice, Lúcia Ribeiro, tratou de carimbar os resultados como se se tratasse de um despacho qualquer. Tudo em família, tudo alinhado. O povo gritou mudança, mas o sistema respondeu com gás lacrimogéneo e funerais.

E no meio disto tudo, o homem que deveria ser homenageado por defender a voz dos moçambicanos é perseguido como se fosse um bandido. Mondlane representa uma ameaça, não por possuir armas, mas por encarnar a esperança. A sua verdadeira “arma” foi o voto, e é isso que o sistema não perdoa.

É preciso dizer com todas as letras: o terror não está na oposição, mas sim nas entranhas de um Estado que se recusa a aceitar o veredicto popular. Um Estado que transforma forças de segurança em forças de repressão, que bloqueiou as redes sociais para não termos acesso as fomosas Lives do presidente eleito, que silencia jornalistas e encarcera activistas. O verdadeiro terrorista não vem da oposição, ele veste-se de vermelho de sangue, assina despachos e governa desde 1975 como se o país fosse propriedade pessoal.

Perseguem Mondlane como um criminoso, mas esquecem que os verdadeiros crimes estão registados nas morgues, nas celas e nas lágrimas de mães que enterraram os seus filhos. Acusar Mondlane de terrorismo é uma manobra tão grotesca quanto previsível, é uma tentativa desesperada de abafar o som de uma sociedade que já não acredita nas instituições, que já não confia nos juízes, que já não respeita os governantes.

Moçambique não precisa de mais medo. Precisa de verdade. E a verdade, por mais que se tente sufocar, acabará sempre por encontrar o seu caminho. Mesmo que venha acompanhada por cartazes, lágrimas ou urnas rasuradas.

Por isso, voltamos à pergunta: quem é o verdadeiro terrorista?

Talvez não precise de procurar muito. Basta olhar para os corredores do poder. É lá que o medo se transforma em decreto.

Por:Waka Afrika

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