Nos últimos meses, o NGANI tem denunciado abusos sucessivos cometidos por gestores seniores do Instituto Nacional de Transporte Terrestre (INATRO). Uma instituição que deveria servir o cidadão transformou-se numa verdadeira capoeira, onde a incompetência e a má gestão se tornaram regra e não exceção.
Agostinho Miguel
No centro do escândalo está o antigo delegado provincial, Abubacar Maximino, afastado do cargo após uma sucessão de denúncias de má conduta administrativa e gestão danosa. Sob a sua liderança, a delegação de Nampula tornou-se sinónimo de lentidão, desorganização e ineficiência. Processos paralisados e serviços públicos em degradação foram o legado mais visível da sua passagem.
Entre os casos mais graves está o dos instruendos que, apesar de terem concluído a formação em 2023, continuam sem receber as suas cartas de condução — um atraso que compromete o direito de centenas de jovens à mobilidade e ao acesso ao mercado de trabalho.
O afastamento de Maximino, porém, revelou-se um gesto meramente simbólico. O ofício que determina a sua exoneração não apresenta qualquer fundamentação, levantando suspeitas sobre a real intenção da medida.
Entra em cena Samuel dos Santos Aniceto: o amigo do PCA
Logo após a saída de Maximino, o Presidente do Conselho de Administração do INATRO, Nelson Mário Monteiro Nunes, nomeou para o cargo o seu amigo pessoal, Samuel dos Santos Aniceto, através do ofício n.º 105/INATRO-PCA/023.3/2025.
A nomeação foi confirmada por um despacho ministerial de 15 de Setembro de 2025, consolidando uma mudança que, para muitos, não passa da substituição de um aliado por outro. O que poderia ter sido uma oportunidade de reformar e restaurar a confiança na instituição transformou-se numa afronta clara ao mérito e à transparência.
Funcionários e analistas do setor contestam a nomeação, alegando que Aniceto não possui as qualificações técnicas nem o perfil ético necessário para liderar uma delegação tão estratégica como a de Nampula. Pelo contrário, o seu nome já esteve associado a práticas de corrupção, nepotismo e favorecimento político durante a sua passagem pela Direção dos Transportes e Comunicações, de onde saiu com a imagem manchada.
Fontes internas relatam que, desde que assumiu funções, Aniceto tem exibido uma postura autoritária e arrogante, escudado nas suas ligações com figuras influentes da FRELIMO, agravando o clima de tensão e desconfiança no seio da delegação.
Diante deste cenário, cresce a insatisfação entre funcionários, escolas de condução e instruendos, que veem a nomeação como mais uma prova de que a instituição está capturada por interesses privados e políticos.
Rumores dão conta de uma possível greve geral — a maior de sempre no seio do INATRO — caso o governo não intervenha de forma concreta. Fala-se ainda de protestos públicos e de denúncias formais, que poderão escalar para confrontos diretos e exigências de expulsão de funcionários envolvidos em esquemas de corrupção e tráfico de influência.
Nepotismo institucionalizado
A crise no INATRO em Nampula é apenas a ponta do icebergue de um sistema público corroído pelo clientelismo. Em vez de se valorizar mérito e competência, os cargos continuam a ser atribuídos com base em relações pessoais e favores políticos.
Essa prática tem custos reais: prejudica a formação de condutores, atrasa a emissão de documentos e compromete a vida de cidadãos comuns que dependem do serviço para trabalhar e sustentar as suas famílias. O impacto económico é evidente — desde a paralisação de pequenas empresas até à limitação da mobilidade urbana e interprovincial.
A sociedade civil exige medidas imediatas: revisão da nomeação de Aniceto, auditoria independente à delegação de Nampula e responsabilização dos implicados em práticas lesivas ao interesse público.
Com mais este episódio, o futuro do INATRO em Nampula torna-se cada vez mais incerto. A sensação generalizada é a de que o Estado continua a servir interesses privados em vez de proteger a população que sustenta as instituições com os seus impostos.
Enquanto não houver uma rutura com este ciclo vicioso de má gestão, a delegação do INATRO em Nampula continuará a ser exemplo vivo da falência de um modelo de governação que privilegia amizades e redes de influência em detrimento do bem comum.

