Crise de água mata criança de três anos em Nampula

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Uma criança de três anos morreu depois de cair num poço aberto numa machamba, na unidade comunal Josina Machel, bairro de Napipine, arredores da cidade de Nampula.

A tragédia ocorreu num contexto de crise de água que afecta aquela comunidade, depois de um rio próximo ter secado, obrigando os moradores a procurar fontes alternativas para garantir água para consumo e outras necessidades domésticas.

Poço aberto à procura de água

Segundo Elias Puaneleque, morador da unidade comunal Josina Machel, os residentes solicitaram ao proprietário de uma machamba autorização para abrir um poço nas proximidades do rio que havia secado.

Depois de uma primeira tentativa, realizada com meios precários, os moradores encontraram água considerada imprópria para consumo. Com o apoio da liderança local, voltaram a solicitar ao proprietário outro espaço dentro da machamba.

O novo poço acabou por fornecer água, embora turva. Sem outra alternativa, os moradores passaram a utilizá-la para beber, lavar roupa e outras necessidades domésticas. Três dias depois, uma criança residente nas proximidades morreu após cair no poço.

Menor caiu sem ninguém por perto

De acordo com os moradores ouvidos pelo NGANI, a mãe da criança deslocou-se ao poço para buscar água acompanhada pela filha. No regresso, deixou a menor em casa e saiu para o mercado. Sem ninguém por perto, a criança terá caminhado até ao poço e acabou por cair no seu interior.

O corpo foi descoberto por um jovem que se dirigira ao local para buscar água. Ao aperceber-se da situação, chamou os vizinhos e a liderança local.

“Depois liguei para o pai, o telefone não chamava. Daí que liguei para a mãe para vir com urgência. Antes de retirar o corpo do interior, pensamos em dar a conhecer às autoridades policiais”, relatou Puaneleque.

A polícia deslocou-se ao local e retirou o corpo. Segundo os moradores, a família optou por não encaminhá-lo à morgue, realizando o funeral pouco tempo depois.

“Deixei a minha família completa”

Dércio Janeiro, pai da vítima, contou que tinha saído de manhã à procura de sustento para a família e deixou todos em casa.

Por volta do meio-dia, recebeu uma chamada a pedir que regressasse com urgência. “Com lágrimas no rosto, não sei como explicar o sucedido. Só sei dizer que deixei a minha família completa”, afirmou, visivelmente abalado.

Comunidade denuncia doenças causadas pela água

Além da tragédia, os moradores alertam para os riscos associados ao consumo da água retirada do poço.

Julieta Nhtepa, residente na unidade comunal Josina Machel, afirma que doenças relacionadas com a qualidade da água, sobretudo diarreias, são frequentes na comunidade. “Aqui, doenças como diarreia são o nosso pão de cada dia. Pior ainda porque não temos uma unidade sanitária por perto”, lamentou.

Nhtepa pede ao Governo que instale, com urgência, furos de água convencionais para reduzir a dependência de fontes improvisadas.

Moradores pedem furos de água

Armando André, chefe do quarteirão, atribui a morte da criança à crise de água que afecta aquela zona de Nampula.

Segundo o responsável comunitário, a população já comunicou várias vezes às autoridades a necessidade de abertura de furos de água, mas ainda não recebeu uma resposta satisfatória.

André afirma acreditar que a sua área de jurisdição foi esquecida pelas autoridades, mas mantém a esperança de que a situação seja finalmente atendida. “Tenho fé que um dia as autoridades acordem e se recordem da Josina Machel”, afirmou.

Para os moradores, a morte da criança expôs de forma trágica os riscos enfrentados diariamente por uma comunidade obrigada a recorrer a fontes improvisadas para ter acesso à água.

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