Sob o tema “Saber não tem CV”, escritor defende ensino mais humanizado e comprometido com os desafios do país
A Universidade Pedagógica de Maputo (UP-Maputo) iniciou o ano académico de 2026 com uma aula inaugural proferida pelo escritor e biólogo Mia Couto, que levou ao limite a capacidade do anfiteatro Paulus Gerdes, reunindo estudantes, docentes e convidados num momento de reflexão sobre o estado e o futuro da educação em Moçambique.
Sob o tema “Saber não tem CV”, o autor apresentou uma análise crítica da realidade educacional do país, defendendo a necessidade de um ensino mais humanizado, capaz de formar cidadãos com pensamento crítico e compromisso social.
Durante a sua intervenção, Mia Couto destacou o papel central das universidades na transformação da sociedade, sobretudo num contexto global marcado por crises económicas e conflitos. “As universidades têm um papel fundamental na promoção da consciência crítica e na geração de mudanças que possam revolucionar Moçambique”, afirmou.
O escritor chamou ainda atenção para a desconexão entre a formação académica e as necessidades reais do país, criticando, entre outros aspectos, a dependência da importação de produtos básicos, mesmo décadas após a independência. Para o autor, a formação de quadros deve estar alinhada com os desafios económicos nacionais, sem negligenciar a ética profissional.
“Não bastam seminários ou workshops. É preciso construir pontes práticas que despertem o senso crítico nas nossas academias”, defendeu, sublinhando a importância de uma educação orientada para soluções concretas.
Na ocasião, o reitor da UP-Maputo, Jorge Ferrão, considerou que a abertura do ano lectivo simboliza a resiliência da instituição face aos desafios persistentes no sector da educação. Segundo afirmou, a universidade entra em 2026 consciente das dificuldades herdadas do ano anterior, mas determinada a melhorar o seu desempenho e reforçar o seu compromisso com a formação de qualidade.
“A universidade mantém-se firme na sua missão social de formar jovens e contribuir para o desenvolvimento do país”, referiu.
O evento ficou igualmente marcado por momentos de reconhecimento institucional. A professora doutora Carla Maciel, directora científica da instituição, foi homenageada pelos seus 38 anos de serviço, assinalando o fim de uma longa carreira dedicada ao ensino superior. O reitor destacou que a trajectória da docente se confunde com a própria história da universidade.
A cerimónia incluiu ainda uma homenagem a Mia Couto, no contexto das celebrações dos seus 70 anos de vida, assinalados em 2025, bem como dos 40 anos da Universidade Pedagógica de Maputo.
Com esta abertura, a UP-Maputo reafirma-se não apenas como espaço de formação académica, mas também como palco de debate e reflexão crítica sobre os caminhos do país, num momento em que a educação se assume como um dos principais pilares para o desenvolvimento nacional. Redacção

