O escritor moçambicano Mia Couto lançou esta sexta-feira (13) um dos mais duros alertas sobre os problemas estruturais de Moçambique, apontando a corrupção sistémica, a dependência alimentar e a perda de empregos como sinais de um país que ainda não conseguiu transformar-se plenamente numa República ao serviço dos seus cidadãos.
A intervenção foi proferida na aula inaugural que marcou a abertura do ano académico de 2026 da Universidade Católica de Moçambique (UCM), realizada na Faculdade de Ciências de Saúde, na cidade da Beira, sob o lema “Construir Moçambique a partir da Universidade: Educar para uma Sociedade Plural, Ética e Sustentável”.
Perante estudantes, professores e autoridades, Mia Couto fez uma reflexão profunda sobre o papel das universidades e da sociedade na construção de um país mais ético, mas não evitou tocar em temas incómodos que continuam a travar o desenvolvimento nacional. “Um país como o nosso não se resolve discutindo apenas quem somos. O que precisamos discutir é quem queremos ser daqui a cinco ou dez anos”, afirmou.
Num dos momentos mais fortes da sua intervenção, o escritor alertou que a corrupção em Moçambique não pode ser vista apenas como a soma de comportamentos individuais, mas como um sistema que se reproduz dentro da própria sociedade. “A corrupção não é apenas um conjunto de pessoas corruptas. É um sistema”, afirmou.
Segundo Mia Couto, a integridade — frequentemente elogiada nos discursos fúnebres dedicados aos fundadores da República — precisa de ser preservada entre os vivos. “Se queremos exaltar a integridade dos que partiram, precisamos salvar a integridade dos que ainda estão aqui”, disse.
O escritor reconheceu que práticas aparentemente pequenas também alimentam esse sistema. “Às vezes, quando um polícia de trânsito não me reconhece, ofereço-lhe um livro. É uma corrupção por via da literatura”, ironizou, numa autocrítica que arrancou risos, mas também reflexão na plateia.
“Eu não tenho partido. O meu partido é Moçambique”
Outro ponto sensível do discurso foi a dependência alimentar do país, que Mia Couto classificou como um dos paradoxos mais preocupantes de Moçambique.
Segundo dados citados pelo escritor, o país gastou em 2024 cerca de 441 milhões de dólares na importação de arroz e 250 milhões de dólares em óleo alimentar, valores que representam quase mil milhões de dólares destinados a produtos que poderiam ser produzidos internamente. “Por que razão, cinquenta anos depois da independência, continuamos a importar a maior parte da nossa comida?”, questionou.
Uma das explicações apontadas é que a importação pode ser mais lucrativa para determinados grupos económicos, criando incentivos perversos que enfraquecem a produção nacional. “Estamos a gastar quase mil milhões de dólares em alimentos que poderíamos produzir aqui”. Para Mia Couto, esta realidade tem consequências diretas no emprego. “Estamos a perder cerca de 45 mil postos de trabalho porque deixamos de produzir aquilo que consumimos”, afirmou.
Na sua visão, compreender estas dinâmicas exige coragem para discutir os problemas sem medo de rótulos políticos. “Eu não tenho partido. O meu partido é Moçambique”, declarou.

“Por que razão, cinquenta anos depois da independência, continuamos a importar a maior parte da nossa comida?”
O que falta ao país é ser República
Apesar das críticas, o escritor rejeitou discursos derrotistas sobre o país. Para Mia Couto, Moçambique avançou em muitas áreas desde a independência, mas ainda enfrenta um desafio central: construir uma verdadeira República. “O que nos falta não é Moçambique. O que nos falta é ser República”, afirmou.
Segundo explicou, a ideia de República — derivada do latim res publica — significa que os recursos do Estado devem servir todos os cidadãos e não apenas um grupo privilegiado.
Neste contexto, o escritor defendeu que as universidades devem assumir um papel activo na reflexão sobre o futuro do país, evitando transformar-se em instituições isoladas da sociedade. “A universidade não pode viver numa bolha”, alertou.
Referindo-se à cidade da Beira, onde se localiza a sede da UCM, Mia Couto foi ainda mais directo. “A universidade não pode apenas estar sediada na Beira. Ela deve ser da Beira.”
Para o autor, as instituições académicas devem promover debates e estudos que ajudem a compreender os desafios económicos, sociais e culturais do país, envolvendo a sociedade nesse processo. No final, Mia Couto deixou uma mensagem clara aos estudantes e à sociedade moçambicana: o futuro do país dependerá da capacidade colectiva de construir uma nação mais ética, mais plural e mais sustentável. “A universidade pode ajudar-nos a sermos mais República”, concluiu. “E, sendo mais República, seremos também mais Moçambique.” @Félix Filipe
