Após pressão pública, Governo de Nampula financia participação do grupo Nguenha no FIT

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Após vários dias de incerteza e sucessivos apelos públicos, o grupo teatral Nguenha garantiu apoio financeiro do Governo Provincial de Nampula para participar no Festival Internacional de Teatro do Inverno (FIT), que decorre na cidade de Maputo e é considerado o maior evento do género em Moçambique.

A decisão surge já depois do arranque do festival, numa situação que volta a expor as dificuldades enfrentadas pelos agentes culturais da província para aceder a financiamento e apoio institucional.

No sábado, os representantes do grupo partiram de Nampula para Maputo com a missão de representar a província num palco que reúne companhias nacionais e internacionais, abrindo espaço para intercâmbio artístico, formação e estabelecimento de novas parcerias.

Para António Álvaro, fundador e líder do Nguenha, a presença no FIT representa uma oportunidade estratégica para o crescimento do grupo e para a projecção do teatro produzido em Nampula.

“Este é o maior festival de teatro do país. Para nós, é uma oportunidade de adquirir experiência, estabelecer contactos com grupos internacionais e demonstrar que em Nampula existe produção artística de qualidade”, afirmou.

Reconhecido pelo trabalho desenvolvido nas artes cénicas, o Nguenha encara a participação no festival como uma oportunidade de visibilidade além-fronteiras. Entre os objectivos do grupo está a criação de parcerias com actores culturais e empresários provenientes da África do Sul, Brasil, Portugal e Angola.

Segundo António Álvaro, a experiência poderá também contribuir para o fortalecimento do “First Cena”, iniciativa teatral promovida pelo colectivo em Nampula e que figura entre os poucos eventos regulares dedicados às artes cénicas na província.

A concretização da viagem, contudo, esteve longe de ser simples. O grupo enfrentou dificuldades financeiras que chegaram a colocar em causa a sua participação no evento.

Os artistas chegaram igualmente a considerar a participação num festival internacional no Brasil, mas acabaram por privilegiar o FIT devido aos elevados custos e exigências logísticas associados à deslocação para aquele país.

“Foi uma escolha estratégica. O Brasil exigia um processo mais complexo de documentação, vistos e recursos financeiros. Optámos por Maputo, onde havia maior possibilidade de mobilizar apoios”, explicou.

No festival, o grupo apresentará a peça “Duas Vidas Presas na Mesma Cela”, uma obra que aborda questões relacionadas com justiça, responsabilidade individual e resolução pacífica de conflitos.

A narrativa acompanha dois indivíduos condenados pelo mesmo crime, embora com diferentes níveis de envolvimento, convidando o público a reflectir sobre verdade, culpa e consequências das acções humanas.

“Queremos transmitir a mensagem de que a violência nunca é a melhor resposta para os conflitos. É uma reflexão que consideramos importante partilhar através do teatro”, sublinhou António Álvaro.

A directora provincial da Cultura e Turismo de Nampula, Jamila Bicá, considerou que a participação do grupo constitui motivo de orgulho para a província e uma demonstração da vitalidade do sector cultural local.

“É uma honra termos um grupo de Nampula num festival desta dimensão. Isso demonstra que a nossa cultura está viva e possui qualidade para dialogar com outras realidades artísticas”, afirmou.

A responsável incentivou ainda os fazedores das artes a continuarem a procurar oportunidades de crescimento e garantiu abertura para o estabelecimento de novas parcerias em benefício do sector.

“Sabemos que ainda existem muitos desafios, mas continuaremos a trabalhar para criar oportunidades e fortalecer o apoio aos nossos artistas”, disse.

Apesar do desfecho positivo, o caso do grupo Nguenha reabre o debate sobre o financiamento das artes em Nampula, num contexto em que muitos projectos culturais continuam dependentes de respostas tardias e de forte mobilização pública para garantir condições mínimas de participação em eventos de relevância nacional e internacional. Agostinho Miguel

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