Professor Hélder Jauana: De pensador para seguidor. E quem será o próximo?

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
blank

O que devia ser motivo de vivazes celebrações é, lamentavelmente, desconsiderado, desprezado e, sobretudo, causador de sentimentos de tristeza e de traição públicas. Em verdade, o nosso país está decidida e incansavelmente dando tendências evidentes de inversão e ou de distorção de todas as lógicas. É verdade que isto possa estar a acontecer um pouco por todo o mundo, mas, como se diz na minha língua, nos momentos de desamparo e aflição, ninguém grita o nome da mãe do outro, e eu só posso chorar pela minha; Moçambique é o meu espaço que, à semelhança de todos os outros, me foi legado pelos meus ancestrais, sendo legitimo bradar por ele sempre que se me aperceber de qualquer anormalidade, afinal tenho também sensibilidade e um pouco de conhecimento. É igualmente evidente que Moçambique, o tal espaço comum, coabitam tanto ʺos gregosʺ quanto ʺos troianosʺ e, por isso, há, seguramente, quem esteja cheio de satisfação pela retirada da sala de aulas do Professor Hélder Jauana, deixando para atrás centenas de órfãos estudantes, ávidos do conhecimento verdadeiro, e conduzido a uma sala pomposa, ritualística e cheio, não de livros, de dogmas quase impossíveis de quebra-los.

Mas o Professor Jauana, por via de raciocínio lógico, de tudo isso sabe. E é exatamente isso que mais indigna o senso comum e leva a qualquer um, de pensamento comum e mediano, a concluir que todos afinal estão preocupados com o mesquinho problema do umbigo. A este respeito, assomam-me à memória as palavras do João Zevo, meu amigo, colega de formação e de profissão; disse-me, num dia desses, que tinha dois programas coincidentes, uma cerimónia fúnebre e uma oportunidade de ganhar dinheiro, nisto ele perguntou-me: ʺRosário, entre ganhar dignidade e ganhar dinheiro, o que optarias?ʺ Olhei para ele com cara surpresa e desconfiada, mas preferi que fosse ele mesmo a responder; rasgou a custo uma gargalhada esforçada e, no fim, disse, ʺprefiro ir fazer dinheiro, pessoas haverá para enterrar o falecidoʺ. Estará a sociedade a concluir erroneamente? Pode ser que sim, mas pode ser que não. Então o que estará a acontecer? O Professor Hélder Jauana não é o primeiro, certamente não será o último. Os moçambicanos ainda se lembram de uma lista recheada de nomes que eram sonantes na academia, no sindicalismo, na religião e até no activismo social que, tristemente, passaram a ser anónimos ou ridículos logo que passaram para o campo político-governativo.

Será um génio excepcional o Professor Jauana? Continuará a ser aquele intervencionista, agora na esfera governativa? Aquelas ideias brilhantes, aqueles conselhos concertados e aquelas propostas consentâneas que, das telas da Tv, ecoavam nas almas e corações de todos os moçambicanos, de dentro e de fora de Moçambique, até que há dias encontraram uma resposta à altura: ele, o Professor Hélder Jauana, é já um Presidente de Conselho de Administração de uma Agência Nacional do Investimento Turístico, uma instituição pública, que se subordina às lógicas com as quais ele se debatia com garra e alma nas horas nobres da informação televisiva, isto é, nos telejornais. É inevitável colocar perguntas como estas: fazia aquilo tudo como estratégia de ser chamado para ocupar uma cadeira na mesa do banquete ou as próprias lógicas do poder político adoptaram aquilo como estratégia de engolir os poucos peixes com mania de assomar à superfície ver a beleza do sol e das nuvens? Ninguém sabe, o que todos sabemos é isto: há muitos bons jogadores jogando no banco, ou melhor, jogando nas bancadas, mas, quando colocados no rectângulo do jogo, jogam tão igual como os outros e só pioram mais os apupos das bancadas.

Lembramo-nos de um grande economista, de nome Hipólito Hamela, um exímio intérprete dos problemas económicos e de desenvolvimento deste país, todos gostavam de vê-lo a esgrimir argumentos e a desenhar linhas de desenvolvimento deste Moçambique; foi nomeada PCA de um grande instituto público e o ilustre economista não é mais visto, e se aparece, quem mais o vê? Há um outro agroeconomista, não sei se existe esta palavra na língua de Camões; falava bem, ele sabia tudo de agroprocessamento e economia; era emocionante ouvir a ele a dizer aquelas coisas todas que o ʺgoverno deixa de fazerʺ. Colocaram o ilustre Ragendra de Sousa como Ministro de um ministério da área económica e, coitado, fez tudo errado, aliás, pior que todos. E quem mais? Ahh.. há o jornalista investigador, moldado nas lides da imprensa chamada imparcial, e trabalhado por grandes mestres da comunicação social; nos debates televisivos era mestre de palavra, tudo que dizia assentava como luva na mão. Não resistiu ao convite, como se diz na minha língua ʺKudhanwa ngu dhuswaʺ, quando se é chamado é para responder. O nome e a voz de Ericino de Salema, desde então, deixaram de ser ouvidos, calou-se ou deixou-se calar ou foi calada.

Gostaria de recomendar a leitura de alguns grandes pensadores destes últimos séculos (o português António Sérgio e o brasileiro Ruy Barbosa), inspirados pelo dom da sabedoria e pela condição humana prevalecente. Os governantes e todos os titulares de órgãos públicos ou privados, eclesiásticos ou sindicais ou outros nunca deviam preocupar-se com a crítica, com a censura fiscalizadora dos seus actos; o que lhes devia entristecer é o contrário, isto é, a bajulação, o puxassaquismo, o lambebotismo e o escovismo. Estes elogios despidos de sentido deviam ser combatidos com veemência por eles mesmos porque são condimentos essenciais para forjar tiranias, abusos, exploração e desumanidade.

Mas a coisa caricata é mesmo esta – bajudadores, lambebotas, puxassacos   afinal estão no mesmo nível dos académicos, sindicalistas, activistas consagrados e respeitados, e ambos são chamados para administrar instituições públicas ou integrar nos órgãos de soberania. E quem fica para apontar as falhas próprias do ser humano? Por isso, as acepções dos pensadores aludidos acima referem ser grande perigo para toda uma sociedade democrática desejar-se um povo que personalize, que adore, que exalte, que glorifique e ame os líderes e governantes, porque estes não estão a fazer nada mais nada menos que cumprir as obrigações definidas pelo próprio estado, governo ou outra instituição. Para o bem de todos, que se deixe florescer uma classe de críticos neste país, críticos de todas as áreas, porque os governantes, os líderes têm a missão de servir, e servir na estreita lei da justiça e bem-estar e nunca o contrário. E já agora, depois do Professor Jauana, quem vai a seguir?                     

GULANGUMOSO

rosariogwambe@gmail.com

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *