O escritor e contabilista de carreira Pereira Napuanha defende uma mudança de mentalidade entre os moçambicanos, sobretudo os jovens, como forma de reduzir a dependência do emprego formal e criar maior autonomia económica.
A aposta na educação financeira, no empreendedorismo e na criação de alternativas de rendimento está no centro de um ciclo de palestras que Napuanha iniciou recentemente na cidade de Nampula, através da plataforma Flex Thinking.
Autor das obras Pensamentos do Empreendedor, volumes I e II, e Alquimia do Networking – Transformando Contactos em Oportunidades, Napuanha pretende levar conhecimentos sobre gestão financeira para além das salas de aula, abrangendo estudantes, académicos e a comunidade em geral.
“Queremos fazer educação financeira para as pessoas. Não apenas para estudantes ou académicos, mas para toda a comunidade. Se tens perspectiva de ter um salário, ou se já tens, precisas de saber gerir”, afirmou.
Para o escritor, gerir dinheiro exige, antes de tudo, compreender o funcionamento da economia e aprender a administrar os recursos disponíveis, mesmo quando são limitados.
“Para saber gerir, tens que entender como a economia funciona, tens que saber, no mínimo, gerir o pouco que tens e construir uma visão”, explicou.
“É preciso sair da ideia de trabalhar para o Governo”
Uma das questões que Napuanha considera necessário combater é a forte expectativa de muitos jovens em relação ao emprego público.
Na sua perspectiva, a procura pelo emprego formal, sobretudo no Estado, não deve ser encarada como única via para garantir estabilidade económica. O escritor defende maior aposta no autoemprego, empreendedorismo e estabelecimento de parcerias.
“Estamos a encorajar as pessoas a saírem dessa ideia de que têm que trabalhar para o Governo. É preciso pensar no autoemprego, criar autonomia financeira, perceber que, para vencer na vida, precisamos de parcerias, de pessoas, de estar onde os negócios acontecem”, defendeu.
Napuanha considera igualmente que a formação académica é importante, mas não representa, por si só, uma garantia de emprego.
Aos estudantes finalistas, aconselha maior aproximação ao mercado e aplicação prática dos conhecimentos adquiridos durante a formação.
“O caderno não é tudo. O facto de ter um diploma não significa que as portas estão abertas. É preciso sair, ir ao mercado, viver o dia a dia e aplicar o que se aprende”, sublinhou.
Tecnologia abre oportunidades, mas exige preparação
A transformação digital também ocupa espaço nas palestras de Napuanha. O escritor considera que as novas tecnologias podem criar oportunidades, mas alerta que o seu aproveitamento depende da preparação e do desenvolvimento contínuo de competências.
“A era digital pode dar a sensação de facilidade, mas exige preparação. Para usar a tecnologia, é preciso aprender e desenvolver habilidades. Se não estivermos preparados, ficamos para trás”, alertou.
Por isso, defende que a aprendizagem não deve terminar com a conclusão da formação académica, mas acompanhar as mudanças no mercado e na sociedade.
Palestras mensais nas universidades
A iniciativa deverá continuar nos próximos meses, com novas sessões previstas em instituições de ensino superior da cidade de Nampula.
“Dentro de mais um mês, prevemos realizar mais uma sessão. A ideia é fazer, em princípio, uma palestra por mês em todas as universidades da cidade”, avançou Napuanha.
Questionado sobre a razão de iniciar a iniciativa neste momento, o escritor considerou que não existe uma altura específica para começar uma mudança.
“Todo o momento é oportuno. Se calhar antes não foi possível, mas qualquer altura é sempre certa para começar”, afirmou.
Embora as universidades constituam um dos principais espaços de realização das palestras, a iniciativa pretende alcançar também outros segmentos da sociedade.
Jovens defendem continuidade da iniciativa
Entre os participantes, a iniciativa é vista como uma oportunidade para repensar a relação entre formação, emprego e empreendedorismo.
Mendes Maurício José, um dos participantes, afirmou ter terminado a sessão com uma perspectiva diferente sobre a vida profissional e a criação de negócios.
“Na verdade, é uma palestra para o saber. Todos nós que estivemos nesta sala saímos com uma visão diferente de encarar a vida. Agora percebemos como iniciar um negócio e encontrar alternativas para superar as dificuldades”, afirmou.
Para Mendes, iniciativas desta natureza deveriam ser multiplicadas, sobretudo entre jovens que concluem o ensino superior e encontram dificuldades para entrar no mercado de trabalho.
“Quando terminamos a faculdade, pensamos apenas no emprego formal como forma de recuperar o investimento feito na formação. Mas agora já temos outra noção: o autoemprego pode gerar mais oportunidades e até melhores rendimentos”, disse.
Priscila Francisco, também participante, considera que a formação académica nem sempre prepara os jovens para a transição entre a universidade e o mercado de trabalho.
“A ideia de muitos de nós é estudar para conseguir emprego no Estado, mas esquecemos de adquirir conhecimentos para o autoemprego. Esta palestra encoraja-nos a acreditar no nosso próprio potencial”, afirmou.
Com a continuidade das sessões, Pereira Napuanha pretende contribuir para que mais cidadãos desenvolvam conhecimentos para gerir recursos, identificar oportunidades e transformar conhecimento em acção, num contexto marcado por desafios no acesso ao emprego e na geração de rendimentos. Agostinho Miguel

