Em 2018, o Governo investiu cerca de 6 milhões de meticais na construção de um edifício moderno destinado a albergar a segunda Conservatória dos Registos e Notariado da cidade de Nampula, no bairro de Marrere. A obra tinha como objectivo aproximar os serviços de registo da população, descongestionar a sede provincial e evitar que os cidadãos percorressem 20 quilómetros até Rapale para tratar documentos como Bilhete de Identidade, certidões e celebração de casamentos.
Por: Agostinho Miguel
Mas o que deveria ser símbolo de progresso rapidamente se transformou em vergonha nacional. Entregue à própria sorte logo após a sua conclusão, em 2020, o edifício foi abandonado, saqueado e vandalizado. Sem portas, sem janelas e sem eletricidade, o espaço tornou-se covil de assaltantes que aterrorizavam o bairro. No dia 1 de abril de 2024, o jornal NGANI denunciou o escândalo, mostrando como uma obra pública financiada pelo erário se convertera em esconderijo do crime.
Durante anos, o edifício abandonado foi palco de histórias macabras. O temido “grupo 15”, conhecido pela sua violência, usava as instalações para planear e executar assaltos. Moradores relatam ter encontrado vestígios de sangue e roupas ensanguentadas no interior. “Não tínhamos paz. À noite, ninguém podia circular. Até motorizadas eram arrancadas à força. O meu primo foi espancado mortalmente por agressores que se escondiam aqui”, recorda Paulo Fernando, morador do bairro.
A insegurança era tal que muitas mercearias e barracas encerraram as portas, mergulhando a comunidade no medo. “Este edifício era o coração da bandidagem. Agora, ao ver a sua recuperação, sentimos alívio. Algumas lojas já reabriram. Só pedimos mais patrulhas policiais para não voltarmos ao mesmo pesadelo”, apelou Castro Raul, outro residente.
Governo acorda da sombra.
A pressão pública surtiu efeito. Após a denúncia do NGANI, o Governo decidiu recuperar a infraestrutura, despertando de uma “letargia de bananeira” que custou caro ao erário. Em meados de 2023, a então ministra dos Assuntos Constitucionais e Religiosos, Helena Kida, visitou o local, mas nada garantiu. Só em 2024 a decisão foi tomada e a reabilitação adjudicada à empresa Waza Construções.
O encarregado da obra, António Ilala, explicou que os trabalhos arrancaram a 3 de Março de 2024 e avançaram em ritmo acelerado. O custo da reabilitação ascendeu a 8.342.344,72 meticais. “Quando chegámos, era uma ruína. Portas, janelas, cabos elétricos, tudo tinha sido roubado. Hoje, já repusemos tudo. Estamos em 95% da execução e acreditamos que a obra será entregue ainda este ano”, garantiu.
As mudanças saltam à vista. O edifício ganhou nova pintura, janelas e portas reforçadas, instalação elétrica reconstituída, chapas de zinco substituídas, muro de vedação, alpendre para utentes e até um reservatório de água. Pequenos detalhes finais, como a montagem do teto e o reforço dos portões, estão a ser concluídos.
Para os moradores, a recuperação representa uma vitória. O espaço que simbolizava decadência e insegurança promete tornar-se novamente ponto de serviços e cidadania. “Ver este edifício renascer é ver a nossa dignidade de volta. O que antes era sinal de abandono e medo, hoje é esperança”, sublinha Raul.
Apesar do alívio, a história deixa um lembrete amargo: o fracasso de gestão pública que permitiu que um investimento de milhões fosse deixado ao abandono. Para muitos, a reabilitação é bem-vinda, mas não apaga os anos em que a população de Marrere viveu refém de criminosos sob as barbas do Estado.
O caso expõe uma realidade recorrente em Moçambique: obras públicas entregues sem fiscalização, consumindo milhões, apenas para ruírem dias depois. A conservatória de Marrere é, agora, apresentada como “joia” de Nampula, mas a verdade é que renasceu das cinzas de um escândalo.

