Os cartões da exclusão e da humilhação nos comboios dos CFM (SUL)

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Há duas ou há três semanas ou mesmo há um mês atrás ouvia-se em conversas veladas e despreocupadas entre amigos de viagem que havia interesse de obrigar os passageiros dos Comboios, os chamados Automotoras, a adquirirem um CARTÃO, tipo passe, como condição para as viagens que as vidas profissional e ocupacional demandam. Na verdade, nunca antes alguém imaginara isso poder vir a ser verdade, e como poderia ser verdade? E sendo verdade tal interesse, deveria fundar-se em um quadro legal qualquer, de tantos que se geram neste país. O que se sabe, e todos nós temos a plena consciência, é o conjunto todo de princípios e normas do SERVIÇO PÚBLICO, sim, isso mesmo, o Serviço Público em todo o Mundo centra-se, ou melhor, foca-se na SATISFAÇÃO DAS NECESSIDADES COLECTIVAS. O Serviço Público é assegurado pelo Estado através das instituições e entidades que o compõe.

Mas, daquelas conversas à moda boato à realidade que já se vive desde semana passada, isto é, primeiros dias deste mês de Abril, vive-se um ambiente que trucida todas as regras do Serviço Público nas Estações dos CFM da cidade e província de Maputo, assim como à bordo das respectivas Automotoras, em particular. É que, quem não tem o tal CARTÃO, não pode viajar de Automotora ou então se obriga, por intermediação de um revisor (cobrador), a socorrer-se de um favor de quem tem o CARTÃO, fazendo depois as compensações correspondentes, isto é, o sem cartão paga ao que tem o cartão, em dinheiro físico. É o que se vive nestes dias que correm nas estações e nos comboios, um cenário que expõe as vulnerabilidades das pessoas e da própria empresa CFM.

Ninguém está contra a modernização dos serviços, mas a diversificação do acesso a esses serviços nunca devia ser postos em causa. Em todo o mundo é assim, todo o serviço, até o privado, paga-se em numerário (condição básica e número Um) como também se paga por outras formas, cartão, carteiras móveis, etc., etc.. É que o provedor do serviço tem um interesse primordial, que é Ganhar Dinheiro, ou melhor, Lucros para sofisticar ou melhorar mais os serviços e fazer outros investimentos. Por que tudo indica, os CFM – SUL, na área metropolitana de Grande Maputo, o grande foco é ganhar Dinheiro, Lucros com pessoas capazes de comprar o tal CARTÃO, que custa um Valor equivalente a duas Viagens (100,00Mts), e ainda fazer um carregamento para viagens posteriores. Parece algo prático, simples e indiscutível, mas estamos a lidar com UM SERVIÇO PÚBLICO que se não compadece com elitismos, poderes financeiros, e status; o SERVIÇO PÚBLICO está voltado para INCLUSÃO, para todos, por isso, sem pré-condições que indiciam discriminação e preferências.

Os Comboios dos CFM não deviam preocupar-se com essas coisas feias que um dia todos em conjunto gritamos em UNÍSSONO: ABAIXO! Todos, como país, gritamos esse slogan, isto é, combatemos contra as exclusões, as discriminações, o Apartheid, e dissemos a todos os pulmões ABAIXO! Mas tudo mostra que aquilo tinha sido um equívoco, porque é melhor termos meios de transporte só para pessoas que podem. Que podem comprar um CARTÃO a CEM Meticais e ainda recarregá-lo, mesmo sem qualquer garantia. Sim, os tais cartões não têm garantia nenhuma, não são personalizados, apesar de se exigir dados pessoas, quer dizer, em caso de extravio, perda ou roubo, o felizardo pode beneficiar-se do saldo do infeliz para viajar até que baste. O infeliz, o acto de aquisição do outro cartão, o sistema não tem como fazer a reposição do valor, porque este está a beneficiar o sortudo.

Nestes dias chega-se à Estação Central, nas horas dos embarques, e vê-se a confusão, certamente que os patrões se jubilam com aquilo, coisa que a gente costuma ver em empresinhas acabadas de nascer, sem experiência nem maturidade nem profissionalismo. Vemos enchentes nas cabinas ou nas bilheteiras, todos querem recarregar os cartões, mas outros querem a quem lhes possas pagar, para, em troca, dar o Cinquenta vivo; os ouvidos ouvem também vozes dos revisores e de alguns cheios de ares de chefes a gritarem ʺQuem não tem cartão não viaja, melhor falar com alguém com cartãoʺ! Santo Deus! Vejam até onde nós chegamos. Os outros, aqueles que os expulsamos há Cinquenta Anos, é que nos impediam de usufruir certos serviços porque éramos indígenas e pretos e não assimilados, e agora? Está aqui o branco português para fazer isso? Não falo do que acontece a bordo, um vai e vem dos revisores, belo trabalho que arranjaram; mas certamente estão convencidos que, no fim, tudo estará resolvido. No entanto, as vulnerabilidades dos citadinos de Maputo, Marracuene, Boane e Matola não vão acabar com os interesses elitistas da Garnde Empresa CFM – SUL.

Nas mesmas conversas veladas fala-se que, e já se verifica, os revisores terão um intenso trabalho, recarregar Cem ou Cinquenta de N passageiros todas as viagens, porque são muitos que não têm dinheiro para recarregar para dois, três dias, uma semana ou um mês, aliás, como disse antes, quem faria isso sabendo que, em caso de perda ou extravio, teria perdido todo o seu dinheiro; outra realidade é que há muita gente neste Grande Maputo que vive um dia de cada vez, só conseguem dinheiro cada dia, para comer e fazer viagem de regresso para casa. Fala-se também de estar em curso, neste cenário todo, uma BOLADA de um fulano com seus poderes. Os cartões devem acabar para fechar o investimento. Que fundamento se advoga para cobrar aquisição de um cartão não personalizado, sem garantia nenhuma nem abrangência; é que com o tal CARTÃO não se pode viajar dos comboios da mesma empresa (CFM) na Beira, Nacala, Cuamba, Tete… faz isso algum sentido?

O que se sabe, a região metropolitana do Grande Maputo é constituída por pessoas de baixa renda (tudo engraçado), maioritariamente funcionários do Estado, vendedores dos mercados, trabalhadores da área de restauração, em geral. Quanto essa gente ganha? O estado e os patrões anunciam anualmente os salários dessa gente toda. Como os CFM arriscam-se a gozar com essa gente toda? Moçambique está ainda nos degraus de baixo na escada para o desenvolvimento, mas sabemos que os países que já estão nos degraus de todo ainda cobram concomitantemente em numerário e por outras vias os serviços, Público inclusive. Nesses países, os cartões que se usam são abrangentes, quer dizer, servem para os transportes, rodoviários, ferroviários, marítimos e aéreos, bem como para aquisição de bens e outros serviços. A Empresa Caminhos de Ferro de Moçambique precisa mostrar e convencer que é uma empresa Grande e Importante e, se tem os problemas que tem, deve saber resolvê-los sem colocar em causa o SERVIÇO PÚBLICO. Se as contas não BATEM, se os SERVIDORES MAMAM sozinhos, encontre outros mecanismos, mas não humilhe nem se proponha a fazer o exercício de exclusão de tanta gente que deseja viajar sem aborrecimentos.              

GULANGUMOSO

Rosário Guambe

rosariogwambe@gmail.com

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