Os padres Cantifula de Castro e António Bonato lançaram, na terça-feira (16), o livro Vida Nova: uma voz profética que denuncia as injustiças em Moçambique. A obra, com 213 páginas e disponível ao preço de 500 meticais, representa não apenas um marco literário, mas também um apelo à consciência social, política e religiosa do país.
O lançamento coincidiu com a celebração dos 65 anos da revista Vida Nova em Moçambique, publicação que, desde 1960, tem desempenhado um papel activo na formação da opinião pública. Criada inicialmente como um periódico de carácter religioso, destinado sobretudo a catequistas, a revista foi progressivamente ampliando os seus horizontes até tornar-se num espaço de reflexão crítica sobre a realidade moçambicana, abordando temas religiosos, sociais, culturais e políticos.
Segundo o padre Cantifula de Castro, a revista e agora o livro assumem dois papéis fundamentais: anunciar a realidade do país em todas as suas vertentes e denunciar injustiças, violações e atropelos que marcam a vida social, cultural e política. “É uma voz profética que, ao longo de 65 anos, se dedicou a anunciar e denunciar, sempre ao lado do povo moçambicano”, sublinhou o sacerdote.
Cabo Delgado e o terrorismo: denúncia e esperança
Um dos temas centrais da revista ao longo dos últimos anos é a crise em Cabo Delgado. Para os autores, o terrorismo na província representa uma grave violação dos direitos humanos e deve ser combatido não apenas pela via militar, mas também através da denúncia constante das suas causas profundas.
Cantifula de Castro reconhece que a população local tem mostrado resistência em relação às Forças de Defesa e Segurança de Moçambique, muitas vezes preferindo o apoio das forças estrangeiras, sobretudo ruandesas. Para ele, essa rejeição reflecte a percepção de marginalização dos próprios militares nacionais e levanta suspeitas sobre possíveis interesses externos ligados à exploração das riquezas naturais da região.
“Não podemos admitir que os nossos militares sejam desvalorizados enquanto outros são exaltados. O risco é transformar a defesa nacional num palco de interesses externos que pouco ou nada beneficiam o povo moçambicano”, advertiu.
O sacerdote defende três estratégias fundamentais para pôr fim ao conflito: identificar os verdadeiros promotores do terrorismo, promover um diálogo franco e autêntico que abra caminhos para a reconciliação, e assegurar que as riquezas nacionais beneficiem todos os moçambicanos, e não apenas grupos privilegiados.
O livro também reflecte sobre a urgência de um diálogo inclusivo, sobretudo à luz das recentes manifestações pós-eleitorais que resultaram em perdas humanas, vandalismo e feridos.
Segundo os autores, este diálogo não deve repetir o padrão de encontros políticos que apenas distribuem mordomias, mas sim encarnar as dores do povo simples, escutar as causas reais da revolta e transformar-se numa oportunidade para reconstruir Moçambique após cinco décadas de independência. “Precisamos de um diálogo que cure feridas, liberte inocentes aprisionados e aponte caminhos para um país verdadeiramente novo”, defendeu o padre Cantifula de Castro.
Lei de Imprensa: “um retrocesso perigoso”
Outro ponto central da reflexão é a crítica à nova Lei de Imprensa em discussão em Moçambique. Para os autores, o diploma representa “um retrocesso perigoso” por ameaçar a liberdade de expressão e de imprensa, pilares fundamentais de uma sociedade democrática.
Na sua visão, a proposta deve ser revista com urgência, eliminando dispositivos que restringem a actuação da imprensa e garantindo condições para que os jornalistas possam exercer o seu papel com independência, responsabilidade e eficácia.
Mais do que um livro, Vida Nova é apresentado como legado histórico para as novas gerações, em particular para os profissionais da comunicação social. O percurso da revista ao longo de 65 anos mostra que sem liberdade, denúncia e coragem profética, não há futuro sustentável para Moçambique.
No contexto da transformação digital, os autores defendem que a imprensa moçambicana deve apostar nas plataformas digitais como canais modernos de resistência, denúncia e partilha de esperança.
Vida Nova: uma voz profética não é apenas uma obra literária: é um grito de justiça, um apelo à unidade nacional e um convite a reconstruir Moçambique sobre as bases da verdade, da liberdade e da dignidade humana.

