A cidade da Beira transformou-se, neste fim de semana, no epicentro da política moçambicana, ao acolher a primeira sessão do Conselho Nacional da Aliança Nacional por um Moçambique Livre e Autónomo (Anamola), o mais recente partido do cenário nacional.
O encontro, que junta pelo menos 300 participantes entre nacionais e estrangeiros, foi marcado pelo lançamento oficial da organização e por um discurso inflamado do seu líder interino, Venâncio Mondlane, que prometeu “pôr fim a meio século de roubo e escravidão” em Moçambique.
A cerimónia de abertura teve lugar no bairro da Manga – Passagem de Nível, onde milhares de pessoas se concentraram desde as primeiras horas da manhã de sábado para testemunhar o nascimento oficial do partido e ouvir as primeiras palavras de Mondlane enquanto presidente do Anamola.
O partido Anamola foi formalmente reconhecido a 15 de Agosto pelo Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, depois de um processo de registo iniciado em Abril. Apenas um mês após a aprovação, a nova força política organizou a sua primeira reunião da Comissão Executiva, em Maputo, e agora avança para a realização do Conselho Nacional na Beira, cidade onde a oposição tradicionalmente encontra terreno fértil.
Mutola Escova, mandatário judicial do partido, sublinhou que a legalização rápida é sinal de “um movimento que nasceu com respaldo popular”, enquanto Abdul Nariz, porta-voz da equipa de comunicação, descreveu a criação do partido como “um pedido do próprio povo”.
Venâncio Mondlane chegou à Beira dois dias antes do evento. A sua saída do aeroporto transformou-se numa caravana que percorreu as principais artérias da cidade, arrastando centenas de simpatizantes em motorizadas, viaturas e até a pé. Ao longo do trajecto, gritos de apoio e bandeiras improvisadas do novo partido anunciavam o clima de euforia.
Na residência onde ficou hospedado, dezenas de cidadãos aguardavam para cumprimentá-lo, transformando a chegada num acto de celebração popular. Para muitos analistas locais, a recepção foi comparável às mobilizações de outros tempos do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), também fundado na Beira, o que reforça a leitura de que a cidade poderá vir a ser a base natural do novo partido.
O discurso: “Basta de roubo”
No palco montado no largo do Mangacine — o antigo Cinema 25 de Setembro, hoje espaço habitual para manifestações políticas — Mondlane não poupou críticas ao partido governamental.
“Foi meio século de escravidão, meio século de roubo, meio século de castigar o povo. Agora chegou a altura de a gente dizer basta”, afirmou, num tom duro contra a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), no poder desde 1975.
O ex-candidato presidencial, que rejeita os resultados das eleições gerais de outubro de 2024, voltou a acusar as elites políticas de monopolizarem as riquezas nacionais. “Não podemos admitir que um país com tantas reservas de gás, petróleo, grafite e rubis continue com famílias sem refeições diárias, crianças sem carteiras e hospitais sem condições”, sublinhou. E acrescentou: “Se o país é nosso, significa que não é um punhado de 30 pessoas que tem que olhar para Moçambique como se Moçambique fosse a capoeira da sua sogra.”
Moçambique atravessa um período conturbado desde as últimas eleições gerais. A vitória de Daniel Chapo, candidato apoiado pela FRELIMO, é contestada por Mondlane, que liderou manifestações e paralisações em várias cidades.
Segundo organizações da sociedade civil que acompanharam o processo, cerca de 400 pessoas morreram em confrontos com a polícia nos meses seguintes à votação. A tensão acalmou apenas após dois encontros entre Chapo e Mondlane, mediados por líderes religiosos e comunitários, mas a desconfiança política permanece.
Neste cenário, o aparecimento do Anamola surge como a tentativa mais ousada de Venâncio Mondlane em capitalizar o descontentamento popular e estruturar uma alternativa organizada à Frelimo, mas também à Renamo e ao MDM, partidos que tradicionalmente dominavam o espaço da oposição.
Fundação Elvino Dias: memória e identidade
Durante o evento, Mondlane lançou oficialmente a Fundação Elvino Dias, em homenagem ao advogado e militante assassinado em Maputo no ano passado. A fundação pretende preservar a memória dos que tombaram “na luta pela democracia” e apoiar iniciativas sociais ligadas à educação e à juventude. “Queremos refundar Moçambique e pôr fim a cinco décadas de maus-tratos sofridos pelo povo”, disse, associando a criação da fundação à identidade do novo partido.
Na sessão inaugural do Conselho Nacional, o líder interino do Anamola apresentou os três pilares que, segundo ele, vão orientar a actuação do partido: justiça social, ética política e independência do sector judicial.
“Estes são valores inegociáveis”, afirmou Mondlane, defendendo também a despartidarização do Estado e uma reforma profunda do sistema eleitoral, sobretudo na fase inicial do apuramento, que considera ser a raiz das crises pós-eleitorais.
Entre os temas em debate até segunda-feira estão a eleição dos órgãos definitivos de direcção, a aprovação dos estatutos internos e a discussão da linha ideológica do partido. O encontro junta delegados de todas as províncias, bem como convidados nacionais e estrangeiros, entre académicos, representantes da sociedade civil e membros de partidos africanos e europeus.
“Desmaputização” e o voto jovem
A escolha da Beira para o lançamento não foi inocente. Analistas sublinham que Mondlane aposta numa estratégia de “desmaputização” da oposição, procurando deslocar o centro de gravidade político do país para a Beira e Nampula, territórios onde o eleitorado jovem e urbano demonstra maior abertura a novos discursos.
No Chiveve, a capacidade de mobilização do Anamola foi visível: milhares de jovens participaram nas actividades culturais que antecederam o lançamento oficial. Para muitos, o discurso de Mondlane ressoou como uma promessa de esperança num país onde mais de 60% da população tem menos de 25 anos e enfrenta elevadas taxas de desemprego.
Maria João, 22 anos, estudante, disse que foi à Manga “porque acredita que Mondlane é o único que fala a verdade”. Já Ernesto, 47 anos, motorista de chapa, lembrou que “a Renamo e o MDM já tiveram oportunidades, mas não mudaram nada”, acrescentando que vê o Anamola como “um novo começo”. “Estamos cansados de promessas. O que queremos é trabalho, hospitais com medicamentos e escolas com carteiras. Se ele [Mondlane] trouxer isso, terá o nosso apoio”, resumiu.
Apesar da euforia popular, os desafios do Anamola são imensos. O partido terá de consolidar uma estrutura nacional, criar comités de base e assegurar financiamento num cenário de apertado controlo político e económico. Além disso, enfrentará o teste da unidade interna, tendo em conta a rapidez com que foi formado e a centralidade da figura de Mondlane.
“É um partido ainda muito personalista, dependente da imagem de Venâncio”, avalia o politólogo Celso Mussá. “Se conseguir transformar essa energia em organização, poderá ocupar um espaço real. Caso contrário, corre o risco de ser apenas mais uma faísca num cenário já fragmentado.”
O primeiro Conselho Nacional do Anamola encerra-se na segunda-feira com a aprovação de resoluções que, segundo Mondlane, “definirão a linha de futuro do partido”. O entusiasmo vivido nas ruas da Beira confirma que o novo movimento já conquistou uma base inicial de apoio popular.
Resta saber se conseguirá transformar esse entusiasmo em votos e em representação política efetiva, ou se ficará pelo caminho como tantas outras tentativas de renovação da oposição moçambicana. Por enquanto, Mondlane insiste na mesma mensagem: “Este país é do povo. E chegou a hora de o povo tomar conta dele.”
Félix Filipe

