O advogado Pedro Delille renunciou esta terça-feira, 4 de Novembro, à defesa de José Sócrates no processo Operação Marquês. Numa carta enviada ao Tribunal Central Criminal de Lisboa, o defensor do antigo primeiro-ministro português justifica a decisão com “razões deontológicas”, afirmando que o “episódio da semana passada” o convenceu de que já não pode continuar a participar num “simulacro de julgamento”.
A referência diz respeito a uma repreensão feita pela juíza Susana Seca durante uma das últimas sessões, incidente que, segundo Delille, revelou a impossibilidade de exercer o contraditório em condições de igualdade. “Não posso continuar a integrar um processo que perdeu o sentido de justiça e se transformou numa encenação”, terá escrito o advogado, numa carta cuja cópia foi remetida ao tribunal e às partes.
Com esta decisão, José Sócrates fica sem advogado num dos julgamentos mais mediáticos da Justiça portuguesa. O tribunal já nomeou um defensor oficioso para o representar, garantindo que o processo não sofra interrupções.
A sessão marcada para esta terça-feira, destinada à audição de testemunhas, manteve-se no calendário. De acordo com a CNN Portugal, o advogado oficioso pediu o adiamento da diligência, alegando não conhecer o processo em detalhe, mas o colectivo de juízes indeferiu o pedido, determinando a continuidade dos trabalhos.
Pedro Delille representava Sócrates há vários anos e acompanhou a defesa desde as fases iniciais da Operação Marquês, processo que envolve acusações de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal. A renúncia, portanto, marca uma viragem significativa na estratégia da defesa, que já enfrentava críticas pela morosidade e complexidade do caso.
A saída de Delille levanta novas dúvidas sobre o futuro judicial do ex-primeiro-ministro, que, desde 2014, se tornou figura central do maior processo de corrupção da história recente de Portugal. O tribunal ainda não se pronunciou oficialmente sobre se a substituição do advogado poderá influenciar o calendário das próximas sessões, mas fontes próximas do processo admitem que o novo defensor poderá requerer tempo adicional para estudar os milhares de páginas que compõem o processo.

