O presidente do partido ANAMOLA, Venâncio Mondlane, acusou o Governo de má gestão, improvisação e desvio de fundos na resposta às cheias que afectam várias regiões do país, afirmando que Moçambique vive mais uma “tragédia anunciada” apesar de alertas prévios e de milhões de dólares recebidos ao longo dos anos para a gestão de desastres.
Mondlane falava na noite de domingo, 19 de Janeiro, durante uma transmissão em directo nas redes sociais, na qual fez um balanço da situação das cheias, das acções humanitárias em curso e dos principais constrangimentos enfrentados pelas populações afectadas.
Durante a intervenção, o dirigente informou que o ANAMOLA colocou à disposição as suas sedes provinciais, distritais e postos administrativos em todo o país para apoiar as vítimas, assegurando condições mínimas de assistência, como alimentos, medicamentos, vestuário e outros bens essenciais. Segundo disse, cidadãos “de boa fé” têm contribuído com donativos para reforçar o apoio às comunidades afectadas.
No terreno, foram realizadas operações de resgate no bairro de Hulene, em Maputo, com encaminhamento de famílias para a Escola Primária de Laulane. Em Nkobe, o partido apoiou mais de 25 famílias, enquanto a sede provincial do ANAMOLA em Maputo acolheu 18 famílias deslocadas. Apesar destes esforços, Mondlane alertou para uma crise grave de alimentos em vários centros de acomodação, apelando à solidariedade directa dos moçambicanos.
O líder partidário denunciou ainda limitações sérias nas operações de resgate, sobretudo envolvendo pessoas com problemas de saúde, como casos registados em Tchalala. Referiu a existência de muitos doentes nos centros de acomodação e apelou à mobilização urgente de médicos do sector público e privado, reconhecendo, no entanto, que os profissionais de saúde do Estado se encontram em greve legítima.
Para além da resposta humanitária imediata, Venâncio Mondlane questionou as razões pelas quais desastres naturais previsíveis continuam a transformar-se em tragédias no país. Segundo afirmou, alertas claros foram emitidos com antecedência pela Direcção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos e pelo Instituto Nacional de Meteorologia, prevendo chuvas intensas e cheias graves entre Janeiro e Março.
De acordo com Mondlane, desde Outubro de 2025 o Governo deveria ter preparado um plano nacional de contingência. Citou uma publicação da Agência de Informação de Moçambique, de Setembro de 2025, que estimava entre 400 mil e 600 mil pessoas em necessidade de assistência humanitária na época chuvosa 2025–2026, com cerca de quatro milhões de cidadãos em áreas de risco e mais de 120 sistemas de abastecimento de água vulneráveis a inundações.
O presidente do ANAMOLA recordou igualmente que as bacias hidrográficas do Umbelúzi, Incomáti e Limpopo, no sul do país, bem como as do Save, Púnguè e Licungo, já tinham sido identificadas como áreas críticas, sublinhando que, desde Agosto de 2025, bacias a montante, sobretudo na África do Sul, estavam próximas do limite de encaixe de água.
Mondlane apresentou ainda um histórico de cheias e ciclones, referindo que, nas últimas décadas, Moçambique recebeu cerca de cinco mil milhões de dólares para a gestão de desastres naturais e mudanças climáticas. Questionou o destino desses recursos, denunciando desvios de fundos, obras de fraca qualidade, estradas e pontes que se degradam rapidamente e má aplicação de financiamentos do Banco Mundial.
Entre os casos citados estão o alegado desvio de cerca de 196 milhões de meticais entre 2020 e 2021 destinados à ajuda humanitária, a compra de viaturas de luxo com fundos públicos, o uso indevido de 13 milhões de meticais em obras sem ligação à prevenção de cheias e desvios de cerca de 50 milhões de meticais associados à resposta à COVID-19.
O dirigente afirmou que o problema do país não reside na ausência de políticas públicas, uma vez que existe um quadro legal considerado robusto, mas sim na má gestão e na impunidade. Sobre as cheias actuais, denunciou falta e desvio de alimentos nos centros de acomodação, cobranças ilícitas para operações de resgate e situações em que embarcações da Marinha não actuaram por alegada falta de ordens.

No plano político, Venâncio Mondlane denunciou perseguições contra membros do ANAMOLA envolvidos em acções humanitárias, incluindo detenções, assassinatos e intimidações. Referiu ainda que famílias resgatadas pelo partido em Hulene e alojadas na Escola Primária de Laulane terão sido expulsas por ordens superiores, encontrando posteriormente abrigo numa igreja católica com apoio do ANAMOLA.
Com a previsão de agravamento da situação nos próximos dias, o líder do partido apelou ao reforço imediato da solidariedade nacional, sublinhando que a assistência às vítimas é urgente, mas que a responsabilização, a transparência e o fim da impunidade são essenciais para quebrar o ciclo de tragédias repetidas no país.
