Os dois tractores atribuídos pelo Governo ao posto administrativo de Lunga, distrito de Mossuril, província de Nampula, para reforçar o transporte rural, encontram-se paralisados há vários meses, transformando um projecto concebido para reduzir o isolamento das comunidades num exemplo de desperdício de recursos públicos.
Os equipamentos fazem parte de um lote de dez tractores distribuídos em 2024 pelo Ministério dos Transportes e Logística às províncias de Cabo Delgado, Niassa, Nampula, Zambézia e Manica, numa iniciativa destinada a melhorar a mobilidade em zonas rurais de difícil acesso.
Em Nampula, os dois meios foram entregues às comunidades de Lunga, criando expectativas entre os residentes quanto à facilitação do transporte de pessoas e bens. Contudo, os tractores operaram apenas durante alguns dias antes de deixarem de circular.
Desde então, permanecem imobilizados, expostos à degradação, sem que tenha sido tornado público qualquer plano para a sua recuperação ou reactivação.
Com a interrupção do serviço, os residentes voltaram a percorrer longas distâncias a pé para transportar produtos agrícolas e aceder a serviços básicos, anulando os benefícios inicialmente prometidos pelo projecto.
Sociedade civil fala em desperdício de recursos
O director executivo da Associação de Resistência e Acção pela Vida, Jojo Ernesto, considera que o projecto foi implementado sem a devida planificação operacional.
“Investe-se milhões de meticais na compra de tractores, mas não se define quem vai operá-los, como será feita a manutenção e de onde virá o combustível. Isso revela falta de organização na gestão dos recursos públicos”, afirmou.
Segundo o activista, os investimentos poderiam ter sido direccionados para a mecanização agrícola, com impacto mais directo no aumento da produção alimentar.
“Estamos numa região em que a maioria da população vive da agricultura, mas optou-se por adquirir tractores para transporte sem garantir condições para o seu funcionamento. É uma escolha que não responde às necessidades reais das comunidades”, disse.
Para Jojo Ernesto, os equipamentos acabaram por se transformar em símbolos de desperdício.
“Compraram tractores para ficarem parados. Hoje são verdadeiros monumentos ao desperdício. As pessoas olham para eles e perguntam: serviram para quê?”, questionou.
O activista defendeu ainda a realização de uma auditoria independente para apurar eventuais responsabilidades na gestão do projecto.
“Não pode haver investimentos públicos desta dimensão sem prestação de contas. É necessário saber quem planeou, quem executou e porque é que os meios acabaram nesta situação”, acrescentou.
Governo admite paralisação
A Direcção Provincial dos Transportes e Comunicações de Nampula reconheceu a inoperacionalidade dos tractores, atribuindo a situação à falta de operadores e de combustível.

O director provincial, Joaquim Tomás, explicou que os equipamentos não estão parados por avarias mecânicas.
“Reconhecemos que os tractores estão inoperacionais, não por avaria, mas por falta de combustível e de operadores qualificados”, afirmou.
Segundo o responsável, a gestão dos meios não depende exclusivamente da instituição que dirige.
“A responsabilidade pela gestão dos tractores está a cargo dos governos distritais e do nível central. Neste momento, não temos indicação de quando a situação será resolvida”, declarou.
Questionado sobre o destino dos operadores inicialmente contratados para assegurar o funcionamento dos equipamentos, Joaquim Tomás não avançou esclarecimentos.
Enquanto isso, as comunidades de Lunga continuam a enfrentar sérias dificuldades de mobilidade e a depender de longas caminhadas para o transporte de mercadorias e o acesso a serviços essenciais.
O projecto que prometia reduzir o isolamento das populações acabou por produzir o efeito contrário: os tractores permanecem abandonados, expostos à degradação e sem qualquer previsão para voltarem a servir as comunidades para as quais foram adquiridos. Agostinho Miguel
