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	<title>Arquivo de Opinião - Jornal NGANI</title>
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	<description>O Jornal que Informa e Educa!</description>
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	<title>Arquivo de Opinião - Jornal NGANI</title>
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		<title>A Igreja Católica não inventou Moçambique</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ngani]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Jul 2026 10:41:37 +0000</pubDate>
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<p class="wp-block-paragraph">Há momentos em que uma sociedade revela mais sobre si própria do que sobre o facto que diz estar a discutir. A morte trágica de Dom Osório Citora Afonso, bispo de Quelimane, é um desses momentos. Em vez de prevalecer o silêncio respeitoso, a busca pela verdade e a justiça, assistimos a uma romaria de oportunistas que transformaram uma tragédia numa arma de arremesso contra a Santa Mãe Igreja Católica. De repente, para alguns, o problema deixou de ser um homicídio brutal para passar a ser a instituição que a vítima serviu durante toda a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É um exercício intelectualmente sujo e moralmente desonesto. Ninguém, em pleno uso da razão, pode defender padres que violem os votos que livremente fizeram, que sejam polígamos, que desviem património da Igreja ou que, eventualmente, participem em actos criminosos. Se as acusações vierem a ser provadas em tribunal, esses homens devem responder perante a justiça do Estado e perante a justiça canónica. Não há qualquer espaço para complacência. O mal deve ser chamado pelo seu nome.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas existe uma diferença gigantesca entre condenar indivíduos e condenar uma instituição inteira. Confundir uma árvore doente com toda a floresta é um erro lógico que apenas interessa a quem procura destruir a credibilidade de uma voz incómoda. E a Igreja Católica tem sido, há muitos anos, uma voz incómoda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto grande parte das instituições nacionais sucumbiu ao silêncio, ao medo ou à conveniência, a Conferência Episcopal de Moçambique permaneceu como uma das poucas consciências morais do país. As suas cartas pastorais, publicadas ao longo de décadas, denunciaram a corrupção quando muitos a normalizavam. Alertaram para a degradação da democracia quando outros celebravam vitórias eleitorais fruto de fraudes. Chamaram a atenção para a pobreza crescente num país rico em recursos naturais. Defenderam a paz quando a linguagem dominante era a da intolerância política. Criticaram o clientelismo, o enriquecimento ilícito, a exclusão social e a captura do Estado por interesses particulares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é por acaso que essas cartas continuam a incomodar. É por isso que, sempre que surge uma oportunidade, aparecem aqueles que procuram inverter os papéis transformando a vítima em culpada e o denunciante em réu. No entanto, gostaríamos de saber, de onde vieram esses padres de quem hoje todos falam? Vieram de Marte? Foram forjados numa fábrica secreta do Vaticano?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não. Os sacerdotes vieram exactamente da nossa sociedade. A mesma sociedade que produz governantes corruptos, funcionários que vendem serviços públicos, empresários que vivem de favores políticos, magistrados desonestos e ao serviço de partidos, polícias que matam sem necessidade e extorquem, professores que violam alunas e que vendem notas, médicos que cobram para atender doentes e cidadãos que, diariamente, normalizam pequenas e grandes ilegalidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os padres não nascem padres. Nascem filhos desta sociedade. Crescem nas nossas famílias. Estudam nas nossas escolas. Respiram a mesma cultura política. São moldados pelos mesmos valores, ou pela ausência deles. Quando uma sociedade adoece profundamente, nenhuma instituição permanece completamente imune. Nem a Igreja, nem a universidade, nem os tribunais, nem os partidos políticos, nem as empresas privadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Igreja não está fora da sociedade. Está dentro dela. Seria extraordinário imaginar que um país onde a violência política ainda encontra espaço, onde membros da oposição, jornalistas independentes, activistas de direitos humanos são silenciados, intimidados e assassinados, onde denúncias de corrupção raramente terminam em condenações exemplares e onde a impunidade se tornou quase um método de governação pudesse produzir um clero composto apenas por santos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As instituições são espelhos do meio em que existem. E o espelho apenas reflecte aquilo que está diante dele. Moçambique vive há décadas uma crise que ultrapassa a economia. É uma crise ética. Uma erosão lenta da ideia de bem comum. A fronteira entre o certo e o errado tornou-se difusa. O sucesso passou, demasiadas vezes, a medir-se não pelo mérito, mas pela proximidade ao poder. A lei tornou-se severa para alguns e surpreendentemente tolerante para outros. A confiança nas instituições diminuiu à medida que aumentava a percepção de desigualdade perante a justiça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Num ambiente assim, não é difícil compreender porque surgem indivíduos que colocam os seus interesses acima da missão que juraram cumprir. Isso não absolve ninguém. Mas ajuda a explicar. E compreender não significa justificar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aliás, se as informações tornadas públicas estiverem correctas, o próprio Dom Osório Citora procurava enfrentar esses desvios. Alegadamente promoveu sindicâncias internas, afastou responsáveis, denunciou irregularidades e iniciou processos disciplinares. Ou seja, a própria Igreja estava a tentar purificar-se.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa é a diferença entre uma instituição viva e uma instituição morta, a capacidade de reconhecer as suas feridas e tentar curá-las.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os erros de alguns sacerdotes não anulam o trabalho silencioso de milhares de religiosos que continuam a servir comunidades esquecidas, educando crianças, tratando doentes, acolhendo órfãos, assistindo idosos e promovendo a reconciliação em zonas onde o Estado chega tarde ou simplesmente não chega. Esses homens e mulheres existem. E são muitos. Infelizmente, o bem raramente produz manchetes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Terminando, tragédia de Quelimane não deveria servir para condenar a Igreja, mas para obrigar Moçambique a olhar para si próprio. Porque nenhuma instituição consegue produzir santos quando está mergulhada numa sociedade onde a impunidade se tornou hábito, a corrupção ascendeu a método, a violência política deixou de espantar e o mérito foi demasiadas vezes substituído pela lealdade partidária. Os homens passam; os sistemas permanecem. E há sistemas que, depois de meio século a moldar um país, já não podem continuar a reclamar os méritos do que corre bem e a fugir às responsabilidades pelo que corre mal. <strong><em>EditorialJornalNGANI02072029</em></strong></p>
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		<title>FENA: Quando a visão derrota a rotina</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Jun 2026 14:51:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>NGANI visitou, no último fim de semana, a sétima edição da Feira Económica de Nampula (FENA) e regressou com a certeza difícil de ignorar de que Moçambique acaba de ganhar uma nova referência na organização de grandes eventos económicos. Confessamos que fomos à feira movidos pela curiosidade e regressámos profundamente impressionados. Ao longo de vários [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">NGANI visitou, no último fim de semana, a sétima edição da Feira Económica de Nampula (FENA) e regressou com a certeza difícil de ignorar de que Moçambique acaba de ganhar uma nova referência na organização de grandes eventos económicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Confessamos que fomos à feira movidos pela curiosidade e regressámos profundamente impressionados. Ao longo de vários anos temos participado de perto na Feira Internacional de Maputo (FACIM), considerada a maior montra económica do país, e nunca imaginámos que uma feira provincial pudesse atingir um nível de organização, funcionalidade, estética, qualidade dos expositores e capacidade de mobilização que, em vários aspectos, não apenas rivaliza, mas chega mesmo a superar aquilo que hoje encontramos na FACIM.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta constatação não diminui o valor histórico da feira de Maputo, cuja importância para a economia nacional permanece inquestionável, mas obriga-nos a reconhecer que a excelência deixou de ter uma única morada e que o centro da inovação pode surgir onde existe liderança capaz de desafiar a rotina e recusar a mediocridade. A FENA não impressiona apenas pelos números, embora estes sejam suficientemente expressivos para justificar qualquer celebração.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais de vinte mil visitantes, trezentos e oitenta e seis expositores nacionais e internacionais, cento e nove milhões de meticais movimentados em negócios, mais de mil e quatrocentos empregos sazonais criados e dezenas de acordos de cooperação assinados constituem indicadores que qualquer organização pública ou privada gostaria de apresentar. Contudo, reduzir o sucesso da FENA a estes indicadores seria cometer uma injustiça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O verdadeiro impacto da feira está naquilo que os números não conseguem medir, que é a sensação de profissionalismo, a qualidade da experiência proporcionada aos visitantes, o cuidado visível em cada detalhe, a organização irrepreensível dos espaços, a integração harmoniosa entre instituições públicas e empresas privadas, a dinâmica permanente dos pavilhões, a programação cuidadosamente estruturada e a percepção de que tudo foi pensado para funcionar e para transmitir confiança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Num país onde tantas iniciativas continuam a ser preparadas à última hora, onde frequentemente se improvisa aquilo que deveria ser cuidadosamente planeado e onde, demasiadas vezes, o &#8220;mais ou menos&#8221; acabou por ser aceite como padrão, encontrar uma iniciativa desta dimensão organizada com tamanho rigor constitui uma agradável surpresa e, ao mesmo tempo, uma poderosa lição de gestão pública. Naturalmente, nenhum evento desta envergadura acontece por geração espontânea. Grandes realizações exigem liderança, visão estratégica, capacidade de mobilização, disciplina institucional e um compromisso permanente com a qualidade.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="887" height="522" src="https://ngani.co.mz/wp-content/uploads/2026/06/FENIAS.jpeg" alt="" class="wp-image-13156" srcset="https://ngani.co.mz/wp-content/uploads/2026/06/FENIAS.jpeg 887w, https://ngani.co.mz/wp-content/uploads/2026/06/FENIAS-300x177.jpeg 300w, https://ngani.co.mz/wp-content/uploads/2026/06/FENIAS-768x452.jpeg 768w" sizes="(max-width: 887px) 100vw, 887px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">É neste ponto que se torna impossível ignorar o papel desempenhado pelo governador Eduardo Abdula. A Feira Económica de Nampula não nasceu com o actual governador e seria desonesto ignorar o trabalho desenvolvido pelos seus antecessores. Porém, também seria igualmente injusto não reconhecer que foi durante a sua liderança que a FENA conheceu um salto qualitativo que a transformou numa referência nacional. Não é por acaso que empresários, investidores, parceiros de desenvolvimento e visitantes passaram a olhar para esta feira com uma atenção crescente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há uma visão clara por detrás deste projecto e essa visão reflecte-se na capacidade de mobilizar instituições, envolver o sector privado, criar confiança, elevar os padrões de organização e transmitir a convicção de que Nampula pode disputar os maiores palcos económicos do país sem qualquer complexo de inferioridade. Os líderes distinguem-se pela capacidade de transformar possibilidades em realidade e de fazer com que aquilo que parecia impossível se torne perfeitamente natural. É essa impressão que a FENA deixa a quem a visita. O evento parece dizer, silenciosamente, que a excelência não depende da geografia, depende das escolhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante demasiado tempo alimentámos a ideia de que os melhores eventos, as melhores organizações e os maiores exemplos de gestão tinham obrigatoriamente de nascer na capital do país. A FENA desmonta esse preconceito e demonstra que uma província pode assumir a dianteira quando existe determinação para fazer diferente. Esta realidade deve igualmente servir de reflexão para a FACIM. A Feira Internacional de Maputo continuará a ocupar um lugar de enorme relevância na economia moçambicana, mas nenhuma instituição pode viver eternamente da reputação construída no passado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mundo muda, as expectativas dos visitantes evoluem, os expositores tornam-se mais exigentes e os próprios eventos precisam de reinventar-se continuamente. Em vários momentos, a FACIM transmite hoje a sensação de ter estabilizado num modelo que deixou de surpreender. Continua importante, continua grande, continua necessária, mas já não encanta como outrora. Falta arrojo, falta uma nova visão capaz de transformar a experiência dos participantes e de renovar o entusiasmo que durante décadas caracterizou aquele certame. Talvez tenha chegado o momento de a maior feira do país olhar, com humildade e inteligência, para aquilo que Nampula conseguiu construir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aprender nunca diminuiu ninguém. Pelo contrário, é essa capacidade de reconhecer os bons exemplos que distingue as instituições que evoluem daquelas que permanecem prisioneiras do passado. A FENA demonstra que é possível organizar eventos públicos de elevado nível em Moçambique quando existe liderança competente, compromisso com a qualidade e respeito pelos cidadãos e pelos investidores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na última semana, mais do que uma feira, Nampula apresentou ao país uma visão de futuro. Mostrou que o desenvolvimento não se proclama em discursos, constrói-se através de trabalho sério, planeamento rigoroso, execução disciplinada e ambição permanente. Num tempo em que tantas vezes nos resignamos perante a mediocridade e normalizamos a falta de exigência, a FENA recorda-nos que Moçambique continua perfeitamente capaz de produzir excelência. Por isso, este editorial do NGANI não é apenas um elogio a uma feira económica. É um reconhecimento a uma forma de governar que acredita que fazer bem continua a ser uma obrigação e não uma excepção. <em><strong>EditorialJornalNGANI29062026</strong></em></p>



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		<title>Não é preciso ter medo da ANAMOLA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ngani]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 23 Jun 2026 13:24:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As imagens que vimos no fim de semana na nossa bela cidade sabiamente dirigida pelo edil Giquira, por ocasião da primeira Convenção Nacional da ANAMOLA, impressionam pela dimensão, pela intensidade e pela espontaneidade. As multidões que acompanham Venâncio Mondlane, os banhos de povo que se formam ao longo das estradas e o comício apinhado de [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">As imagens que vimos no fim de semana na nossa bela cidade sabiamente dirigida pelo edil Giquira, por ocasião da primeira Convenção Nacional da ANAMOLA, impressionam pela dimensão, pela intensidade e pela espontaneidade. As multidões que acompanham Venâncio Mondlane, os banhos de povo que se formam ao longo das estradas e o comício apinhado de gente suscitam admiração em uns, inquietação em outros e, em alguns sectores do poder, uma ansiedade que se torna cada vez mais difícil de disfarçar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, há uma verdade simples que precisa de ser dita com clareza e serenidade: não é preciso ter medo da ANAMOLA. Nem da ANAMOLA, nem da Renamo, nem do MDM, nem de qualquer outra força política que consiga conquistar simpatia popular. A democracia não foi concebida para produzir unanimidade, mas para permitir a coexistência pacífica de diferenças. O pluralismo não é uma ameaça ao Estado; é, pelo contrário, uma das suas mais importantes garantias. Os partidos nascem, crescem e desaparecem, os líderes passam, mas o povo permanece. E é por isso que nenhum partido, por mais glorioso que seja o seu passado, pode reivindicar a propriedade exclusiva da consciência dos cidadãos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez alguns sectores ainda não tenham percebido que os moçambicanos de hoje já não são os mesmos de ontem. O país mudou. O mundo mudou. As pessoas mudaram. O acesso à informação ampliou-se, as comparações tornaram-se inevitáveis e a capacidade de julgar e avaliar cresceu. O cidadão contemporâneo já não se contenta com palavras grandiosas ou narrativas históricas. Quer resultados. Quer ver escolas a funcionar, hospitais equipados, estradas transitáveis, oportunidades de emprego e perspectivas para os seus filhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os moçambicanos não são ingratos. Pelo contrário, são um povo profundamente justo. Sabem reconhecer o mérito e sabem dar a César o que é de César. A Frelimo foi durante décadas um partido querido por milhões de cidadãos. Ninguém pode apagar o seu papel histórico na luta pela independência e na construção do Estado moçambicano. E nada impede que volte a ser amplamente acarinhada pelo povo. Mas para isso terá de reencontrar a sua melhor versão. Terá de voltar a servir os cidadãos em vez de se servir deles. Terá de compreender que o amor dos povos não é uma herança transmissível nem um direito adquirido para sempre. Os povos não vivem de recordações. Vivem de pão, de escolas, de hospitais, de emprego, de esperança e de dignidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As multidões que hoje seguem Venâncio Mondlane não podem ser lidas apenas como uma manifestação de adesão partidária. Há nelas algo mais profundo e mais inquietante. O que se vê nas ruas de Nampula, de Chimoio, da Beira ou de Maputo é o retrato de um país cansado. É o rosto de uma sociedade saturada. É a expressão de gerações inteiras que nasceram, cresceram e chegaram à idade adulta sem nunca terem conhecido o desenvolvimento prometido. Há jovens que só ouviram falar de potencial, mas nunca experimentaram prosperidade. Há famílias que viram os anos passarem sem que as suas vidas melhorassem substancialmente. Há cidadãos que assistem à ascensão económica e social de uma pequena elite enquanto a maioria continua a lutar diariamente pela sobrevivência. E esse contraste cansa. Cansa profundamente. O que se observa nas multidões não é apenas entusiasmo político. É exaustão. É uma forma colectiva de dizer que já não se suporta a ausência de perspectivas e que o sofrimento prolongado deixou de ser tolerável.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="476" src="https://ngani.co.mz/wp-content/uploads/2026/06/ANAL-1024x476.jpeg" alt="" class="wp-image-13117" srcset="https://ngani.co.mz/wp-content/uploads/2026/06/ANAL-1024x476.jpeg 1024w, https://ngani.co.mz/wp-content/uploads/2026/06/ANAL-300x139.jpeg 300w, https://ngani.co.mz/wp-content/uploads/2026/06/ANAL-768x357.jpeg 768w, https://ngani.co.mz/wp-content/uploads/2026/06/ANAL-1536x714.jpeg 1536w, https://ngani.co.mz/wp-content/uploads/2026/06/ANAL.jpeg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Os povos não vivem de recordações. Vivem de pão, de escolas, de hospitais, de emprego, de esperança e de dignidade.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">E, perante esse fenómeno, a resposta nunca poderá ser a intolerância ou a violência. A história ensina-nos que nenhum regime conseguiu preservar a sua legitimidade através do medo. O recurso à repressão, às perseguições ou à intimidação jamais substituiu a boa governação. Pelo contrário, os governos verdadeiramente fortes são aqueles que não receiam a existência de adversários fortes. Quem trabalha com seriedade não precisa de temer opositores populares. Quem apresenta resultados não necessita de perseguir ninguém. Quem governa bem não precisa de se inquietar com as multidões dos outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A melhor resposta a um partido que cresce nunca foi a violência. Foi sempre a capacidade de governar melhor. E, por isso mesmo, seria um erro histórico interpretar a ascensão da ANAMOLA como uma declaração de guerra à Frelimo. Na realidade, ela deveria ser entendida como um aviso e, quem sabe, até como uma oportunidade. As democracias saudáveis precisam de oposição forte. Precisam de concorrência. Precisam de escrutínio. Precisam da possibilidade real de alternância. É essa possibilidade de perder que obriga os governos a trabalhar melhor e a permanecer ligados às aspirações dos cidadãos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aliás, os acontecimentos recentes da própria cidade de Nampula oferecem uma lição importante. Há poucos meses, mais de dez mil pessoas responderam ao apelo do governador Eduardo Abdula e marcharam nas ruas da cidade na campanha &#8220;Stop Makha&#8221;, destinada ao combate ao tráfico e consumo de drogas. A mobilização foi impressionante e mereceu elogios generalizados. Ninguém se sentiu ameaçado por aquelas multidões. Ninguém considerou que a concentração popular representasse um perigo para a República. Pelo contrário, ela foi encarada como uma demonstração saudável de participação cívica. Se assim foi, por que razão haveria de ser diferente quando os cidadãos decidem reunir-se em torno de um partido político ou de um líder da oposição?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há povo para todos. A democracia é isso. O povo não pertence a ninguém. Os cidadãos não são propriedade privada de qualquer partido ou dirigente. Cada homem e cada mulher têm o direito inalienável de escolher as causas, os projectos e os líderes em que desejam acreditar. Ninguém possui autoridade moral para exigir que todos gostem da mesma organização política. Ninguém pode ser obrigado a amar esta ou aquela força partidária. A liberdade inclui o direito de mudar de opinião, o direito de se entusiasmar e até o direito de se desiludir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez seja justamente essa verdade simples que alguns sectores ainda se recusam a aceitar. O tempo da obediência automática acabou. O cidadão moderno observa, compara, avalia e decide. Os moçambicanos aprenderam a distinguir entre trabalho e fingimento, entre propaganda e resultados, entre populismo e governação séria. Já não se deixam impressionar facilmente por discursos grandiosos quando a realidade quotidiana lhes apresenta um cenário diferente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Frelimo não precisa de combater Venâncio Mondlane. Precisa de combater as razões que levam milhares de pessoas a procurar alternativas. Não precisa de travar a ANAMOLA. Precisa de travar a pobreza, o desemprego e o desespero. Não precisa de responder ao crescimento dos seus adversários com hostilidade. Precisa de responder com resultados. Porque, no fim das contas, os moçambicanos continuam a ser um povo generoso e justo, que sabe reconhecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto ilustres, o que vimos nas ruas de Nampula não é uma mensagem de guerra. Não é uma mensagem de ódio. Não é uma mensagem de vingança. É uma mensagem de saturação. É o grito silencioso de um povo cansado de esperar. E as nações sábias escutam os sinais do seu povo antes que a frustração se transforme em ruptura. <strong><em>Editorial, JornalNGANI220626</em></strong></p>





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		<title>A surpreendente heresia de Silva Livone</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ngani]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 18 Jun 2026 15:10:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Acompanhamo-lo desde os seus primórdios como Chefe da Organização da Juventude Moçambicana (OJM). Mas nunca o levámos a sério. Parecia-nos apenas mais um pequeno arauto do sistema, dado às exuberâncias da retórica e às facilidades do discurso. Por acaso a política moçambicana produz sempre essas figuras aos magotes e, não raras vezes, acaba por tragá-las, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Acompanhamo-lo desde os seus primórdios como Chefe da Organização da Juventude Moçambicana (OJM). Mas nunca o levámos a sério. Parecia-nos apenas mais um pequeno arauto do sistema, dado às exuberâncias da retórica e às facilidades do discurso. Por acaso a política moçambicana produz sempre essas figuras aos magotes e, não raras vezes, acaba por tragá-las, convertendo-as em administradores obedientes de rotina<em>.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, de uns tempos para cá, Silva Livone tem-nos obrigado a rever os nossos juízos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não sabemos se fala por convicção profunda ou se são apenas palavras ao vento, que o tempo se encarregará de desmentir. Nunca privámos com ele. Julgamo-lo apenas pelas posições públicas que nos chegam através da imprensa. E, vistas em conjunto, elas parecem revelar um homem inconformado com a nossa miséria nacional e com esse espírito de resignação e pequenez que nos têm sido imposto pelo regime como filosofia de Estado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já vimos jovens promissores converterem-se em burocratas respeitáveis, mas intelectualmente anémicos. Já assistimos a revolucionários de ocasião, outrora inflamados, transformarem-se em simples caixas de ressonância do <em>status quo</em>. O caso de Régio Conrado, antigo comunista militante nos tempos da UEM e hoje zeloso defensor do capitalismo selvagem e das nossas mediocridades colectivas, é apenas um entre tantos. Por isso, nunca reservámos a Silva Livone um entusiasmo prematuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas houve um momento em que a nossa atenção mudou de natureza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não foi por exemplo, quando apertou os operadores da caça no Niassa. Nem quando enfrentou os revendedores ilegais de combustível. Nem sequer quando expôs as fragilidades do sistema nacional de saúde. Não foi quando disse que jovens não devem ser obrigados a pagar por vaga de emprego, nem quando pressionou a <em>Mozambique Leaf Tobacco</em> a comprar toda produção dos camponeses no Niassa</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo isso, sendo meritório, cabia ainda no domínio dos actos de governação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que verdadeiramente nos despertou foi quando decidiu tocar numa das mais antigas patologias da nossa vida pública que é a tentação, nunca escrita, mas praticada como Lei, de confundir partido, Governo e Estado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi em Chimbunila, no Niassa, a propósito do Fundo de Desenvolvimento Económico Local. Ali, Silva Livone disse algo que merece ser inscrito nos anais da sinceridade política. Denunciou a fabricação de projectos, os falsos Conselhos Consultivos e a tendência de aprovar os projectos dos filhos, das namoradas e amantes, das esposas, dos irmãos e dos camaradas, enquanto a população permanece do lado de fora. E rematou com uma frase aparentemente simples, mas arrasadora na sua profundidade republicana: &#8220;Este país é de todos&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos ouviram apenas uma frase. No NGANI, ouvimos algo mais profundo. Ouvimos um dirigente formado nas escolas da própria Frelimo a recordar uma verdade elementar que, entre nós, parece ter adquirido contornos subversivos: a cidadania não pode depender da filiação partidária, e a divergência não transforma ninguém em inimigo da pátria. E ninguém deve ser morto por isso como temos visto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez por isso as suas palavras tenham causado tamanho impacto. Não porque tenham descoberto a pólvora. Mas porque, em Moçambique, o óbvio tornou-se revolucionário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Convenhamos: habituámo-nos a uma estranha espécie de nacionalistas de ocasião, desses que confundem amor à pátria com amor às estruturas e lealdade no partido, com devoção quase religiosa. Por isso, não deixa de ser uma ironia das circunstâncias que um quadro saído da OJM venha recordar uma verdade que devia ser banal, a de que Moçambique é demasiado grande para caber em qualquer organização, por mais gloriosa que seja a sua história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naturalmente, ninguém deve ser canonizado em vida. O poder possui uma extraordinária capacidade de domesticar espíritos inquietos. A história política africana, aliás, está cheia de homens que começaram como promessas e terminaram como meros administradores do hábito. Até aqui, porém, o jovem Livone tem caminhado bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, a saudação que hoje lhe dirigimos não constitui um cheque em branco. É apenas o reconhecimento de uma virtude cada vez mais rara entre nós, a de dizer certas verdades em voz alta, sobretudo quando seria mais cómodo refugiar-se nas conveniências do silêncio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se Silva Livone acredita realmente em tudo aquilo que diz, o tempo tratará de confirmá-lo. Se for apenas retórica, a realidade encarregar-se-á de desmontar a personagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, até lá, é justo reconhecer que, no meio de tantos gestores do conformismo e de tantos nacionalistas de circunstância, Livone parece pertencer a uma espécie em vias de extinção, que é a dos homens que ainda acreditam que a pátria é maior do que os interesses imediatos e que a República deve ser suficientemente ampla para acolher até aqueles que dela discordam. Tem sido um bom dirigente. Damos-lhe nota dez. <em>Editorial, Jornal NGANI, 18/06/2026</em></p>



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		<title>Infelizmente, Dom Inácio Saúre, os assassinatos vão continuar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ngani]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 16 Jun 2026 16:29:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Durante a homilia da missa de despedida de Dom Osório Citora Afonso, na Sé Catedral de Nossa Senhora de Fátima, em Nampula, Dom Inácio Saúre levantou a voz e lançou um apelo que ultrapassou as paredes da Igreja e se transformou num grito dirigido à consciência nacional: &#8220;Parem imediatamente! Parem imediatamente, de uma vez por [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Durante a homilia da missa de despedida de Dom Osório Citora Afonso, na Sé Catedral de Nossa Senhora de Fátima, em Nampula, Dom Inácio Saúre levantou a voz e lançou um apelo que ultrapassou as paredes da Igreja e se transformou num grito dirigido à consciência nacional: &#8220;Parem imediatamente! Parem imediatamente, de uma vez por todas, com a rotina de assassinatos.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No NGANI, gostaríamos profundamente que esse apelo fosse ouvido. Gostaríamos que aquelas palavras, pronunciadas diante do corpo ainda quente de um homem de paz, encontrassem eco nos corredores frios do poder, nas instituições da República e até nos corações dos assassinos. Gostaríamos que a morte de Dom Osório representasse um ponto de viragem, um momento de vergonha colectiva suficientemente forte para obrigar o país a romper definitivamente com a banalização da violência. Gostaríamos. Mas infelizmente, Dom Inácio, as matanças não vão parar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não porque os moçambicanos sejam um povo violento. Não porque o sangue tenha substituído a razão. E nem sequer porque as autoridades desejem que isso aconteça. As matanças não vão parar porque, há muito tempo, o país parece ter entrado numa espiral em que o crime organizado e a impunidade deixaram de ser excepções para se transformarem numa característica perturbante da nossa vida colectiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há quase trinta anos que pedimos exactamente a mesma coisa que Dom Inácio pediu. Pedimos depois do assassinato de Carlos Cardoso. Pedimos depois da morte de Siba-Siba Macuácua. Pedimos depois dos homicídios de Jeremias Pondeca, de Sofrimento Matequenha, de Mahamudo Amurane, de Gilles Cistac, de Elvino Dias, de Paulo Guambe, de Arlindo Chissale e, mais recentemente, depois da morte de dezenas de membros da ANAMOLA. Pedimos após cada enterro. Pedimos após cada missa. Pedimos após cada comunicado oficial. Pedimos após cada promessa de investigação. E, no entanto, de funeral em funeral, o país foi-se habituando ao horror. A morte deixou de ser escândalo para se transformar em rotina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez resida aí a parte mais trágica desta história. A normalização do anormal. O hábito de enterrar. A capacidade de continuar como se nada tivesse acontecido. O país que se indignava com um assassinato passou a contabilizar cadáveres. O espanto deu lugar à resignação. E a impunidade, essa velha conhecida da nossa história recente, tornou-se um dos mais perigosos combustíveis da violência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há muitos anos, um constitucionalista moçambicano advertia que, quando o Estado não consegue conter o crime, corre o risco de ser o crime a impor as regras do jogo. A frase, que na altura parecia excessiva, hoje soa assustadoramente actual. Porque um Estado existe, antes de tudo, para garantir a segurança dos cidadãos. Max Weber ensinava que a essência do Estado moderno reside no monopólio legítimo da violência. Isto significa que apenas o Estado pode exercer a força e apenas dentro dos limites da lei. Quando indivíduos ou grupos conseguem matar repetidamente, com requintes de organização, sem que a justiça seja capaz de produzir respostas convincentes e duradouras, a autoridade moral do Estado começa inevitavelmente a ser corroída.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não se trata de dizer que Moçambique deixou de ter Estado. Trata-se de reconhecer, com honestidade intelectual, que o Estado tem revelado uma preocupante impotência perante certas formas de criminalidade sofisticada. E essa impotência é, por si só, uma tragédia nacional. Porque não há soberania mais importante do que a soberania sobre a vida. Não há independência mais relevante do que a capacidade de proteger os vivos. E não há democracia saudável quando os cidadãos começam a suspeitar que há homens suficientemente poderosos para matar e suficientemente invisíveis para escapar às consequências dos seus actos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também seria intelectualmente desonesto fingir que estas mortes acontecem no vazio ou que nada têm que ver com a natureza do sistema político que o país foi construindo ao longo das últimas décadas. Afinal, é difícil ignorar que muitos dos homens tombados tinham em comum a característica de terem ousado pensar diferente, denunciar, investigar, criticar ou desafiar a ordem estabelecida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jornalistas, académicos, autarcas, opositores políticos, activistas e vozes incómodas acabaram por encontrar destinos trágicos num país onde a dissidência, demasiadas vezes, parece carregar consigo uma perigosa vocação para o risco. E ainda que ninguém possa ser condenado sem provas, é impossível deixar de notar que a sombra da suspeita passou a acompanhar, de forma recorrente, aqueles que exercem o poder e aqueles que dele beneficiam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez seja esta a mais pesada herança deixada por cinquenta anos de domínio quase absoluto de um mesmo grupo político: a erosão da confiança. Porque o problema mais grave não é apenas a existência dos assassinatos. É o facto de uma parte crescente dos cidadãos já não acreditar na capacidade ou, em certos casos, na vontade do Estado de esclarecer plenamente os crimes que abalam a República.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um país chega ao ponto em que a desconfiança se torna mais forte do que a esperança e em que as teorias se tornam mais convincentes do que as versões oficiais, não é apenas a autoridade moral do Governo que está em causa. É a própria credibilidade do Estado que começa a ser julgada no tribunal silencioso da opinião pública. E, na História, poucos sinais são tão perigosos para uma democracia quanto a perda da confiança entre governantes e governados.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="771" src="https://ngani.co.mz/wp-content/uploads/2026/06/OSORIO-1024x771.jpg" alt="" class="wp-image-12979" srcset="https://ngani.co.mz/wp-content/uploads/2026/06/OSORIO-1024x771.jpg 1024w, https://ngani.co.mz/wp-content/uploads/2026/06/OSORIO-300x226.jpg 300w, https://ngani.co.mz/wp-content/uploads/2026/06/OSORIO-768x578.jpg 768w, https://ngani.co.mz/wp-content/uploads/2026/06/OSORIO.jpg 1080w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Gostaríamos que Dom Inácio estivesse errado. Gostaríamos que o seu grito tivesse a força necessária para interromper este ciclo de sangue. Gostaríamos que a morte de Dom Osório fosse a última. Mas a história recente ensina-nos a desconfiar dos optimismos fáceis. Há demasiadas viúvas. Há demasiados órfãos. Há demasiadas promessas incumpridas. Há demasiados processos inconclusivos. Há demasiados nomes inscritos nas campas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez, por isso, o verdadeiro escândalo já não seja a existência dos assassinos. O verdadeiro escândalo é a nossa capacidade de conviver com eles. O verdadeiro escândalo é um país que parece ter aprendido a viver com a violência, como se ela fosse uma fatalidade geográfica e não um fracasso político, institucional e moral. E, por mais doloroso que seja admiti-lo, talvez a pergunta que Dom Inácio lançou ao país não devesse ser dirigida apenas aos assassinos. Porque estes, infelizmente, continuarão a existir. A pergunta deveria ser dirigida ao Estado, às instituições, à classe política e a todos nós. Até quando?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque os sinos continuarão a tocar. As missas continuarão a ser celebradas. As flores continuarão a cobrir os caixões. Mas nenhum país pode continuar eternamente a sobreviver à custa dos seus funerais. <em>Editorial, JORNALNGANI, 15062026</em></p>
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		<title>A anatomia de um Estado em agonia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ngani]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jun 2026 10:54:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Durante a nossa formação de Licenciatura em Jornalismo pela Universidade Eduardo Mondlane, na capital, lá vão vinte anos, tivemos uma cadeira chamada Introdução ao Direito. Nessa disciplina, ministrada magistralmente pelo professor Mavanga, aprendemos muito sobre a ciência jurídica. Uma das matérias que mais nos marcou e passamos a estudar continuamente foi a questão das funções [&#8230;]</p>
<p>&lt;p&gt;The post <a rel="nofollow" href="https://ngani.co.mz/opiniao/09/06/2026/a-anatomia-de-um-estado-em-agonia/">A anatomia de um Estado em agonia</a> first appeared on <a rel="nofollow" href="https://ngani.co.mz">Jornal NGANI</a>.&lt;/p&gt;</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Durante a nossa formação de Licenciatura em Jornalismo pela Universidade Eduardo Mondlane, na capital, lá vão vinte anos, tivemos uma cadeira chamada Introdução ao Direito. Nessa disciplina, ministrada magistralmente pelo professor Mavanga, aprendemos muito sobre a ciência jurídica. Uma das matérias que mais nos marcou e passamos a estudar continuamente foi a questão das funções de um Estado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naquelas aulas aprendemos que, para além das suas funções jurídicas clássicas, um Estado só justifica a sua existência quando é capaz de garantir justiça, assegurar segurança e promover o bem-estar dos seus cidadãos. São esses os pilares que conferem legitimidade à autoridade política e justificam a própria razão de ser do Estado moderno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este introito vem a propósito da crescente evidência de que o actual regime tem falhado, de forma reiterada e preocupante, no cumprimento das suas responsabilidades mais elementares. E quando um governo se revela incapaz de assegurar justiça, garantir segurança e promover o bem-estar dos seus cidadãos, chega um momento em que já não lhe é possível refugiar-se em heranças históricas, factores externos ou narrativas de conveniência. Resta-lhe apenas confrontar-se com o seu próprio legado e responder perante a História.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A morte violenta de Dom Osório Citora Afonso, bispo de Quelimane e administrador apostólico da Beira, é apenas o mais recente e chocante sinal dessa falência. Um homem da Igreja, respeitado dentro e fora de Moçambique, representante de uma das mais antigas e influentes instituições do mundo, é morto a tiro dentro da sua própria residência oficial. Independentemente dos contornos que a investigação venha a revelar, o facto central permanece inalterado: um cidadão moçambicano foi assassinado num espaço que deveria ser seguro. E não era um cidadão qualquer. Era um bispo. Era uma figura pública. Era uma personalidade com projecção nacional e internacional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Senhores, se um homem com a posição, a visibilidade e o prestígio de Dom Osório não estava seguro, quem está? Se um bispo pode morrer desta forma, que garantias restam ao vendedor ambulante, ao camponês, ao professor, ao enfermeiro ou ao jornalista? O crime que vitimou Dom Osório não é apenas uma tragédia individual. É um espelho cruel do estado de insegurança em que o país mergulhou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas seria intelectualmente desonesto reduzir o problema da segurança a este caso. Há muito que Moçambique se tornou um território onde a vida humana parece valer cada vez menos. Em Cabo Delgado, milhares de pessoas morreram e milhões foram afectadas por um conflito que o Estado demorou anos a compreender e continua sem conseguir resolver plenamente. Nas cidades, os cidadãos vivem entre o medo dos assaltos, dos sequestros e da violência armada. No campo político, os acontecimentos dos últimos anos revelaram uma realidade igualmente perturbadora. Membros de partidos da oposição, activistas e cidadãos comuns foram perseguidos, agredidos e mortos em circunstâncias que continuam por esclarecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Relatórios de organizações internacionais de direitos humanos têm documentado alegações graves de uso excessivo da força, detenções arbitrárias e assassinatos durante períodos de tensão política. O mais inquietante não é apenas a existência destes factos. O mais inquietante é a ausência de consequências. Os responsáveis raramente são identificados. As investigações raramente chegam ao fim. Os processos raramente produzem justiça. O Estado parece ter perdido a capacidade de proteger e, simultaneamente, a vontade de esclarecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é exactamente aqui onde entramos na segunda grande falência nacional, a justiça. Há décadas que os moçambicanos escutam discursos inflamados sobre o combate à corrupção, a consolidação do Estado de Direito e o fortalecimento das instituições. Contudo, a realidade insiste em contradizer a retórica oficial. Os escândalos acumulam-se. Os desvios de recursos públicos sucedem-se. As denúncias multiplicam-se. E, no entanto, a percepção dominante continua a ser a de que a justiça moçambicana não trata todos os cidadãos da mesma forma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os pequenos infractores conhecem rapidamente o peso da lei. Os grandes predadores do erário público parecem navegar por um sistema muito mais indulgente. O resultado é uma erosão profunda da confiança nas instituições. E quando os cidadãos deixam de acreditar na justiça, deixam também de acreditar no próprio Estado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A justiça não existe apenas para punir criminosos. Existe para transmitir à sociedade a certeza de que as regras são iguais para todos. Quando essa certeza desaparece, instala-se uma perigosa sensação de abandono. O cidadão comum começa a acreditar que está sozinho. Que não há árbitro. Que não há protecção. Que não há consequências para quem possui poder, dinheiro ou influência. Poucas coisas são mais destrutivas para uma nação do que esta convicção colectiva de que a justiça se tornou um privilégio e não um direito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas se a situação da segurança e da justiça é preocupante, o retrato do bem-estar nacional é simplesmente devastador. Moçambique aproxima-se dos cinquenta e um anos de independência carregando indicadores sociais que deveriam envergonhar qualquer elite governante. Apesar de possuir recursos naturais abundantes, uma localização estratégica invejável e um potencial económico amplamente reconhecido, continua a figurar entre os países mais pobres do mundo. Milhões de cidadãos vivem sem acesso adequado a serviços básicos de saúde, educação, saneamento e emprego digno. O crescimento económico que durante anos foi celebrado em conferências internacionais raramente se traduziu em melhorias substanciais na vida da maioria da população.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O drama da pobreza moçambicana é ainda mais chocante porque deixou de poder ser explicado apenas por guerras, calamidades naturais ou factores externos. Depois de cinco décadas, essas justificações tornaram-se insuficientes. O que se impõe é uma avaliação honesta da qualidade da governação. Como é possível que um país com gás, carvão, rubis, terras férteis, potencial turístico e acesso ao mar continue a produzir pobreza em escala industrial? Como é possível que tantas riquezas convivam com hospitais sem medicamentos, escolas sem condições mínimas, jovens sem perspectivas e famílias inteiras condenadas à sobrevivência diária? A resposta, por mais desconfortável que seja, remete inevitavelmente para a qualidade das decisões políticas tomadas ao longo dos anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chegados aqui, torna-se difícil evitar uma conclusão incómoda. Um Estado que não consegue garantir segurança, que não inspira confiança na justiça e que fracassa na promoção do bem-estar dos seus cidadãos está a falhar nas suas funções mais elementares. E é exactamente por isso que, cinquenta anos depois, o veredicto é duro, mas inevitável. Este é o país, um Estado à beira da falência. <em>Editorial, Jornal NGAN, 080626</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Professor Hélder Jauana: De pensador para seguidor. E quem será o próximo?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ngani]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Jun 2026 10:35:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O que devia ser motivo de vivazes celebrações é, lamentavelmente, desconsiderado, desprezado e, sobretudo, causador de sentimentos de tristeza e de traição públicas. Em verdade, o nosso país está decidida e incansavelmente dando tendências evidentes de inversão e ou de distorção de todas as lógicas. É verdade que isto possa estar a acontecer um pouco [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">O que devia ser motivo de vivazes celebrações é, lamentavelmente, desconsiderado, desprezado e, sobretudo, causador de sentimentos de tristeza e de traição públicas. Em verdade, o nosso país está decidida e incansavelmente dando tendências evidentes de inversão e ou de distorção de todas as lógicas. É verdade que isto possa estar a acontecer um pouco por todo o mundo, mas, como se diz na minha língua, nos momentos de desamparo e aflição, ninguém grita o nome da mãe do outro, e eu só posso chorar pela minha; Moçambique é o meu espaço que, à semelhança de todos os outros, me foi legado pelos meus ancestrais, sendo legitimo bradar por ele sempre que se me aperceber de qualquer anormalidade, afinal tenho também sensibilidade e um pouco de conhecimento. É igualmente evidente que Moçambique, o tal espaço comum, coabitam tanto ʺos gregosʺ quanto ʺos troianosʺ e, por isso, há, seguramente, quem esteja cheio de satisfação pela retirada da sala de aulas do Professor Hélder Jauana, deixando para atrás centenas de órfãos estudantes, ávidos do conhecimento verdadeiro, e conduzido a uma sala pomposa, ritualística e cheio, não de livros, de dogmas quase impossíveis de quebra-los.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o Professor Jauana, por via de raciocínio lógico, de tudo isso sabe. E é exatamente isso que mais indigna o senso comum e leva a qualquer um, de pensamento comum e mediano, a concluir que todos afinal estão preocupados com o mesquinho problema do umbigo. A este respeito, assomam-me à memória as palavras do João Zevo, meu amigo, colega de formação e de profissão; disse-me, num dia desses, que tinha dois programas coincidentes, uma cerimónia fúnebre e uma oportunidade de ganhar dinheiro, nisto ele perguntou-me: ʺRosário, entre ganhar dignidade e ganhar dinheiro, o que optarias?ʺ Olhei para ele com cara surpresa e desconfiada, mas preferi que fosse ele mesmo a responder; rasgou a custo uma gargalhada esforçada e, no fim, disse, ʺprefiro ir fazer dinheiro, pessoas haverá para enterrar o falecidoʺ. Estará a sociedade a concluir erroneamente? Pode ser que sim, mas pode ser que não. Então o que estará a acontecer? O Professor Hélder Jauana não é o primeiro, certamente não será o último. Os moçambicanos ainda se lembram de uma lista recheada de nomes que eram sonantes na academia, no sindicalismo, na religião e até no activismo social que, tristemente, passaram a ser anónimos ou ridículos logo que passaram para o campo político-governativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Será um génio excepcional o Professor Jauana? Continuará a ser aquele intervencionista, agora na esfera governativa? Aquelas ideias brilhantes, aqueles conselhos concertados e aquelas propostas consentâneas que, das telas da Tv, ecoavam nas almas e corações de todos os moçambicanos, de dentro e de fora de Moçambique, até que há dias encontraram uma resposta à altura: ele, o Professor Hélder Jauana, é já um Presidente de Conselho de Administração de uma Agência Nacional do Investimento Turístico, uma instituição pública, que se subordina às lógicas com as quais ele se debatia com garra e alma nas horas nobres da informação televisiva, isto é, nos telejornais. É inevitável colocar perguntas como estas: fazia aquilo tudo como estratégia de ser chamado para ocupar uma cadeira na mesa do banquete ou as próprias lógicas do poder político adoptaram aquilo como estratégia de engolir os poucos peixes com mania de assomar à superfície ver a beleza do sol e das nuvens? Ninguém sabe, o que todos sabemos é isto: há muitos bons jogadores jogando no banco, ou melhor, jogando nas bancadas, mas, quando colocados no rectângulo do jogo, jogam tão igual como os outros e só pioram mais os apupos das bancadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembramo-nos de um grande economista, de nome Hipólito Hamela, um exímio intérprete dos problemas económicos e de desenvolvimento deste país, todos gostavam de vê-lo a esgrimir argumentos e a desenhar linhas de desenvolvimento deste Moçambique; foi nomeada PCA de um grande instituto público e o ilustre economista não é mais visto, e se aparece, quem mais o vê? Há um outro agroeconomista, não sei se existe esta palavra na língua de Camões; falava bem, ele sabia tudo de agroprocessamento e economia; era emocionante ouvir a ele a dizer aquelas coisas todas que o ʺgoverno deixa de fazerʺ. Colocaram o ilustre Ragendra de Sousa como Ministro de um ministério da área económica e, coitado, fez tudo errado, aliás, pior que todos. E quem mais? Ahh.. há o jornalista investigador, moldado nas lides da imprensa chamada imparcial, e trabalhado por grandes mestres da comunicação social; nos debates televisivos era mestre de palavra, tudo que dizia assentava como luva na mão. Não resistiu ao convite, como se diz na minha língua ʺKudhanwa ngu dhuswaʺ, quando se é chamado é para responder. O nome e a voz de Ericino de Salema, desde então, deixaram de ser ouvidos, calou-se ou deixou-se calar ou foi calada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gostaria de recomendar a leitura de alguns grandes pensadores destes últimos séculos (o português António Sérgio e o brasileiro Ruy Barbosa), inspirados pelo dom da sabedoria e pela condição humana prevalecente. Os governantes e todos os titulares de órgãos públicos ou privados, eclesiásticos ou sindicais ou outros nunca deviam preocupar-se com a crítica, com a censura fiscalizadora dos seus actos; o que lhes devia entristecer é o contrário, isto é, a bajulação, o puxassaquismo, o lambebotismo e o escovismo. Estes elogios despidos de sentido deviam ser combatidos com veemência por eles mesmos porque são condimentos essenciais para forjar tiranias, abusos, exploração e desumanidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a coisa caricata é mesmo esta – bajudadores, lambebotas, puxassacos &nbsp;&nbsp;afinal estão no mesmo nível dos académicos, sindicalistas, activistas consagrados e respeitados, e ambos são chamados para administrar instituições públicas ou integrar nos órgãos de soberania. E quem fica para apontar as falhas próprias do ser humano? Por isso, as acepções dos pensadores aludidos acima referem ser grande perigo para toda uma sociedade democrática desejar-se um povo que personalize, que adore, que exalte, que glorifique e ame os líderes e governantes, porque estes não estão a fazer nada mais nada menos que cumprir as obrigações definidas pelo próprio estado, governo ou outra instituição. Para o bem de todos, que se deixe florescer uma classe de críticos neste país, críticos de todas as áreas, porque os governantes, os líderes têm a missão de servir, e servir na estreita lei da justiça e bem-estar e nunca o contrário. E já agora, depois do Professor Jauana, quem vai a seguir?&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>GULANGUMOSO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="mailto:rosariogwambe@gmail.com"><strong>rosariogwambe@gmail.com</strong></a><strong></strong></p>
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		<title>O problema nunca foi o colono</title>
		<link>https://ngani.co.mz/opiniao/02/06/2026/o-problema-nunca-foi-o-colono/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ngani]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 15:19:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No último mês estivemos em Cabo Verde. Percorremos cidades, visitámos localidades remotas, conversámos com cidadãos, empresários, jornalistas e governantes. Regressámos a Moçambique com uma conclusão desconfortável que muitos não gostarão de ouvir: o problema nunca foi o colono. Durante cinquenta anos habituámo-nos a procurar explicações para os nossos fracassos no passado e no presente. Sempre [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">No último mês estivemos em Cabo Verde. Percorremos cidades, visitámos localidades remotas, conversámos com cidadãos, empresários, jornalistas e governantes. Regressámos a Moçambique com uma conclusão desconfortável que muitos não gostarão de ouvir: o problema nunca foi o colono.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante cinquenta anos habituámo-nos a procurar explicações para os nossos fracassos no passado e no presente. Sempre que o desenvolvimento não chega, aponta-se para a colonização. Sempre que a pobreza persiste, culpa-se a herança recebida em 1975. Sempre que o Estado falha, procura-se um responsável distante no tempo. O problema é que a realidade, por vezes, destrói as narrativas mais confortáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cabo Verde também foi colonizado por Portugal. Cabo Verde também se tornou independente em 1975. Cabo Verde também herdou pobreza, analfabetismo e enormes limitações estruturais. Cinquenta anos depois, porém, um país discute quando alcançará o estatuto de desenvolvido. O outro continua a fazer de tudo para sair do segundo, para o primeiro país mais pobre do mundo. A diferença não está no passado. Está nas escolhas feitas depois dele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também não está nos recursos naturais. Durante décadas ouvimos que Moçambique precisava apenas de explorar melhor as suas riquezas para finalmente prosperar. Entretanto, descobrimos gás, carvão, rubis, grafite e praticamente todos os recursos que fazem brilhar os olhos das multinacionais. Continuamos, porém, entre os países mais pobres do planeta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cabo Verde não possui nada disso. Não tem gás. Não tem carvão. Não tem rubis. Não tem florestas infinitas nem terras agrícolas abundantes. Vive essencialmente do turismo, da pesca e das remessas enviadas pelos seus cidadãos espalhados pelo mundo. A natureza foi extraordinariamente mais generosa com Moçambique. Ainda assim, um avança com confiança para o futuro enquanto o outro permanece aprisionado às promessas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A explicação das guerras também já não convence. As guerras não são fenómenos da natureza. Não aparecem como ciclones ou secas. Nascem quando as instituições falham, quando a política deixa de ser um espaço de negociação e quando determinados grupos acreditam possuir mais direitos do que os restantes cidadãos. Sociedades que respeitam instituições resolvem conflitos através da política. Sociedades que as enfraquecem acabam frequentemente por resolver conflitos através da violência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi exactamente por isso que a recente qualificação de Cabo Verde para o Mundial de Futebol de 2026 nos pareceu muito mais do que uma vitória desportiva. Aquilo que aconteceu nos relvados africanos é apenas a manifestação visível de algo que vem sendo construído há décadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nenhuma selecção nacional chega a um Campeonato do Mundo por acaso. Nenhum país ultrapassa adversários mais poderosos apenas com entusiasmo. O futebol recompensa organização, planeamento, disciplina e competência. Exactamente os mesmos valores que produzem desenvolvimento económico, estabilidade política e confiança social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Mundial de Cabo Verde começou muito antes das eliminatórias. Começou quando o país decidiu respeitar as suas instituições. Começou quando compreendeu que os governos passam, mas o Estado permanece. Começou quando percebeu que alternância política não é uma ameaça, mas um sinal de maturidade democrática.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há poucas semanas, Cabo Verde realizou eleições. Foram tão normais que dificilmente mereceriam manchetes numa democracia consolidada. Ninguém morreu. Ninguém foi perseguido. Ninguém precisou de temer a polícia para exercer direitos políticos. Os vencedores venceram. Os derrotados aceitaram os resultados. A vida continuou. Parece banal. Mas não é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobretudo para quem vem de um país onde os processos eleitorais se transformam regularmente em momentos de genocídio, onde as instituições são frequentemente arrastadas para disputas partidárias e onde a confiança pública se deteriora a cada ciclo político.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em Cabo Verde, a alternância é parte da normalidade democrática. Durante alguns anos governa um partido. Depois governa o outro. As eleições mudam governos, não mudam o país. As instituições continuam a funcionar. Os investimentos continuam a chegar. O desenvolvimento continua a acontecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi impossível não reparar na confiança que existe na sociedade cabo-verdiana. Não estamos a falar da ausência de problemas. Eles existem. Estamos a falar da convicção colectiva de que o futuro será melhor do que o presente. Essa confiança vê-se nas cidades em expansão, nas infraestruturas, nos espaços públicos cuidados, nos campos relvados encontrados mesmo em localidades relativamente pequenas e na modernidade que surge onde muitos esperariam encontrar apenas limitações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante a nossa visita ouvimos figuras influentes afirmarem que Cabo Verde poderá atingir padrões de país desenvolvido dentro de uma ou duas décadas. Em muitos países africanos tal declaração soaria a propaganda. Em Cabo Verde parece uma meta realista. Não porque tenham descoberto uma fórmula mágica. Não porque sejam mais inteligentes do que os outros. Mas porque construíram algo raro no continente: credibilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É essa credibilidade que atrai investimento. É essa credibilidade que fortalece a economia. É essa credibilidade que permite planear a longo prazo. E é essa credibilidade que, em última análise, também produz resultados no futebol.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando Cabo Verde garantiu a sua presença no Mundial de 2026, não venceu apenas um jogo. Venceu uma ideia profundamente enraizada em muitos países africanos: a de que o desenvolvimento depende da sorte geográfica. Cabo Verde demonstra exactamente o contrário. Mostra que instituições valem mais do que recursos naturais. Mostra que democracia vale mais do que propaganda. Mostra que patriotismo vale mais do que discursos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cinquenta anos depois da independência, um cabo-verdiano nascido nos anos oitenta viverá para testemunhar a transformação do seu país numa nação desenvolvida. Um moçambicano da mesma geração nunca vai ter essa sorte. Nem ele, nem os filhos e seus netos.<em> Editorial, Jornal NGANI, 01062026</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Pirataria na indústria de entretenimento África perde mais de USD 70 milhões/ano</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ngani]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 07:47:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O continente africano perde mais de 70 milhões de dólares anualmente devido a pirataria que assola a indústria criativa. O alerta foi dado pela Multichoice, uma gigante internacional na área de indústria criativa. Segundo esta multinacional, além das perdas económicas estimadas em até 71 mil milhões de dólares anuais nesta indústria, a pirataria reduz igualmente [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">O continente africano perde mais de 70 milhões de dólares anualmente devido a pirataria que assola a indústria criativa. O alerta foi dado pela Multichoice, uma gigante internacional na área de indústria criativa.<br><br>Segundo esta multinacional, além das perdas económicas estimadas em até 71 mil milhões de dólares anuais nesta indústria, a pirataria reduz igualmente a arrecadação fiscal, limitando recursos para serviços públicos e desenvolvimento social. A MultiChoice alerta, ainda, para os riscos enfrentados pelos utilizadores de plataformas ilegais, incluindo fraudes bancárias, roubo de identidade e infecção de dispositivos por malware.<br><br>Para combater o fenómeno, a empresa recomenda o uso de tecnologias de cibersegurança, capazes de rastrear conteúdos pirateados e proteger milhares de milhões de dispositivos em todo o mundo. Paralelamente, uma iniciativa designada &#8220;Parceiros Contra a Pirataria&#8221;, utilizada por esta multinacional, tem reforçado campanhas de sensibilização sobre os impactos do streaming ilegal.<br><br>Segundo a empresa, o roubo de conteúdos protegidos por direitos de autor para além de prejudicar, diretamente, a produtores, artistas, realizadores e equipas técnicas, reduz a viabilidade financeira de séries, filmes e outros programas africanos. Como consequência, muitos projectos deixam de ser produzidos, afectando milhares de profissionais ligados à cadeia criativa.<br><br>Dados da MUSO, uma empresa britânica de fiscalização de pirataria, indicam que o streaming ilegal representa 96% da pirataria de filmes e séries. Em 2023 por exemplo, estima se que foram registadas cerca de 229,4 milhões de visitas a sites piratas, número que representa um aumento de 6,7% face ao ano anterior.<br><br>De acordo com a MultiChoice, o crescimento do streaming ilegal de conteúdos está a comprometer a sustentabilidade da indústria criativa africana, ao retirar receitas, empregos e oportunidades de investimento no sector do entretenimento. <em> Fernando Matico</em></p>
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		<title>Em Nampula a justiça veste togas e arquiva verdades</title>
		<link>https://ngani.co.mz/opiniao/27/05/2026/em-nampula-a-justica-veste-togas-e-arquiva-verdades/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Ngani]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 15:14:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Procuradoria da República da Cidade de Nampula acaba de arquivar não apenas o caso de alegada tortura do activista social Gamito dos Santos. Arquivou também parte da sua própria credibilidade institucional. O argumento apresentado é o de sempre: insuficiência de provas. Ora essa senhores, Gamito dos Santos não desapareceu misteriosamente numa esquina qualquer. A [&#8230;]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">A Procuradoria da República da Cidade de Nampula acaba de arquivar não apenas o caso de alegada tortura do activista social Gamito dos Santos. Arquivou também parte da sua própria credibilidade institucional. O argumento apresentado é o de sempre: insuficiência de provas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ora essa senhores, Gamito dos Santos não desapareceu misteriosamente numa esquina qualquer. A sua detenção ocorreu no ambiente tenso das manifestações de homenagem ao maior <em>rapper </em>de todos os tempos em Moçambique<em>, </em>Azagaia, em Março de 2023. Houve denúncias públicas, testemunhos, debate social, relatos médicos e até confirmação oficial da própria polícia de que o activista esteve detido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Toda a região norte, e grande parte do país, sabe que Gamito saiu da esquadra depois da intervenção das autoridades judiciais. Saiu pela porta da frente. Não foi um episódio clandestino. Não aconteceu numa mata remota em Nipepe, Zumbo ou Massangena. Foi público. Visível. Comentado. Documentado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo assim, a Procuradoria conclui que não conseguiu reunir elementos suficientes para sustentar uma acusação. Francamente ilustres, honrem as togas. Se falham em produzir prova num caso tão exposto e amplamente escrutinado, como pretendem investigar crimes complexos, praticados longe das câmaras, da imprensa e da pressão pública?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não nos enganemos, o arquivamento desse caso não é apenas uma decisão jurídica. É uma declaração institucional e a mensagem transmitida ao cidadão é profundamente inquietante. Fica mais uma vez claro, que quando as denúncias envolvem agentes do Estado, o aparelho de justiça perde subitamente capacidade investigativa, firmeza moral e vontade de responsabilizar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em Moçambique, consolida-se perigosamente a percepção de que as instituições da lei e da ordem funcionam numa lógica de protecção recíproca. A polícia protege a polícia. A Procuradoria evita confrontar a polícia. E o cidadão fica entregue ao espectáculo recorrente e deprimente da impunidade burocraticamente legitimada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só que excelências, não basta proclamar o Estado de Direito em discursos formais enquanto casos graves são sucessivamente sepultados sob o argumento confortável da “falta de provas”, sobretudo quando os factos foram públicos, debatidos e acompanhados pela sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mais grave é que a própria Procuradoria talvez não perceba a dimensão do que acaba de admitir. Porque ao declarar insuficiência de provas num caso desta natureza, a instituição acaba por emitir um atestado involuntário de ineficácia sobre si mesma. E depois pedem ao cidadão para confiar nas instituições. Confiar em quê exactamente? Num sistema onde denúncias graves de abuso policial acabam diluídas em despachos burocráticos? Num sistema onde a verdade parece depender menos dos factos e mais da posição institucional dos envolvidos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bom, o caso Gamito pode até estar arquivado nos gabinetes da Procuradoria de Nampula. Mas permanece aberto na consciência pública. E provavelmente continuará como exemplo da distância dolorosa entre a Justiça que a Constituição promete e a Justiça que o cidadão efectivamente encontra nas instituições do Estado. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Dou-vos o meu afecto e a minha paz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vosso irmão, @<em>Félix</em>!</p>
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