Há momentos em que uma sociedade revela mais sobre si própria do que sobre o facto que diz estar a discutir. A morte trágica de Dom Osório Citora Afonso, bispo de Quelimane, é um desses momentos. Em vez de prevalecer o silêncio respeitoso, a busca pela verdade e a justiça, assistimos a uma romaria de oportunistas que transformaram uma tragédia numa arma de arremesso contra a Santa Mãe Igreja Católica. De repente, para alguns, o problema deixou de ser um homicídio brutal para passar a ser a instituição que a vítima serviu durante toda a vida.
É um exercício intelectualmente sujo e moralmente desonesto. Ninguém, em pleno uso da razão, pode defender padres que violem os votos que livremente fizeram, que sejam polígamos, que desviem património da Igreja ou que, eventualmente, participem em actos criminosos. Se as acusações vierem a ser provadas em tribunal, esses homens devem responder perante a justiça do Estado e perante a justiça canónica. Não há qualquer espaço para complacência. O mal deve ser chamado pelo seu nome.
Mas existe uma diferença gigantesca entre condenar indivíduos e condenar uma instituição inteira. Confundir uma árvore doente com toda a floresta é um erro lógico que apenas interessa a quem procura destruir a credibilidade de uma voz incómoda. E a Igreja Católica tem sido, há muitos anos, uma voz incómoda.
Enquanto grande parte das instituições nacionais sucumbiu ao silêncio, ao medo ou à conveniência, a Conferência Episcopal de Moçambique permaneceu como uma das poucas consciências morais do país. As suas cartas pastorais, publicadas ao longo de décadas, denunciaram a corrupção quando muitos a normalizavam. Alertaram para a degradação da democracia quando outros celebravam vitórias eleitorais fruto de fraudes. Chamaram a atenção para a pobreza crescente num país rico em recursos naturais. Defenderam a paz quando a linguagem dominante era a da intolerância política. Criticaram o clientelismo, o enriquecimento ilícito, a exclusão social e a captura do Estado por interesses particulares.
Não é por acaso que essas cartas continuam a incomodar. É por isso que, sempre que surge uma oportunidade, aparecem aqueles que procuram inverter os papéis transformando a vítima em culpada e o denunciante em réu. No entanto, gostaríamos de saber, de onde vieram esses padres de quem hoje todos falam? Vieram de Marte? Foram forjados numa fábrica secreta do Vaticano?
Não. Os sacerdotes vieram exactamente da nossa sociedade. A mesma sociedade que produz governantes corruptos, funcionários que vendem serviços públicos, empresários que vivem de favores políticos, magistrados desonestos e ao serviço de partidos, polícias que matam sem necessidade e extorquem, professores que violam alunas e que vendem notas, médicos que cobram para atender doentes e cidadãos que, diariamente, normalizam pequenas e grandes ilegalidades.
Os padres não nascem padres. Nascem filhos desta sociedade. Crescem nas nossas famílias. Estudam nas nossas escolas. Respiram a mesma cultura política. São moldados pelos mesmos valores, ou pela ausência deles. Quando uma sociedade adoece profundamente, nenhuma instituição permanece completamente imune. Nem a Igreja, nem a universidade, nem os tribunais, nem os partidos políticos, nem as empresas privadas.
A Igreja não está fora da sociedade. Está dentro dela. Seria extraordinário imaginar que um país onde a violência política ainda encontra espaço, onde membros da oposição, jornalistas independentes, activistas de direitos humanos são silenciados, intimidados e assassinados, onde denúncias de corrupção raramente terminam em condenações exemplares e onde a impunidade se tornou quase um método de governação pudesse produzir um clero composto apenas por santos.
As instituições são espelhos do meio em que existem. E o espelho apenas reflecte aquilo que está diante dele. Moçambique vive há décadas uma crise que ultrapassa a economia. É uma crise ética. Uma erosão lenta da ideia de bem comum. A fronteira entre o certo e o errado tornou-se difusa. O sucesso passou, demasiadas vezes, a medir-se não pelo mérito, mas pela proximidade ao poder. A lei tornou-se severa para alguns e surpreendentemente tolerante para outros. A confiança nas instituições diminuiu à medida que aumentava a percepção de desigualdade perante a justiça.
Num ambiente assim, não é difícil compreender porque surgem indivíduos que colocam os seus interesses acima da missão que juraram cumprir. Isso não absolve ninguém. Mas ajuda a explicar. E compreender não significa justificar.
Aliás, se as informações tornadas públicas estiverem correctas, o próprio Dom Osório Citora procurava enfrentar esses desvios. Alegadamente promoveu sindicâncias internas, afastou responsáveis, denunciou irregularidades e iniciou processos disciplinares. Ou seja, a própria Igreja estava a tentar purificar-se.
Essa é a diferença entre uma instituição viva e uma instituição morta, a capacidade de reconhecer as suas feridas e tentar curá-las.
Os erros de alguns sacerdotes não anulam o trabalho silencioso de milhares de religiosos que continuam a servir comunidades esquecidas, educando crianças, tratando doentes, acolhendo órfãos, assistindo idosos e promovendo a reconciliação em zonas onde o Estado chega tarde ou simplesmente não chega. Esses homens e mulheres existem. E são muitos. Infelizmente, o bem raramente produz manchetes.
Terminando, tragédia de Quelimane não deveria servir para condenar a Igreja, mas para obrigar Moçambique a olhar para si próprio. Porque nenhuma instituição consegue produzir santos quando está mergulhada numa sociedade onde a impunidade se tornou hábito, a corrupção ascendeu a método, a violência política deixou de espantar e o mérito foi demasiadas vezes substituído pela lealdade partidária. Os homens passam; os sistemas permanecem. E há sistemas que, depois de meio século a moldar um país, já não podem continuar a reclamar os méritos do que corre bem e a fugir às responsabilidades pelo que corre mal. EditorialJornalNGANI02072029

