O Norte não pede favores. Pede apenas justiça!

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Há notícias que passam despercebidas no ciclo acelerado da informação. Parecem pequenas decisões administrativas, simples opções logísticas ou escolhas técnicas sem maior significado. Mas há momentos em que uma decisão aparentemente banal revela, com uma clareza quase cruel, a forma como um país continua a olhar para uma parte de si mesmo.

A decisão de formar, na Matola, jovens destinados a trabalhar no megaprojeto de gás natural de Afungi, em Cabo Delgado, é um desses momentos. Não porque a formação seja má. Pelo contrário, formar jovens é sempre um investimento desejável. O problema está no lugar escolhido para formar quem irá trabalhar numa província que, há anos, paga um preço altíssimo pelo desenvolvimento nacional sem beneficiar dele na mesma proporção.

O descontentamento manifestado na semana finda pelo Conselho Empresarial Provincial e pelo Fórum das Organizações Não-Governamentais de Cabo Delgado não é um acto de bairrismo nem um capricho regional. É um grito de cansaço. É a expressão de uma população que há muito sente que as grandes decisões sobre o seu destino continuam a ser tomadas longe da sua terra, por pessoas que dificilmente conhecem a dimensão dos seus desafios. É a voz de quem olha para as riquezas que saem do seu solo e pergunta, legitimamente, quando chegará a sua vez de colher os frutos.

Infelizmente, esta não é uma história nova. Em Moçambique, sempre que surgem grandes investimentos, as oportunidades parecem seguir automaticamente a estrada que conduz ao Sul. Os centros de decisão estão em Maputo. As grandes empresas instalam os seus escritórios em Maputo. As conferências realizam-se em Maputo. Os contratos discutem-se em Maputo. Os empregos mais qualificados acabam frequentemente por beneficiar quem vive em Maputo. Agora, até a formação para trabalhar num projecto localizado em Cabo Delgado é feita em Maputo.

Como explicar esta lógica a um jovem de Palma, Mocímboa da Praia, Nangade ou Mueda? A mensagem transmitida é dura. Diz, sem o afirmar explicitamente, que o Norte continua a não reunir condições para preparar os seus próprios filhos. Que mesmo quando o investimento acontece na sua terra, é preciso viajar milhares de quilómetros para receber aquilo que deveria nascer junto das comunidades que convivem diariamente com o projecto. É difícil imaginar uma forma mais simbólica de reforçar o sentimento de exclusão.

Cabo Delgado não é apenas uma província onde existe gás. É também uma terra profundamente marcada pela guerra, pelo deslocamento forçado, pela perda de vidas humanas e pela destruição de sonhos. Durante anos, milhares de famílias abandonaram as suas casas. Jovens interromperam os estudos. Pequenos empresários perderam tudo. Camponeses deixaram os seus campos. Comunidades inteiras foram desfeitas pela violência. Enquanto isso, o país alimentava a esperança de que o gigantesco projecto de gás pudesse representar uma oportunidade histórica para reconstruir a economia local e devolver esperança às populações. Mas esperança nenhuma resiste quando as primeiras oportunidades continuam a partir para longe.

Não estamos apenas a falar de cursos técnicos. Estamos a falar de dignidade. Da sensação de pertença. Do direito de uma comunidade sentir que o desenvolvimento também lhe pertence. Quando um jovem de Cabo Delgado percebe que, até para aprender a operar uma máquina que funcionará na sua própria província, precisa de ir ao extremo sul do país, compreende rapidamente qual é o lugar que lhe foi reservado na hierarquia invisível das prioridades nacionais.

Esta realidade torna-se ainda mais dolorosa porque o Norte tem contribuído enormemente para a economia moçambicana. Cabo Delgado oferece gás. Niassa possui vastos recursos florestais, agrícolas e potencial mineiro. Nampula é uma potência agrícola e comercial. O Corredor de Nacala constitui uma das infra-estruturas logísticas mais importantes da África Austral. Mesmo assim, basta percorrer muitas estradas da região, visitar escolas, hospitais, institutos técnicos ou centros de formação profissional para perceber que o investimento público continua muito aquém das necessidades. As assimetrias regionais deixaram de ser uma percepção política. Tornaram-se uma realidade visível no quotidiano.

Ilustres, nenhum país constrói unidade nacional alimentando desigualdades territoriais. Não basta afirmar que Moçambique é uno e indivisível se, na prática, persistem cidadãos que sentem que o seu lugar de nascimento determina as suas oportunidades. A unidade constrói-se distribuindo investimento. Fortalecendo instituições locais. Criando universidades fortes nas províncias. Equipando institutos técnicos. Apostando seriamente na formação de jovens onde os grandes projectos se encontram. É assim que se combate a exclusão. É assim que se fortalece a paz.

O Norte não precisa de discursos emocionados em dias de celebração nacional. Precisa de decisões concretas que demonstrem confiança nas suas pessoas e nas suas instituições. Precisa que o desenvolvimento deixe finalmente de viajar sempre no mesmo sentido. Porque nenhuma nação pode aspirar ao progresso enquanto uma parte do seu território continua a sentir-se permanentemente convidada apenas para assistir ao desenvolvimento acontecer, nunca para o protagonizar.. (Foto © AIS).

EDITORIALJORNALNGANI03082026

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