Há obras de arte que permanecem expostas em galerias. Outras, porém, continuam confinadas às paredes de uma casa, à espera de uma oportunidade para serem vistas. É essa a realidade vivida pelo artista plástico Belarmino Atanásio, de 34 anos, que denuncia a falta de investimento e de oportunidades para os criadores emergentes em Nampula, uma situação que, segundo ele, tem travado o desenvolvimento das artes plásticas na província.
Em entrevista ao NGANI, Belarmino Atanásio contou que a sua ligação com a arte nasceu ainda na infância, quando observava outros artistas e procurava reproduzir aquilo que via. O que começou como curiosidade acabou por transformar-se numa paixão e, mais tarde, numa profissão.
“Essa carreira nasce comigo. Desde muito cedo comecei a interessar-me por arte, a observar outros artistas e a aprender com aquilo que faziam. Foi um processo natural, que foi crescendo comigo ao longo do tempo”, afirmou.
Foi em 2008 que decidiu abraçar a actividade de forma mais séria, passando a produzir com maior regularidade e a desenvolver a sua própria identidade artística.

“Foi em 2008 que comecei a levar isto mais a sério. Percebi que já não era apenas um passatempo, mas sim aquilo que eu queria fazer como artista e como forma de vida”, explicou.
Ao longo do percurso, a arte já lhe proporcionou alguns ganhos financeiros, embora de forma esporádica. Recorda, por exemplo, a execução de uma escultura num jardim em Gurúè, na província da Zambézia, trabalho que lhe rendeu cerca de 60 mil meticais em menos de uma semana.
“Isso fez-me perceber que a arte pode gerar rendimento, mas infelizmente não acontece de forma constante”, disse.
Apesar disso, considera que os artistas de Nampula enfrentam inúmeras dificuldades, desde a ausência de patrocínios até à escassez de espaços para exposição e divulgação das obras.
“O maior problema que nós enfrentamos é a falta de apoio, de patrocínio e de divulgação. Muitas vezes o artista trabalha sozinho, produz sozinho e não tem onde mostrar o seu trabalho”, lamentou.
Belarmino critica igualmente a reduzida realização de actividades culturais voltadas para os jovens criadores, situação que, na sua opinião, contrasta com a dinâmica observada noutras regiões do país.
“Em Nampula quase não vemos exposições organizadas para jovens artistas. Noutras províncias há eventos, convites e espaço para mostrar trabalho. Aqui parece que os jovens artistas ficam esquecidos”, afirmou.
Na tentativa de mudar essa realidade, o artista procurou várias instituições culturais para apresentar as suas obras e buscar oportunidades de integração em projectos culturais. No entanto, segundo relata, o reconhecimento do seu talento raramente se traduziu em apoio concreto.
“Já fui à Casa Provincial da Cultura, mostrei o meu trabalho e disseram-me que eu tinha talento. Mas depois disso nunca mais houve qualquer contacto. Ficou tudo por aí”, contou.
Em determinados momentos, chegou mesmo a ouvir palavras desencorajadoras.
“Já houve quem me dissesse para desistir da arte, que não valia a pena continuar. Mas isso não me parou. Pelo contrário, fez-me perceber que tinha de continuar e provar que a arte também pode ser um caminho sério”, afirmou.
A sua primeira exposição aconteceu em Mossuril, enquanto ainda estudava. Na ocasião, apresentou trabalhos de banda desenhada inspirados na realidade local, uma experiência que considera fundamental para a sua afirmação como criador.

Mais tarde, teve a oportunidade de mostrar algumas das suas obras ao actual Presidente da República, Daniel Chapo, que o incentivou a prosseguir.
“Ele viu os meus trabalhos e disse-me para continuar, para não parar. Senti-me motivado, mas depois disso não houve continuidade nem apoio”, recordou.
Actualmente, Belarmino possui dezenas de obras produzidas ao longo dos anos. Muitas delas permanecem guardadas em casa por falta de locais adequados para exposição. As redes sociais tornaram-se, por isso, a principal vitrina do seu trabalho.
“Tenho muitas obras guardadas em casa. Pinto, produzo e publico nas redes sociais. É basicamente aí onde consigo mostrar o meu trabalho”, explicou.
Apesar das limitações, o artista continua a sonhar. Entre os seus projectos está a criação de um atelier próprio, um espaço que pretende transformar num ponto de encontro e de formação para jovens talentos.
“Gostava de ter um atelier meu, onde pudesse trabalhar e também ajudar outros artistas mais novos que precisam de orientação e apoio”, disse.
Sem esconder as dificuldades, Belarmino Atanásio garante que não pensa abandonar a arte.
“Eu sou apaixonado pela arte e vou continuar a fazer o meu trabalho enquanto puder”, concluiu.
Num contexto em que muitas vezes se fala da necessidade de promover a cultura, a história de Belarmino Atanásio levanta uma questão inevitável: quantos talentos continuarão escondidos entre quatro paredes, à espera de uma oportunidade para mostrar ao mundo as cores dos seus sonhos? Agostinho Miguel
