Nampula: Músicos exigem criação de espaços para promover e rentabilizar a arte

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
blank

Músicos da “velha guarda” na província de Nampula defendem a criação urgente de infraestruturas públicas capazes de impulsionar o desenvolvimento cultural e garantir melhores condições de trabalho para os artistas. A classe considera que, sem espaços adequados para ensaios, espectáculos e comercialização das obras, a música continuará a ser um talento pouco explorado e com reduzido impacto económico para os seus protagonistas.

O conceituado músico Momade Ali Faque recordou que Nampula já foi uma das maiores referências culturais do país, com artistas que representaram Moçambique em palcos nacionais e internacionais. Contudo, lamenta que, apesar desse legado histórico, continuem a existir poucos mecanismos de apoio e promoção de novos talentos.

“Hoje sentimos a necessidade de continuar a gravar novos temas e abrir espaço para os jovens talentos. Mas, acima de tudo, precisamos de organização e visão. A cultura não pode continuar a ser tratada de forma improvisada, quando já existe experiência acumulada”, afirmou.

Momade Ali Faque defende a criação de centros culturais e espaços públicos destinados ao ensaio e desenvolvimento de bandas musicais e ritmos típicos da província. Segundo o artista, essas infraestruturas seriam fundamentais não apenas para preservar a identidade cultural local, mas também para preparar os músicos para palcos nacionais e internacionais.

O músico propôs igualmente a criação de plataformas digitais de comercialização da música, com envolvimento directo do governo. Na sua visão, um sistema organizado de venda online permitiria gerar benefícios para os artistas, o Estado e até as empresas de telecomunicações.

“Todos nós temos um tempo de vida e a carreira artística também tem limites. Quando envelhecemos, ficamos sem rendimento. Mas se a nossa música continuar a gerar receitas digitalmente, teremos uma base de sustento no futuro”, explicou.

Além da música, Momade Ali Faque defende a valorização de todas as expressões culturais, incluindo escultura, pintura e artes plásticas, através da criação de feiras permanentes de exposição e comercialização.

Para o artista, viver da arte deve deixar de ser uma utopia e transformar-se numa possibilidade concreta para os criadores culturais da província.

O músico defendeu ainda a revitalização dos espaços museológicos de Nampula, de modo a preservar a memória e o percurso dos artistas locais, desde os tradicionais até aos contemporâneos.

“O museu deve contar a nossa história. Quem visitar deve encontrar o percurso dos músicos, das artes e da cultura em geral. Isso pode até permitir a cobrança de taxas de entrada, beneficiando o Estado e os próprios artistas”, sugeriu.

Por sua vez, o músico Charifo Victor Salimo reconheceu que, apesar das dificuldades históricas, o sector cultural tem registado alguns sinais positivos de crescimento.

O artista recordou que, no início da sua carreira, as condições de produção musical eram extremamente precárias, com gravações feitas de forma rudimentar e com poucos recursos técnicos.

“A minha primeira gravação foi feita apenas com uma viola, num estúdio da Rádio Encontro, e mesmo assim foi um sucesso. Naquela altura, para fazer música, tínhamos de ultrapassar muitas dificuldades, viajar longas distâncias e enfrentar vários obstáculos”, contou.

Apesar de considerar a música uma actividade digna, Charifo Victor Salimo admite que a arte ainda não garante estabilidade financeira para a maioria dos artistas moçambicanos, sobretudo na região Norte do país.

Segundo explicou, o sucesso financeiro depende da capacidade de comercialização das obras e da existência de estruturas de apoio, como editoras e plataformas de distribuição, que actualmente são escassas.

“Nem todos conseguem viver da música. Alguns têm sucesso momentâneo, outros conseguem pequenos rendimentos. Mas, no geral, ainda não é uma profissão financeiramente estável no nosso país, especialmente na região Norte”, afirmou.

No entendimento do músico, o governo ainda não reconhece plenamente o potencial económico da cultura e o seu papel estratégico no desenvolvimento do turismo e da economia local.

“A cultura é uma fonte de divisas. Onde há cultura, há turismo. E onde há turismo, há desenvolvimento. Mas isso só acontece quando existe investimento sério e políticas bem definidas”, concluiu.

Agostinho Miguel

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *