Temos certeza de que Cabo Delgado é Moçambique?

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Há quase uma década que Cabo Delgado sangra diante dos olhos do país e do mundo. Há quase uma década que homens, mulheres e crianças vivem entre o medo, o deslocamento, a fome e a morte, enquanto o Estado moçambicano continua a responder com discursos protocolares, promessas vagas e visitas oficiais cuidadosamente encenadas para as câmaras de televisão.

Desde 2017, quando os primeiros ataques terroristas começaram a transformar aldeias inteiras em campos de cinza e desespero, o Governo insiste em repetir a mesma narrativa de controlo da situação até à náusea.

No entanto, os factos desmentem diariamente essa propaganda. A guerra continua. Os ataques continuam. O terror continua. E o povo continua abandonado. Agora foi a vez da Conferência Episcopal de Moçambique romper definitivamente o silêncio diplomático e dizer aquilo que muitos moçambicanos já sussurram há muito tempo, que o Estado falhou em Cabo Delgado.

Quando os bispos católicos falam de “ferida aberta no coração do povo” e denunciam sinais evidentes de expansão da violência para outras regiões do país, não estão apenas a emitir uma nota pastoral. Estão a produzir uma acusação moral gravíssima contra um regime que parece incapaz, ou desinteressado, de proteger os seus próprios cidadãos.

A questão que hoje se impõe já não é apenas “o que está a acontecer em Cabo Delgado?”. Essa pergunta perdeu actualidade há muito tempo. O país inteiro sabe o que está a acontecer. O mundo inteiro sabe. A pergunta central é outra, mais incómoda, mais dura e mais perigosa, como por que razão esta guerra continua depois de oito anos? O que explica tamanha incapacidade de resolver um conflito dentro do próprio território nacional?

Como é possível que um Estado que gosta de se apresentar como forte, soberano e organizado continue sem conseguir devolver segurança a uma parte do seu território durante quase uma década? Estas perguntas tornam-se ainda mais legítimas quando se observa o contraste brutal entre a retórica oficial da “unidade nacional” e a realidade concreta vivida pelas populações do Norte. O regime da Frelimo enche constantemente a boca para falar da unidade do povo moçambicano, da indivisibilidade da pátria e da solidariedade entre regiões. Mas a verdade é que Cabo Delgado está a expor algo profundamente perturbador: talvez existam moçambicanos de primeira categoria e moçambicanos de segunda categoria.

Porque sejamos honestos, se grupos armados ocupassem bairros da cidade de Maputo durante oito anos consecutivos, o Estado reagiria da mesma forma? Se igrejas fossem incendiadas na Polana, no Triunfo ou na Sommerschield, ouviríamos apenas discursos de preocupação e promessas de investigação? Se empresários, turistas e funcionários públicos vivessem aterrorizados diariamente na capital do país, haveria esta lentidão quase burocrática na resposta do Governo?

Evidentemente que não. Se a guerra terrorista estivesse a acontecer em Maputo, ela já teria terminado há muito tempo. Esta é talvez a verdade mais dolorosa que o país precisa de enfrentar. Cabo Delgado sofre também porque está longe dos centros do poder político. Sofre porque o Norte historicamente sempre foi tratado como periferia do Estado moçambicano, útil pelos seus recursos naturais, mas frequentemente esquecido quando se trata de investimento humano, infraestruturas, oportunidades e protecção efectiva das populações.

É impossível ignorar esta dimensão política da tragédia. Cabo Delgado é uma província rica em gás natural, rubis, madeira, grafite e outros recursos estratégicos. Grandes multinacionais disputam contratos milionários naquela região. Há investimentos bilionários. Há interesses internacionais gigantescos. Mas, paradoxalmente, os próprios habitantes da província continuam pobres, vulneráveis e abandonados.

Esta contradição alimenta inevitavelmente sentimentos de revolta, exclusão e desconfiança em relação ao Estado. Quando os bispos denunciam a manipulação de jovens, adolescentes e crianças por grupos extremistas, estão implicitamente a reconhecer uma realidade que o discurso oficial muitas vezes tenta esconder: o terrorismo não cresce no vazio.

Enquanto isso, Maputo continuou distante, olhando para o Norte mais como uma zona de extracção económica do que como uma prioridade humana e nacional. Talvez seja por isso que muitos moçambicanos começam a sentir que a famosa unidade nacional é, na prática, um sloganpolítico vazio. Porque a verdadeira unidade nacional mede-se na forma como um Estado protege os seus cidadãos mais vulneráveis, e não apenas nos discursos pronunciados em cerimónias oficiais.

O mais assustador nesta tragédia é a normalização do horror. O país habituou-se às notícias de ataques. Habituou-se às aldeias queimadas. Habituou-se aos deslocados internos. Habituou-se às viúvas e aos órfãos. Habituou-se a ver cidadãos moçambicanos a fugir dentro do próprio país como se fossem estrangeiros indesejados. E talvez esse seja o triunfo mais perigoso do terrorismo, o de transformar o horror em rotina.

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A nota pastoral dos bispos surge exactamente nesse momento de anestesia moral. A Igreja Católica percebeu que o silêncio já não era compatível com a dimensão da tragédia. Percebeu que Cabo Delgado deixou de ser apenas um problema de segurança. Tornou-se um problema ético, político e humano que ameaça a própria ideia de nação moçambicana.

Ao alertarem para sinais de expansão da violência para outras regiões, os bispos estão também a desmontar outra ilusão perigosa, a ideia de que o problema pode continuar isolado no Norte sem consequências para o resto do país. A história mostra exactamente o contrário. Quando um conflito armado se prolonga durante muitos anos sem solução definitiva, ele tende a espalhar-se, a sofisticar-se e a infiltrar-se em diferentes sectores da sociedade.

E talvez seja precisamente isso que já está a acontecer. A destruição de igrejas, denunciada pela Conferência Episcopal, é particularmente simbólica porque representa um ataque directo à convivência pacífica entre comunidades religiosas que sempre caracterizou

Moçambique. Durante décadas, cristãos, muçulmanos e praticantes de religiões tradicionais conviveram relativamente em paz. Agora, essa convivência começa a ser ameaçada pelo extremismo, pela intolerância e pela radicalização. E quando um país começa a fracturar-se religiosamente, o perigo torna-se ainda mais profundo.

Os bispos tiveram coragem de dizer aquilo que muitos temem afirmar publicamente: o país está perante uma crise grave de liderança, de sensibilidade humana e de responsabilidade política.

Porque nenhum Estado pode considerar-se verdadeiramente unido quando uma parte significativa do seu povo vive abandonada ao terror durante quase dez anos. E talvez a pergunta mais incómoda de todas seja esta: se o sofrimento de Cabo Delgado não fosse no Norte, mas sim às portas do poder político em Maputo, o silêncio e a lentidão seriam os mesmos? A resposta, infelizmente, todos os moçambicanos já conhecem.

Editorial, Jornal NGANI, 18 de Maio de 2026

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