A política moçambicana tem esta fascinante capacidade de transformar dramas internos em espectáculos públicos. E a Renamo, essa resistência musculada dos tempos do saudoso Afonso Dhlakama, parece hoje empenhada em provar que a sua maior ameaça não vem de fora — vem de dentro.
O mais recente episódio atende pelo nome de António Pedro Muchanga, suspenso das fileiras activas por decisão do Conselho Jurisdicional. A sentença é clara: silêncio obrigatório, símbolos proibidos, participação interna vedada. Uma espécie de quarentena política aplicada a quem se atreveu dizer, em voz alta, que o partido perdeu rumo sob a liderança do nosso “munna” Ossufo Momade.
Muchanga não atacou o partido; disparou contra a condução da organização. Questionou a revisão estatutária de 2019, falou de concentração excessiva de poderes, de distanciamento das bases, de erros estratégicos que teriam custado caro eleitoralmente. Disse, basicamente, que a perdiz já não é rebelde e já não levanta voo como antes.
E eis que entra em cena o guardião da disciplina: Arnaldo Chalaua, presidente do Conselho Jurisdicional. O homem que preside ao órgão responsável por velar pelo cumprimento dos estatutos — esses mesmos estatutos que, segundo os críticos, foram moldados para concentrar poder no topo.
A ironia política tem memória. Chalaua não foi sempre a figura institucional que hoje encarna a ortodoxia partidária. Conta-se que houve um tempo em que conheceu o sabor do isolamento interno, após desentendimentos com as bases que chegaram ao conhecimento do então líder Afonso Dhlakama. O resultado terá sido um afastamento silencioso, um acantonamento político que durou anos.
Até que na legislatura 2020-2024, sob a liderança de Momade, regressa à ribalta, no parlamento. Reintegrado. Reabilitado. Reposicionado. E como sabeis, na política, como na vida, resgates criam vínculos. E vínculos criam fidelidades, quase caninas. Não é crime ser grato. A questão começa quando a gratidão se confunde com zelo excessivo.
Em menos de seis meses, dois críticos de peso foram disciplinarmente neutralizados. João Machava ontem, Muchanga hoje. O padrão desenha-se com uma nitidez desconfortável: quem questiona o topo aproxima-se da porta. Será mera coincidência que o chefe do órgão disciplinar seja também um dos que defende a liderança actual com unhas e dentes? Ou estaremos perante um caso clássico de alinhamento absoluto entre convicção jurídica e lealdade política?
A suspensão de Muchanga surge num momento delicado. Antigos combatentes e desmobilizados exigem mudanças. Militantes murmuram insatisfação. A liderança responde com processos disciplinares. Em vez de debate, despacho. Em vez de congresso antecipado, calendário fixo até 2029.
A pergunta que paira no ar não é se Muchanga violou os estatutos — isso ficará nos arquivos internos. A pergunta é se o partido ganha força ao silenciar vozes incómodas ou se apenas adia um ajuste de contas inevitável com a sua própria base.
Ora, a Renamo nasceu do inconformismo. Cresceu na confrontação. Sobreviveu pela mobilização. Quando um partido com esse ADN começa a tratar divergência como deslealdade, algo estrutural mudou. Chalaua pode acreditar que está a defender a ordem. Momade pode considerar que disciplina é sinónimo de estabilidade. Mas estabilidade imposta raramente gera confiança; gera silêncio. E silêncio não é unidade — é pausa tensa.
O mais curioso é que Muchanga não pediu ruptura violenta. Falou de transição organizada. Sugeriu alternativas estratégicas. Questionou candidaturas. Nada disso é, em teoria, incompatível com democracia interna. Torna-se incompatível apenas quando o topo decide que questionar é ameaçar.
E assim o gigante vai encolhendo os seus próprios quadros. Não por falta de adversários externos, mas por excesso de vigilância interna. Se Chalaua é o arquitecto da purga ou apenas o engenheiro que executa um projecto alheio, a história dirá. O que já se sabe é que cada suspensão retira ao partido mais do que um nome — retira-lhe densidade política. @Félix Filipe

