Num país onde o ruído político muitas vezes se sobrepõe ao essencial, é raro assistir a um gesto que merece ser reconhecido sem reservas. A política, sobretudo a política moze que envolve figuras públicas de grande visibilidade, costuma oscilar entre grandes falsas promessas e gestos mediáticos. Por isso mesmo, quando surge uma iniciativa que toca directamente um dos dramas mais silenciosos da sociedade, o mínimo que se exige é honestidade intelectual: saber reconhecer quando uma liderança acerta.
Desta vez, a Primeira-Dama da República, Gueta Chapo, acertou. O anúncio de um plano de acção urgente para reforçar a oncologia pediátrica em Moçambique, com foco na descentralização dos serviços especializados e na criação de centros de acolhimento para famílias, é mais do que um gesto de solidariedade. É, finalmente, um exemplo de como a influência moral e política de uma Primeira-Dama pode ser usada para iluminar uma causa estrutural.
Porque o cancro infantil, em Moçambique, é uma realidade pouco falada, pouco compreendida e, muitas vezes, cruelmente invisível.
Enquanto outras doenças ocupam o espaço do debate público, centenas de famílias enfrentam, em silêncio, a angústia de um diagnóstico que altera para sempre o destino de uma criança. Muitas dessas famílias vivem a centenas ou milhares de quilómetros da capital. Muitas chegam a Maputo com pouco mais do que esperança. E muitas acabam por regressar às suas províncias antes de completar o tratamento, derrotadas não pela doença, mas pela pobreza, pela distância e pela falta de condições logísticas.
É neste ponto que a iniciativa da Primeira-Dama ganha relevância.
Ao visitar a unidade de oncologia pediátrica do Hospital Central de Maputo, Gueta Chapo não se limitou a protagonizar um gesto protocolar. O diagnóstico que veio dessa visita é conhecido pelos profissionais de saúde, mas raramente ganha dimensão política: o sistema está centralizado, saturado e profundamente desigual do ponto de vista territorial.
O Hospital Central de Maputo tornou-se, na prática, a única esperança para famílias de todo o país que enfrentam o drama do cancro infantil.
Crianças chegam de Nangade, Mecula, Marara, Mopeia, Memba… Chegam de lugares onde o transporte para a capital é uma aventura logística e financeira. Chegam acompanhadas por mães que abandonam trabalho, casa, vida inteira, para permanecer meses ou anos ao lado de um filho em tratamento.
Quando o tratamento exige ciclos prolongados, o problema deixa de ser apenas médico. Torna-se social. Onde dormem essas mães? Como se alimentam? Como permanecem em Maputo durante meses sem qualquer rede de apoio?
Em demasiados casos, a resposta é brutalmente simples: não permanecem. Abandonam o tratamento. E quando o tratamento é interrompido, as probabilidades de sobrevivência diminuem drasticamente.
É precisamente aqui onde a proposta da Primeira-Dama revela maturidade política. Falar de centros de acolhimento para famílias não é um detalhe logístico; é reconhecer que a luta contra o cancro infantil não se faz apenas dentro das paredes do hospital. Faz-se também fora dele.
Criar espaços seguros para mães e crianças em tratamento significa garantir continuidade terapêutica. Significa reduzir o abandono. Significa transformar esperança em possibilidade real de cura. Mas há outro elemento particularmente importante na iniciativa anunciada por Gueta Chapo: a descentralização.
A ideia de regionalizar serviços especializados para o Centro e Norte do país é uma das reformas mais urgentes no nosso sistema nacional de saúde. Durante décadas, a capital concentrou infra-estruturas, especialistas e equipamentos. O resultado é um país onde o acesso à saúde depende, demasiadas vezes, da geografia.
Uma criança doente em Maputo tem uma probabilidade de tratamento incomparavelmente maior do que uma criança em Lichinga, Pemba ou Tete. Corrigir essa desigualdade é um desafio monumental. Exige investimento, formação de especialistas, equipamentos sofisticados e tempo. Mas toda grande transformação começa com uma decisão política: reconhecer que o modelo actual já não é suficiente.
Ao colocar a descentralização da oncologia pediátrica na agenda, a Primeira-Dama contribui para abrir um debate que o país precisa urgentemente de ter. E há ainda um terceiro elemento digno de nota: a mobilização de parceiros.
Moçambique não tem, neste momento, capacidade orçamental para resolver sozinho todos os desafios da saúde oncológica infantil. O tratamento é caro, os medicamentos são dispendiosos, os equipamentos são sofisticados. É precisamente aqui que a função de uma Primeira-Dama pode fazer diferença.
Não através da distribuição representativa de bens, mas através da mobilização de alianças. Uma Primeira-Dama tem acesso a redes internacionais, fundações, organismos multilaterais e sector privado. Tem capacidade de colocar uma causa humanitária na agenda de doadores e parceiros. Tem visibilidade suficiente para transformar um problema invisível numa prioridade nacional.
Quando essa influência é usada para salvar vidas, a política encontra o seu melhor sentido.
Durante a visita ao Hospital Central de Maputo, Gueta Chapo partilhou uma reflexão simples, mas profundamente humana: ver bebés e crianças tão pequenas a lutar contra o cancro aperta o coração de qualquer mãe. É verdade. Mas o mérito político está em transformar essa emoção em acção concreta, senhora Primeira-Dama. Em todo caso, desta vez estamos juntos, Gueta Chapo. @Félix Filipe

