Para quando um bastonário da zona norte de Moçambique?

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A poucos dias das eleições da Ordem dos Advogados de Moçambique, talvez valha perguntar, sem muita reverência e sem medo de ferir sensibilidades. Para quando um bastonário da zona norte? Não se trata de reivindicação geográfica e muito menos de um apelo provinciano disfarçado de argumento. Trata-se, sim, de questionar uma ausência. E ausências, às vezes, dizem mais do que presenças.

A questão é tanto mais legítima quanto a história já demonstrou que a liderança da Ordem dos Advogados de Moçambique não é monopólio de nenhum eixo. Gilberto Correia, a partir da cidade da Beira, mostrou-o entre 2008 e 2013. Logo, ninguém está condenado pela latitude.

A Universidade Eduardo Mondlane forma gerações de juristas do Norte há décadas. A Universidade Católica, em Nampula, há mais de vinte anos produz advogados em escala nada modesta. E, no entanto, olhando para a vida interna da Ordem, paira uma suspeita quase literária. Estarão os lawyers da zona norte a repousar em cima dos códigos, como monges medievais guardando manuscritos, enquanto o poder circula por outras geografias?

É uma ironia, sim. Mas uma ironia com fundamento. Porque há qualquer coisa de deliciosamente paradoxal numa classe que brilha na região quando se trata de contestar sentenças, desafiar magistrados, desmontar acusações e manejar a Constituição com solenidade, mas que parece desenvolver súbita modéstia quando se trata de disputar a condução da sua própria casa.

Seria timidez? Seria excesso de ponderação? Ou aquela velha patologia moçambicana de comentar muito e concorrer pouco? Estas eleições, com quatro candidatos e uma disputa viva, demonstram que o campo existe. Há arena. Há jogo. Não se diga, portanto, que falta oportunidade.

É que os advogados do Norte, sobretudo de Nampula, vistos de fora, às vezes parecem exímios na crítica de corredor. Comentam com finura. Diagnosticam tudo. Fazem autênticos acórdãos verbais à mesa do café no Restaurante Sporting ou no Ce q’ Sabe. Mas quando é para transformar as análises em projecto, e projectos em candidatura… aí parece que o entusiasmo sofre um súbito colapso respiratório.

Ora, a advocacia também é ocupar instituições. Disputar ideias. Produzir poder. Uma ordem profissional não é apenas um lugar para pagar quotas ou servir de claque a candidaturas alheias; é um centro de influência sobre o Estado de Direito. E, se assim é, por que razão uma região inteira, com tantos juristas e tantos problemas jurídicos complexos, ainda não produziu, com clareza e convicção, um projecto nacional para liderar a Ordem?

A candidatura de Thera Dai, com o significado histórico de ser a primeira mulher a disputar o cargo em mais de três décadas, agitou águas antes demasiado serenas. O Norte quer limitar-se a aderir a movimentos ou deseja, um dia, produzi-los? Ou talvez o Norte já tenha matéria para um bastonário, mas falta apenas convencer os próprios advogados disso.

Félix Filipe, Jornal NGANI

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