A Universidade Técnica de Moçambique (UDM) lançou a 7ª edição da sua Revista Científica, reafirmando o compromisso com a produção de conhecimento crítico num contexto global e nacional marcado por crises políticas, conflitos armados e eventos climáticos extremos. Sob direcção dos professores Severino Ngoenha e Luca Bussotti, o número de 2025 surge sob o lema “A ciência avança, apesar de tudo”, assumindo-se como um acto de resistência académica em tempos adversos.
No editorial que abre a publicação, os directores traçam um retrato inquietante do ano findo. A nível internacional, destacam a proliferação de guerras declaradas, conflitos de baixa intensidade e acordos de paz impostos pela força, num cenário que descrevem como marcado por um “bullying político” das grandes potências. Em Moçambique, apontam a persistência da crise institucional e política, a instabilidade em Cabo Delgado e os efeitos devastadores das inundações que afectaram o Sul do país entre o final de 2025 e o início de 2026, expondo fragilidades na prevenção e resposta a desastres.
Apesar desse quadro, a revista celebra conquistas relevantes. Pela primeira vez, o periódico foi indexado em bases internacionais de referência, como a ERIH Plus e o sistema brasileiro Qualis, reconhecimento que consolida um percurso iniciado em 2018, com o lançamento do primeiro número em 2019. Segundo os editores, trata-se do resultado de um trabalho contínuo pautado pela pontualidade, rigor científico e exigência no processo de revisão por pares, que levou inclusive à rejeição de vários artigos submetidos ao longo do ano.
A edição reúne 10 textos — entre uma entrevista e nove artigos científicos — organizados em duas grandes linhas temáticas: justiça social e ambiental e paz, por um lado; risco e vulnerabilidade, por outro. As temáticas dialogam com os dois programas de doutoramento em funcionamento na UDM, evidenciando a articulação entre investigação e formação avançada.
A entrevista que inaugura o número é concedida pela historiadora brasileira Luiza Reis, da Universidade Federal de Pernambuco, que realizou investigação de pós-doutoramento em Moçambique em parceria com a UDM. Na conversa, a académica reflecte sobre os desafios das democracias africanas, as relações históricas entre Brasil e Moçambique e as limitações enfrentadas pela academia moçambicana, num ambiente nem sempre propício ao debate público aberto. Destaca, contudo, o esforço de internacionalização e abertura levado a cabo pela universidade anfitriã.
No campo da justiça social e ambiental, os artigos abordam desde a exportação de resíduos tóxicos para países africanos, numa perspectiva crítica sobre as desigualdades entre Norte e Sul globais, até à análise da democracia moçambicana à luz de concepções universais do regime democrático. Outros textos discutem ética ambiental em sociedades tecnocráticas, reflexões filosóficas sobre violência e não-violência, e os impactos psicossociais do trabalho infantil na Baixa da cidade de Maputo.

Professores Luca Bussotti e Severino Ngoenha
Ainda nesta linha, um dos estudos revisita as políticas de ajustamento estrutural implementadas pelas instituições de Bretton Woods nos anos 1990, com enfoque particular no sector do caju em Moçambique, apontando consequências consideradas desastrosas para a indústria nacional.
Na vertente dedicada ao risco, os investigadores analisam a proliferação de postos de abastecimento de combustível no município da Matola e os potenciais perigos associados à sua concentração em áreas densamente povoadas. Outro artigo examina os riscos estratégicos da Ilha de Moçambique, alertando para vulnerabilidades ligadas à segurança marítima, narcotráfico, pesca ilegal e poluição ambiental. A expansão urbana na localidade de Eduardo Mondlane, no distrito de Boane, é igualmente objecto de estudo, com recurso a ferramentas de georreferenciação que identificam zonas suscetíveis a inundações e degradação ambiental.
Os editores sublinham também o esforço de internacionalização da revista, que conta com contributos de académicos estrangeiros, incluindo investigadores do Brasil e da Itália, e registou uma participação feminina equivalente a 30% dos textos publicados — percentagem ainda considerada insuficiente, mas reveladora de progressos na inclusão.
Ao lançar o sétimo número da sua Revista Científica, a UDM reforça o seu posicionamento como espaço de reflexão crítica e produção de conhecimento num país onde, como reconhecem os próprios directores, a ciência continua muitas vezes desligada das decisões políticas e do debate público.
Num momento em que Moçambique enfrenta desafios estruturais — da instabilidade política aos impactos das alterações climáticas — a universidade aposta na investigação como instrumento de transformação. “A ciência avança, apesar de tudo”, afirmam Ngoenha e Bussotti. A nova edição pretende precisamente isso: demonstrar que, mesmo em tempos de incerteza, o pensamento crítico não pode ser suspenso. Redacção
