UniZambeze “manda passear” Albano Carige na cerimónia de graduação

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Pela primeira vez em vários anos, o Presidente do Conselho Municipal da Beira, Albano Carige, eleito pelo Movimento Democrático de Moçambique (MDM), foi impedido de usar da palavra durante uma cerimónia de graduação da Universidade Zambeze (UniZambeze), realizada esta sexta-feira na cidade da Beira.

O episódio, aparentemente banal, despertou indignação e levantou suspeitas de motivação política. Tradicionalmente, o edil tem sido convidado a dirigir uma mensagem de encorajamento aos finalistas, reconhecendo o esforço académico e, em muitas ocasiões, oferecendo prémios, oportunidades de estágio ou pequenos apoios financeiros aos melhores estudantes, como incentivo ao autoemprego e à inovação juvenil.

Desta vez, porém, a universidade rompeu com a tradição — sem qualquer explicação pública. “Não se sabe se foi falta de tempo, erro de agenda ou motivação política. Mas o gesto não ficou bem na fotografia da Beira”, comentou ao NGANI um docente que acompanhou a cerimónia.

Enquanto o edil foi silenciado, o governador da província de Sofala, Lourenço Bulha, representante da Frelimo, foi a figura central do evento. O governante discursou em tom inspirador e ofereceu quatro cheques de 50 mil meticais aos três melhores estudantes e a um graduado com deficiência física — gesto amplamente aplaudido, mas que deixou no ar uma pergunta inevitável: por que razão a universidade abriu espaço apenas para o governador e não para o presidente do município anfitrião?

Exclusão reacende debate sobre intolerância política

O caso de Albano Carige não é isolado. Em várias províncias do país, líderes da oposição vêm sendo sistematicamente excluídos de eventos públicos, mesmo quando a sua presença é institucionalmente necessária ou simbolicamente relevante.

Recentemente, em Vilankulo, o edil Quinito Vilanculo, eleito pela RENAMO, não foi convidado para a Conferência Internacional de Turismo, realizada precisamente na sua autarquia e organizada pelo Governo central. O edil queixou-se de ter sido excluído do programa oficial e impedido de dar as boas-vindas aos convidados, num evento que decorreu no território sob sua jurisdição.

Como forma de protesto, Quinito Vilanculo decidiu não participar no evento, criticando o que classificou como “falta de postura de Estado”. Já o governador de Inhambane, Francisco Pagula, desdramatizou o episódio, alegando que as regras de protocolo determinam que, na presença do Presidente da República, compete ao governador dar as boas-vindas.

O silêncio que grita

Na Beira, o silêncio imposto a Carige foi ensurdecedor. Num evento académico, onde a pluralidade de pensamento deveria ser um valor central, a exclusão de um dirigente local eleito democraticamente contradiz o espírito universitário e expõe o peso do partidarismo em espaços que deveriam ser neutros e inspiradores.

Para muitos, a atitude da UniZambeze é mais do que uma falha protocolar: é um sintoma do enraizamento da intolerância política em Moçambique, onde o mérito e a legitimidade eleitoral são frequentemente subordinados à lealdade partidária.

A controvérsia surge num momento em que decorre o chamado “Diálogo Nacional Inclusivo”, em que o Governo tem apelado à reconciliação e à convivência pacífica entre diferentes sensibilidades políticas. Ainda assim, a prática mostra que o espírito de inclusão continua a ser um desafio, sobretudo no quadro da descentralização.

Enquanto a universidade se mantém em silêncio, cresce a percepção de que a decisão de calar o presidente do município foi deliberada e política — mais uma tentativa de invisibilizar a oposição em espaços públicos e simbólicos.

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