Todos os dias, entre panelas de xima e garrafas de refresco, Anabela do Carmo, de 26 anos, vai construindo o seu sustento. O negócio alimenta os dois filhos, dá trabalho a dois irmãos e já levanta as paredes de uma casa no bairro de Vieira. Formada em Recursos Humanos, encontrou no mercado informal uma saída para a falta de emprego. Na sua pequena barraca, nos arredores da cidade de Nampula, serve mais de 30 refeições por dia a comerciantes, compradores e viajantes. O segredo, diz, não está só na comida. “Se falta Coca-Cola, alguns clientes vão embora.”
O mercado Waresta acorda cedo, mas na barraca de Anabela o movimento ganha força a partir das 11 horas. Antes disso, o dia já vai longo. O carvão acende ainda de madrugada, as panelas não param. A xima é feita na hora. O caril para acompanhar a caracata tem de estar no ponto. “Se atraso, os clientes reclamam”, diz, mexendo a panela.
A barraca é pequena, coberta de zinco, com cadeiras plásticas encostadas às paredes. Anabela chega todos os dias às seis da manhã. Os irmãos vêm logo depois. Acendem o carvão, cortam os legumes, lavam os pratos. Quando o relógio marca 11 horas, os primeiros clientes já estão sentados.
“Sou formada em Recursos Humanos pela Universidade Rovuma, mas não tive outra alternativa para alimentar a minha família, porque já tenho dois filhos. Pedi apoio aos meus pais e comecei este negócio”, conta Anabela, enquanto serve um prato de xima, feijão e frango.
O negócio começou em 2023, logo após a conclusão do curso. Sem oportunidades no mercado formal, Anabela pegou nos dois mil meticais que o pai lhe deu e montou a barraca. No início, vendia apenas comida. Mas os clientes começaram a pedir. Queriam Coca-Cola para acompanhar a refeição.
“Comecei com uma caixa, depois aumentei para três. Hoje consigo vender tudo no mesmo dia”, diz.
A procura é tanta que, em alguns dias, o stock esgota. Quando isso acontece, os clientes não escondem a insatisfação. E recusam substituições.
Hoje, Anabela serve, em média, entre 30 e 50 refeições por dia. Cada prato custa entre 60 e 100 meticais e leva xima, arroz ou caracata, acompanhados de frango, peixe, feijão ou matapa. Geralmente, os clientes pedem Coca-Cola.
“Há gente que vem só beber e volta ao trabalho”, explica
Nem todos os dias são iguais. Há dias em que a comida sobra. Outros em que tudo acaba antes do meio-dia, sobretudo Coca-Cola. “No passado, atendíamos mais de 50 clientes”, comenta. Apesar de o movimento já não ser o mesmo de antes, o negócio continua a render. Anabela diz conseguir juntar entre 2500 e 2700 meticais por dia.
O dinheiro já deu frutos. Anabela conseguiu matricular os dois filhos na escola e está a construir a sua própria casa no bairro de Vieira. Além disso, sustenta os pais e emprega dois irmãos, que passaram a depender directamente da barraca.
“Já coloquei os meus filhos na escola e estou a construir a minha casa. Ganhei coragem porque ficar sem fazer nada é um pesadelo”, afirma.
Os clientes confirmam a sua preferência pela Coca-Cola nas refeições. Jorge Arlindo, que trabalha como comerciante no mercado, almoça na barraca de Anabela quase todos os dias. Diz que não dispensa o refresco. “Sem Coca-Cola a comida não passa bem. Já estamos habituados”, afirma.
Francisco Jamal, outro cliente habitual, diz que o consumo do refresco faz parte do seu dia-a-dia. Para ele, a refeição só fica completa com a bebida. “Sem isso, não é a mesma coisa”, diz, levantando a garrafa.
Anabela defende que a procura pelo refresco lhe coloca o desafio de aumentar o seu stock diário. O mercado Waresta é grande, diz, e a fome não espera. Mas a sede também não.
Enquanto fala, chega mais um cliente. Pede arroz com matapa e uma Coca bem gelada. Anabela serve. Abre a garrafa com o abridor pendurado ao pescoço. O barulho do gás a sair mistura-se com o ruído do mercado. O homem bebe um gole, depois come uma colherada. É assim, todos os dias, a partir das 11 horas. @Agostinho Miguel

