No bairro de Muatala, em Nampula, a sobrevivência tem cor e cheiro: a água barrenta e fétida que corre pelos esgotos. É dessa água que dezenas de famílias se servem todos os dias para lavar roupa, tomar banho e, em alguns casos, até cozinhar.
No início da manhã, quando o sol ainda se esconde entre as nuvens de pó, mulheres e crianças descem com baldes, bidões e bacias à beira do pequeno riacho que atravessa o bairro. A água vem turva, misturada com detritos, mas é a única que existe. A alternativa seria esperar pela água canalizada — que raramente chega.
“Já estamos habituados. Quando vem, usamos esta mesma. Só deixamos assentar um pouco antes de usar”, diz Maria João, de 27 anos, enquanto enche um bidão de vinte litros com a água que escapa dos esgotos da cidade.
A cena repete-se em diferentes pontos de Nampula. Os esgotos que nascem na zona de cimento — o coração urbano da cidade — transformam-se em ribeiros nas periferias, arrastando resíduos e lixo até bairros populosos como Muhala, Namicopo, Napipine, Muahivire e Murrapaniua. Lá, o que deveria ser um risco sanitário passa a ser um recurso vital.
A escassez crónica de água é o denominador comum. Moradores relatam que há torneiras que passam semanas sem uma gota. Quando a água chega, a pressão é tão fraca que não preenche sequer um balde. Alguns recorrem a poços improvisados; outros dependem das bicas comunitárias, que funcionam por horas limitadas e com longas filas.
“Às vezes passamos dois, três dias sem água. Temos de escolher: ou ficamos sujos, ou arriscamos com a água dos esgotos”, explica Salimo Amade, residente em Namutequeliua.
Enquanto isso, as autoridades locais prometem soluções estruturais. Fala-se em reabilitar a rede de distribuição e investir em novos furos, mas os projectos avançam lentamente. A cidade cresce, a população aumenta, e o sistema de abastecimento continua praticamente o mesmo de há décadas.
A consequência é uma crise silenciosa: famílias inteiras adoecem por consumir água contaminada; crianças sofrem de diarreia e doenças de pele; e a linha entre o que é risco e o que é necessidade desaparece.
Nos bairros periféricos de Nampula, a dignidade humana mede-se em litros de água limpa. Enquanto uns falam de investimentos e planos de requalificação, outros lutam todos os dias com baldes e bidões, tentando sobreviver num cenário onde a água — fonte de vida — se transformou num veneno necessário.

