O Governo prepara-se para voltar a recorrer às Forças de Defesa e Segurança (FDS) para assegurar o arranque dos exames finais da 10.ª e 12.ª classes, previsto para a próxima semana, num clima marcado por ameaças de greve dos professores devido a atrasos prolongados no pagamento das horas extraordinárias.
A decisão repete o cenário de 2024, quando polícias e agentes do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) foram destacados para vigiar as salas de exame em várias províncias, depois da paralisação parcial do corpo docente.
Segundo informações apuradas, os professores exigem que o Governo liquide até sábado, 15 de Novembro, as horas extras relativas a 2023, sob pena de avançarem com uma paralisação total das actividades. Alegam ter perdido confiança nas autoridades, acusadas de sucessivos adiamentos e falta de transparência no processo de pagamento.
Em várias escolas do Grande Maputo — entre elas a Nossa Senhora do Livramento, Daejo-Cheile e Muhalaze Trindade I — as aulas já foram interrompidas. Os docentes recusam-se a vigiar, corrigir ou entregar cadernetas enquanto não receberem os valores em atraso.
Num documento enviado ao administrador distrital da Matola, os professores recordam que o processo de homologação das folhas salariais foi concluído há meses, mas o Tesouro nunca processou o pagamento, estimado em cerca de 20 milhões de meticais. O colectivo denuncia ainda a existência de documentos contabilísticos falsos apresentados para justificar a demora, o que alimenta a desconfiança em relação às autoridades locais.
Ministério garante “normalidade” no arranque das provas
O porta-voz do Ministério da Educação e Cultura, Silvestre Dava, afirmou à Lusa que o Governo “está a acompanhar a situação com atenção e responsabilidade” e confia que a maioria dos professores não aderirá à greve.
“Vamos reforçar as medidas de segurança em todo o país. Elementos das Forças de Defesa e Segurança serão destacados para os pontos considerados críticos, para garantir o normal decurso dos exames”, assegurou Dava.
O Ministério evita confirmar se haverá substituição directa dos professores em caso de greve, mas admite que o reforço policial será generalizado nas zonas onde o risco de perturbações for maior.
Um problema com barbas brancas
A crise no pagamento das horas extras é recorrente e tem sido motivo de tensão entre o Governo e os professores. Em 2024, centenas de docentes em Maputo e Matola entraram em greve, obrigando o Executivo a mobilizar a polícia para garantir a realização dos exames.
Na altura, a paralisação ganhou contornos inéditos, com alunos a juntarem-se aos protestos, denunciando o desrespeito pelas promessas de pagamento e o tratamento desigual entre escolas. Um ano depois, o cenário volta a repetir-se — mesmas dívidas, mesmos rostos e as mesmas promessas por cumprir.
Para muitos professores, a greve é o último recurso depois de, dizem, “esgotadas todas as vias institucionais”. Reclamam que o Governo trata o sector da Educação com descaso e improvisação, e que a actuação do Estado se limita a medidas paliativas para garantir os exames, sem resolver as causas profundas do conflito.
Com o calendário escolar prestes a encerrar, a incerteza domina as escolas. O ambiente é de apreensão entre alunos e pais, que temem que a greve comprometa a conclusão do ano lectivo. Enquanto isso, o Governo tenta evitar um novo colapso do sistema, apostando na força militar para garantir o que devia ser assegurado pela estabilidade e valorização dos professores.
Se nada mudar até ao fim de semana, os exames de 2025 poderão começar sob o som da tropa e o silêncio das salas vazias — um retrato que, infelizmente, se tem tornado familiar no país.

