Mais de mil pacientes com suspeitas ou diagnóstico de glaucoma continuam a ser atendidos anualmente no Hospital Central de Nampula (HCN), num cenário que preocupa especialistas de saúde devido ao risco elevado de cegueira irreversível e à limitada capacidade de resposta nos distritos.
Os dados, tornados públicos recentemente por especialistas do HCN, mantêm-se actuais e revelam a dimensão de uma doença silenciosa que afecta doentes provenientes de 23 distritos da província de Nampula, bem como de regiões vizinhas, incluindo Cabo Delgado, Niassa e Zambézia.
A oftalmologista Sofia Omar explica que o glaucoma continua a ser uma das principais ameaças à visão, sobretudo porque evolui sem sintomas evidentes nas fases iniciais.
“O glaucoma é uma doença silenciosa, sem cura, e quando não é diagnosticado precocemente pode levar à cegueira irreversível”, alertou.
Segundo a especialista, os grupos de maior risco incluem pessoas com mais de 40 anos, pacientes com histórico familiar da doença, bem como indivíduos com hipertensão ou diabetes. A população negra também apresenta maior predisposição para desenvolver a doença.
Distritos sem meios empurram doentes para Nampula
Apesar da dimensão do problema, o diagnóstico precoce continua a ser um desafio fora da cidade de Nampula. A falta de equipamentos e de técnicos especializados nos distritos obriga centenas de pacientes a percorrer longas distâncias para obter atendimento.
“O epicentro do diagnóstico e tratamento continua a ser o Hospital Central de Nampula, porque muitos distritos não dispõem de meios adequados”, explicou Sofia Omar.
A situação levanta preocupações sobre o atraso no diagnóstico, que reduz significativamente as hipóteses de preservar a visão dos pacientes.
Outro factor crítico apontado pelos especialistas é a automedicação. O uso indiscriminado de fármacos, sobretudo corticoides como a prednisolona, tem contribuído para o agravamento da pressão ocular.
“Há pacientes que usam medicamentos sem prescrição médica, o que pode acelerar o desenvolvimento do glaucoma”, advertiu a médica.
O tratamento, segundo explicou, passa essencialmente pelo controlo da pressão ocular com colírios e, em casos mais avançados, pela realização de cirurgia.
Campanhas ajudam, mas não resolvem o problema estrutural
Iniciativas de rastreio e sensibilização, como as realizadas no âmbito da Semana do Glaucoma, têm contribuído para identificar casos e alertar a população. No entanto, parceiros do sector reconhecem que estas acções ainda são insuficientes face à magnitude do problema.
Abrão Banqueiro, oficial do programa Sightsavers, afirma que Nampula foi definida como prioridade devido à elevada densidade populacional e à escassez de especialistas.
“Estamos a apoiar o rastreio, mobilização comunitária e fornecimento de equipamentos, mas ainda há um grande défice de recursos humanos e técnicos”, disse.
Com mais de mil casos atendidos anualmente e um sistema de saúde ainda centralizado, especialistas defendem a expansão urgente dos serviços oftalmológicos para os distritos.
O apelo mantém-se: pessoas com mais de 40 anos ou com histórico familiar devem procurar rastreio regular. Porque, no caso do glaucoma, quando os sintomas aparecem… pode já ser tarde demais. Agostinho Miguel

