Quando se circula pelas principais artérias da cidade de Nampula, a impressão com que se fica é de um enorme mercado a céu aberto, onde os negócios informais imperam sob o olhar inerte das autoridades municipais. Ruas e passeios ocupados por vendedores de produtos diversos e a circulação condicionada de peões e veículos são apenas alguns dos cenários que conferem a Nampula características de uma urbe à deriva. Ainda assim, por alguma razão, a cidade é considerada a capital do Norte.
Texto: Shirangano
São 06:00 da manhã na Avenida Paulo Samuel Kankhomba, nas proximidades do Mercado Novo. Nos passeios e bermas da estrada, os vendedores montam bancas de acessórios de telemóvel e pontos de serviços de carteira móvel, enquanto os moto-taxistas posicionam para mais um dia de trabalho. Cenário idêntico observa-se nas imediações do Comando Provincial do SENSAP, conhecido como Mercado dos Bombeiros, onde centenas de comerciantes estendem roupas, calçados e tecidos, muito deles no meio da via pública. Peões e veículos disputam espaço com mercadorias.
A cena repete-se em vários outros pontos da cidade que, com uma população estimada em 743.123 habitantes (INE, 2017), apresenta hoje um cenário urbano que mais se assemelha a uma grande feira a céu aberto do que a uma cidade estruturada.

Um misto de tristeza e desapontamento é o sentimento estampado nos rostos dos munícipes. Copiosamente indignado, Amílcar Amade, munícipe de 46 anos, lamenta a situação em que a cidade que o viu nascer tem se transformado. “Há algumas ruas em que já não sabemos se ainda é estrada ou mercado, e isso acontece em quase toda a cidade”, afirmou, preocupado com a crescente ocupação desordenada do espaço público.
Josefa Nhantumbo José, residente nas proximidades do Mercado dos Bombeiros, também expressa inquietação. “Todos os dias é um desafio atravessar as ruas; às vezes temos de desviar de mercadorias, carros e moto-táxis. Parece que a cidade perdeu a noção de ordem”, disse.
Já Ismael Juma, estudante universitário de 22 anos, alerta para os riscos que a situação cria para todos os utentes da via. “Caminhar ou andar tornou-se impossível. O espaço que devia ser público tornou-se um labirinto de bancas e vendedores, e a cada esquina sentimos insegurança”, acrescentou.
A azáfama que se observa nos passeios e ao longo das principais avenidas de Nampula revela um cenário de intensa actividade informal, dominado em grande parte por pessoas oriundas da periferia da cidade, que buscam na rua uma oportunidade de sustento aos olhos das autoridades municipais. Enquanto isso, o comércio formal da urbe é maioritariamente controlado por cidadãos estrangeiros, especialmente vindos da região dos Grandes Lagos. Os negócios que movimentam a economia formal estão concentrados nos grandes grupos familiares, muitos de origem asiática, que detêm redes de lojas, residenciais, restaurantes, tabacarias, e pontos de venda de vestuário, electrodomésticos, móveis e cosméticos.

Para os nativos, em especial os jovens, o acesso ao comércio formal é limitado. Muitos “contentam-se” com actividades menos qualificadas e de menor rendimento, como carregar mercadorias, limpar lojas, táxi-mota, agentes de carteira móvel, vender acessórios de telemóvel, pão, badjias, água e outros produtos pelas ruas da cidade.
Quando comparada a Maputo e Beira, Nampula destaca-se como um vasto mercado informal, onde a rua funciona simultaneamente como local de trabalho, comércio e espaço social.
A pobreza como desculpa
Ao longo das principais artérias de Nampula, o espaço urbano transforma-se diariamente num corredor comercial informal, onde praticamente tudo é vendido. Bancas improvisadas exibem legumes e vegetais, panelas fumegantes anunciam refeições prontas, senhoras servem comida à beira da estrada e pequenos negócios de ocasião ocupam cada metro disponível, desde venda de frutas até serviços rápidos de conserto. O ambiente é vibrante, mas caótico, marcado pela intensa circulação de pessoas, odores e ruído, revelando uma cidade onde a sobrevivência económica se impõe à ordem urbana.
Dados da província de Nampula mostram que a população economicamente activa (PEA) sofreu uma ligeira redução de 2,6 pontos percentuais, passando de 87,7% em 2014/2015 para 85,1% em 2019/2020, enquanto a população não economicamente activa (PNEA) aumentou na mesma proporção, de 12,3% para 14,9%. O estudo também revela que a maior parte da PEA é composta por homens, enquanto a PNEA é predominantemente feminina, confirmando o peso da informalidade e do trabalho precário na dinâmica urbana, sobretudo entre mulheres e jovens que não encontram alternativas no mercado formal.
Ana Custódio, 42 anos, é um exemplo disso. Ela vende refeições prontas nas imediações da padaria Sipal. “Não tenho outro jeito de sustentar a minha família. Se não ocupar o passeio, não consigo vender nada. Não há emprego e é assim que conseguimos colocar comida na mesa”, explica mãe de cinco filhos, enquanto prepara um prato de arroz, feijão com peixe.
José Manuel, 35 anos, chefe de um agregado familiar de seis pessoas, oferece serviços de carteira móvel (M-Pesa e e-mola). “Se eu não montar o meu ponto aqui na rua, não recebo clientes. O espaço é apertado, mas não temos alternativa”, afirma, manuseando o telemóvel.

Entre as bancas de acessórios de telemóveis, Anibal Loste, 29 anos,mostra a variedade de capas e carregadores que dispõe. “Vendo na rua porque não posso pagar uma loja. É arriscado, mas preciso deste rendimento para cuidar dos meus irmãos e da minha mãe idosa”, diz, enquanto atende um cliente.
Na mesma rua, Osvaldo Mocusse, 37 anos, expõe roupas sobre o chão. “O espaço é pequeno e movimentado, mas é aqui que consigo vender alguma coisa todos os dias. Não tenho emprego fixo, então essa é a forma que encontrei para garantir o sustento da minha família”, acrescenta.
Para esses vendedores, a informalidade não é apenas uma opção, mas uma necessidade diante da falta de oportunidades formais, reflectindo as estatísticas provinciais e a realidade de uma cidade onde grande parte da população economicamente activa luta para sobreviver.
O crescimento impetuoso dos moto-táxis
Os moto-táxis proliferam pelas ruas de Nampula com uma rapidez impressionante, colocando desafios enormes ao pelouro dos Transportes e Comunicação e Tecnologia, liderado por Carlos Furumula, por sinal genro do presidente da autarquia da cidade de Nampula, Luís Giquira. O que antes era uma actividade marginal transformou-se num fenómeno urbano praticamente invisível à fiscalização.
A Associação dos Voluntários para Organização dos Taxistas Mota (AVOTANA) estima que cerca de 3 mil operadores estejam oficialmente registados. No entanto, levantamentos independentes e observações no terreno indicam que o número real de mototaxistas é pelo menos cinco vezes maior, expondo o crescimento desordenado do sector.

A explosão deste meio de transporte está directamente ligada à insuficiência do transporte público. Os autocarros da edilidade não conseguem atender à demanda da população, enquanto o número limitado de operadores privados impõe as suas vontades. Resultado: muitos moradores, sem meios próprios de locomoção, recorrem às motorizadas, que se tornaram indispensáveis para a vida urbana.
A ausência de transportes semi-coletivos, os famosos “chapas”, em várias rotas estratégicas da cidade, abriu caminho para que os moto-táxis ocupassem o papel de principal meio de transporte. Para muitos jovens, esta actividade não é apenas uma escolha, mas uma necessidade, pois representa uma forma honesta de gerar renda diária e sustentar as suas famílias, mesmo que informalmente e sem garantias legais.
“Comecei a trabalhar como mototaxista porque não tinha outra forma de sustentar a minha família,” conta Claúdio Muar, 32 anos, natural de Nampula. “Todos os dias, percorro dezenas de quilómetros para garantir o pão de cada dia. É difícil, não há garantias, mas é honesto, e é o que me permite enviar dinheiro para casa e colocar as minhas filhas na escola.”
Outro jovem operador, Carlitos António, 21 anos, acrescenta: “Muitos amigos meus estão desempregados e não veem outra saída. No início, tinha medo de ser multado ou assaltado, mas hoje entendo que esta é a realidade da cidade. Enquanto a edilidade não consegue garantir transporte público para todos, nós garantimos que as pessoas cheguem ao trabalho, à escola ou ao mercado.”
Apesar do evidente crescimento do sector, a edilidade enfrenta enormes desafios para controlar a actividade. Fiscalizar centenas de operadores espalhados por toda a cidade, sem prejudicar a mobilidade urbana, exige estratégias e investimentos que ainda não se reflectem no terreno.

No início de 2024, o Conselho Municipal da Cidade de Nampula anunciou uma medida que prometia virar o jogo na relação entre autoridades e operadores de moto‑táxi: a introdução de unidades móveis de cobrança da taxa diária, que deveriam percorrer as praças onde os mototaxistas se concentravam para arrecadar directamente o imposto sem que estes tivessem de se deslocar ao Balcão Único de Atendimento Municipal, segundo a edilidade.
A ideia, lançada com fanfarra pelo genro do edil, pretendia, nos planos oficiais, “arrecadar receitas para a edilidade e melhorar a prestação de serviços”, mas quase um ano depois pouco ou nada se viu de concreto, nem as unidades móveis foram avistadas nas principais praças, nem a promessa de reorganização da actividade se traduziu em açcões. Muitos operadores, por trás das mãos, brincam que a promessa ficou no papel, reflectindo a lacuna entre as políticas anunciadas e a realidade de fiscalização na considerada capital do Norte.
O que Nampula perde e ganha com a informalidade?
O último quadro de informação financeira divulgado pela edilidade de Nampula, publicado a 23 de Dezembro de 2025, oferece apenas um retrato parcial da realidade fiscal do município. Segundo o relatório, referente à semana de 15 a 21 de Dezembro, foram arrecadados 2.797.944,80 meticais, provenientes de diversas fontes internas de cobrança de impostos e taxas municipais.
À primeira vista, o valor parece expressivo. Contudo, uma análise mais detalhada da composição das receitas revela um cenário que levanta questões. Os mercados formais e as barracas com pagamento de mensalidade contribuíram com 21,95% do total arrecadado, o que demonstra que, embora visíveis e relevantes, representam apenas uma fracção do verdadeiro potencial económico da cidade.
Nas ruas, avenidas e esquinas de Nampula, a dinâmica é outra. Centenas, possivelmente milhares, de vendedores informais, mototaxistas e pequenos prestadores de serviços movimentam diariamente valores significativos. Trata-se de uma economia vibrante, activa desde as primeiras horas da manhã até à noite, mas que opera, em grande parte, fora do registo formal e da tributação regular.
É aqui que surge a grande interrogação: quanto estaria a cidade a deixar de arrecadar?
Se considerarmos que a província de Nampula apresenta uma taxa de 85,1% de população economicamente activa, numa população estimada em 743.123 habitantes na cidade, podemos inferir que aproximadamente 632 mil pessoas estão potencialmente envolvidas em alguma actividade económica. Ainda que apenas uma pequena percentagem desse universo (por exemplo, 10%) esteja directamente ligada a actividades informais urbanas visíveis (comércio de rua, mototáxis, serviços móveis, venda de refeições), estaríamos a falar de cerca de 63 mil operadores económicos activos.

Se cada um desses operadores contribuísse, hipoteticamente, com uma taxa média simbólica de 30 a 50 meticais por dia, o município poderia arrecadar entre 1,8 e 3,1 milhões de meticais por dia, o que, em termos semanais, representaria valores que ultrapassariam largamente a arrecadação oficial reportada. Mesmo considerando margens conservadoras e níveis parciais de formalização, o potencial económico revela-se significativamente superior ao que actualmente entra nos cofres municipais.
No entanto, entre os munícipes, consolida-se uma percepção recorrente: a informalidade não é apenas uma questão económica, mas também política. Muitos acreditam que a edilidade actua com cautela excessiva na fiscalização e reorganização do comércio de rua por receio de retaliações sociais. Vendedores informais e mototaxistas representam um segmento numeroso da população urbana, com capacidade de mobilização e impacto eleitoral. Na visão de vários cidadãos, permitir a expansão desordenada do comércio informal acaba por traduzir-se num ganho político de curto prazo, uma forma de evitar conflitos, protestos ou desgaste junto de um grupo social vulnerável e numeroso.
Assim, a cidade parece viver num equilíbrio delicado: de um lado, perde-se capacidade arrecadatória e organização urbana; do outro, preserva-se uma estabilidade social imediata. A arrecadação oficial, embora significativa, não captura a verdadeira dimensão do comércio e do trabalho que se desenvolve fora do radar da fiscalização. Nampula movimenta muito mais do que declara (e talvez arrecade menos do que poderia) num contexto onde economia e política caminham lado a lado.

