O cientista moçambicano Alexandre Cobre, especialista em inteligência artificial, anunciou o desenvolvimento de dois aplicativos inovadores destinados aos sectores da saúde e das finanças, numa iniciativa que promete transformar o acesso a serviços essenciais em Moçambique.
Os projectos resultam de três anos de investigação e desenvolvimento conduzidos por uma equipa nacional de jovens especialistas em tecnologia. Falando à imprensa na última sexta-feira (15), Alexandre Cobre explicou que as plataformas foram concebidas para responder a problemas concretos enfrentados diariamente pela população, sobretudo na procura de medicamentos e na circulação de notas falsas no mercado.
“Desenvolvemos dois produtos de inteligência artificial com impacto directo na vida do povo moçambicano. São soluções pensadas para responder às dificuldades reais da população”, afirmou.
O primeiro aplicativo, denominado Muse AI, surge como uma resposta às dificuldades enfrentadas por milhares de cidadãos que percorrem várias farmácias sem conseguir encontrar medicamentos essenciais.
A plataforma permite localizar medicamentos em diferentes farmácias, comparar preços e identificar a opção mais acessível em tempo real. “Com um simples clique, o cidadão pode saber onde encontrar o seu medicamento, qual é a farmácia mais próxima e qual oferece o melhor preço”, explicou.
Além da funcionalidade de pesquisa, o aplicativo integra um sistema de comunicação directa entre pacientes e farmacêuticos, permitindo o envio da receita médica através de fotografia e a obtenção imediata de informações sobre disponibilidade e custos dos medicamentos. “O utente pode tirar uma fotografia da receita, enviar pelo aplicativo e, em poucos segundos, receber a confirmação do farmacêutico com o preço e a disponibilidade do medicamento”, acrescentou.
Segundo Alexandre Cobre, o Muse AI vai além de um simples aplicativo de pesquisa, constituindo um verdadeiro ecossistema digital para o sector farmacêutico nacional. “Estamos a falar de um sistema completo que ajuda as farmácias na gestão de stock, no atendimento ao cliente e na recepção de utentes provenientes de diferentes pontos do país, aumentando a eficiência e o alcance dos serviços”, destacou.
Outro elemento apontado como inovador é a recolha anónima de dados, que permitirá alimentar um painel nacional de informações úteis para o sector da saúde pública. “Esses dados podem apoiar o Ministério da Saúde em áreas como farmacovigilância e planeamento estratégico, permitindo decisões mais informadas e eficazes”, afirmou.
O lançamento oficial do Muse AI está previsto para o mês de Julho, no Hospital Central de Nampula. Segundo o cientista, o acesso ao aplicativo será gratuito. “Queremos garantir que, do Rovuma ao Maputo, todos os moçambicanos possam beneficiar desta tecnologia”, disse.
Alexandre Cobre sublinhou que a principal motivação do projecto nasce das dificuldades enfrentadas diariamente pela população no acesso a medicamentos. “O povo anda de farmácia em farmácia, gasta dinheiro em transporte e, no fim, não encontra medicamentos. Muitas vezes não é falta de produtos, mas sim falta de informação”, lamentou.
O segundo projecto, denominado Mali AI, está orientado para o sector financeiro e introduz uma solução tecnológica destinada ao combate à falsificação de notas, problema que afecta sobretudo vendedores informais, operadores de transporte e cidadãos que dependem de transacções em numerário.
Através de uma simples fotografia, o aplicativo permite verificar a autenticidade das notas, oferecendo uma ferramenta prática e acessível para prevenir prejuízos financeiros. “Qualquer cidadão pode usar o aplicativo para confirmar se uma nota é verdadeira ou falsa. Isso protege especialmente vendedores informais, transportadores e outras pessoas que lidam diariamente com dinheiro físico”, explicou.
Nesta fase inicial, o sistema está preparado para identificar notas de 500 e 1.000 meticais, estando prevista a expansão para outras denominações. “Começámos com as notas de maior circulação, mas vamos alargar para notas de 20, 50, 100 e 200 meticais”, garantiu.
O Mali AI inclui ainda um mecanismo de notificação de casos suspeitos de falsificação, contribuindo para a criação de uma base nacional de dados.
“Com essas informações, será possível alimentar um sistema que poderá apoiar o Banco de Moçambique em análises estatísticas e estratégias de combate à fraude”, acrescentou.
De acordo com Alexandre Cobre, ambas as soluções foram desenvolvidas integralmente em Moçambique por uma equipa jovem formada e capacitada localmente. “São jovens moçambicanos que começaram como estagiários, receberam formação e hoje desenvolvem tecnologias com impacto real no país”, afirmou.
O cientista destacou ainda que os projectos estão alinhados com os esforços nacionais de digitalização e transformação tecnológica. “Estamos a construir infra-estruturas reais de inteligência artificial, feitas em Moçambique e para Moçambique. Isso demonstra que o país não está fora da revolução tecnológica global”, sublinhou.
Alexandre Cobre aproveitou a ocasião para incentivar os estudantes e jovens profissionais a apostarem na formação tecnológica e a não desistirem perante a falta de experiência profissional. “O maior desafio dos jovens é a falta de oportunidades. Nós acreditamos no contrário: damos oportunidades, formamos e criamos profissionais capazes de enfrentar os desafios actuais”, afirmou.
Para o cientista, o desenvolvimento destas plataformas representa não apenas um avanço tecnológico, mas também um sinal da capacidade nacional de produzir soluções inovadoras. “Estamos a provar que Moçambique pode criar tecnologias de alto nível e com impacto directo na vida das pessoas”, concluiu. Agostinho Miguel

