A pobreza continua a ser o principal motor dos casamentos prematuros na província de Nampula, revela um estudo recente da Save the Children, que traça um retrato preocupante sobre a persistência desta prática, apesar dos esforços para a sua erradicação.
De acordo com a coordenadora do estudo, Paula Timane, Nampula continua a liderar os índices de uniões prematuras no país, um cenário que expõe fragilidades estruturais profundas e levanta sérias preocupações entre organizações que actuam na protecção da criança.
O estudo, conduzido entre Setembro e Dezembro do ano passado, procurou identificar as causas sociais e económicas que sustentam o fenómeno. As conclusões são claras: a vulnerabilidade económica das famílias continua a empurrar raparigas para uniões precoces, muitas vezes encaradas como estratégia de sobrevivência.
“Identificámos que a pobreza é um factor determinante, levando muitos agregados familiares a recorrerem ao casamento prematuro como forma de reduzir encargos ou garantir algum sustento”, explicou Paula Timane, durante a apresentação do relatório, esta quarta-feira (22).
A situação é agravada pelos efeitos das mudanças climáticas, com destaque para ciclones e cheias que têm atingido a província nos últimos anos, destruindo meios de subsistência e aprofundando a vulnerabilidade das comunidades.
Além disso, o acesso limitado a serviços básicos — sobretudo educação e saúde sexual e reprodutiva — continua a alimentar o problema. Muitos adolescentes enfrentam barreiras sociais e culturais que os impedem de procurar apoio.
“Há constrangimentos no acesso a serviços adequados e, em muitos casos, os jovens não se sentem seguros ou confortáveis para recorrer a esses serviços”, referiu a responsável.
O estudo aponta ainda para a persistência de mitos e tabus, especialmente entre pais e encarregados de educação, que dificultam o acesso dos adolescentes à informação. Em muitas comunidades, prevalece a ideia de que procurar serviços de saúde sexual equivale a assumir uma vida sexual activa — um estigma que acaba por afastar os jovens dos serviços disponíveis.
Outro dado alarmante é a normalização da violência contra crianças, frequentemente resolvida no seio familiar, sem denúncia às autoridades. Em alguns casos, abusos sexuais acabam por resultar em casamentos prematuros, numa tentativa de “resolver” o problema fora do sistema formal de justiça.
Segundo o levantamento, apenas cerca de 30% dos pais e cuidadores afirmam conhecer mecanismos formais de denúncia de casos de violência contra crianças, o que indica que uma grande parte das situações permanece invisível.
O estudo envolveu 517 participantes — entre crianças, pais, líderes comunitários e religiosos, bem como representantes do Governo e da sociedade civil — permitindo uma análise abrangente das dinâmicas locais.
Entre os distritos mais afectados, destacam-se Liúpo e Angoche, apontados como zonas críticas devido às limitações no acesso a serviços essenciais e à persistência de práticas culturais nocivas.
A distância entre as comunidades e os serviços públicos, aliada ao medo de represálias e à falta de confidencialidade, surge também como uma das principais barreiras à denúncia e ao acesso à protecção.
Perante este cenário, a Save the Children defende uma abordagem integrada, com reforço dos programas de protecção social e maior envolvimento dos adolescentes nas estratégias de prevenção.
“É fundamental dar voz aos jovens e criar espaços seguros onde possam participar activamente na mudança”, sublinhou Paula Timane.
A organização recomenda ainda o reforço do acesso à educação, a expansão de serviços de saúde inclusivos e a promoção de famílias modelo que incentivem boas práticas.
“O combate aos casamentos prematuros exige uma transformação profunda ao nível comunitário e um compromisso efectivo entre o Governo, parceiros e a sociedade civil”, concluiu. Agostinho Miguel

