Já não há Massukos?

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
blank

Quem ficar em Lichinga por duas, quatro ou seis semanas vai perceber que, em termos culturais, quem enche as casas de pasto é Simão Fontes, vocalista principal dos Massukos, acompanhado por mais três companheiros. Um baixista, uma corista e um pianista. Além de Simão, também é possível encontrar Sócrates, outro veterano da banda, actuando sozinho numa casa de pasto, com outro vocalista.

Foi o que verifiquei durante uma curta passagem por ali. E foi essa presença, paradoxalmente, que me devolveu uma ausência. Porque, ao encontrar músicos dos Massukos espalhados por diferentes palcos, em formações reduzidas ou actuando individualmente, comecei a perguntar-me, sem pretender transformar uma impressão em sentença. Onde estão os Massukos?

Na cidade, a narrativa que circula é a de que a banda já não existe propriamente como conjunto, estando os seus principais protagonistas a seguir percursos diferentes. Há até quem diga que o seu líder estará prestes a integrar outra formação local. Não sei se assim é. E, por não saber, não me parece prudente converter conversa de rua em verdade publicada.

Depois de uma das actuações, perguntei directamente a Simão se aquelas apresentações reduzidas significavam o fim dos Massukos. Respondeu que não. A banda continua a existir. Registei a resposta e preferi não aprofundar. Afinal, entre o que se diz numa cidade e aquilo que os protagonistas sabem sobre a sua própria história existe, muitas vezes, um território onde o jornalista deve caminhar com prudência. Mas a pergunta permanece.

E talvez ela seja legítima porque os Massukos nunca foram apenas uma banda. Desde 1995, construíram uma das mais importantes pontes culturais entre o Niassa e o mundo. Levaram a música da província a Portugal, ao Reino Unido, ao Japão e a outros espaços onde, para muitos, o Niassa talvez fosse apenas um nome distante no mapa. Nas suas canções cabiam a vida quotidiana, as dificuldades sociais, a higiene, o saneamento, o HIV/SIDA e, sobretudo, uma determinada maneira de olhar e traduzir culturalmente a realidade moçambicana.

Foram, portanto, músicos, mas também depositários de memória. E, num país em que tantas manifestações culturais desaparecem sem arquivo, sem registo e sem cerimónia, isso não é pouca coisa.

É verdade que nenhuma banda é eterna. A história universal da música está cheia de grupos que chegaram ao fim, alguns depois de uma longa convivência e outros exacatemnte quando pareciam mais fortes. Os Beatles acabaram. O ABBA interrompeu a sua trajectória. O Africa 70 de Fela Kuti também conheceu transformações profundas. A dissolução de uma banda é, muitas vezes, apenas a consequência natural da passagem do tempo, das diferenças humanas, das circunstâncias económicas ou da necessidade de cada músico reinventar a própria vida.

Não há escândalo nisso. O que seria lamentável é que uma formação com a importância dos Massukos desaparecesse simplesmente por erosão, sem que ninguém percebesse quando deixou de existir.

Talvez os Massukos estejam vivos, apenas diferentes. Talvez estejam em pausa. Talvez estejam a reinventar-se. Talvez a ideia de “banda” tenha sobrevivido para além da formação que conhecemos. Ou talvez estejamos perante o princípio discreto de um fim que ainda ninguém teve coragem, ou necessidade, de anunciar.

Qualquer que seja a resposta, ela merece ser contada pelos próprios protagonistas. Não por nostalgia barata, nem para exigir que músicos permaneçam juntos contra a sua vontade. Mas porque certas instituições culturais deixam de pertencer apenas aos seus criadores. Tornam-se parte da memória colectiva. E os Massukos, gostemos ou não, já pertencem à memória do Niassa.

Por isso, a pergunta não é apenas, “Já não há Massukos?” A pergunta mais profunda talvez seja outra. O que acontece a uma parte da identidade cultural de uma província quando os seus principais intérpretes deixam de tocar juntos? Lichinga talvez saiba a resposta. Eu, por enquanto, vou-me embora, apenas com a pergunta. Hasta la vista! El Patriota!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *