Jornalistas contra jornalistas em Nampula

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
blank

Durante a última conversa que tivemos com o Defensor dos Direitos Humanos Gamito dos Santos, para uma grande entrevista que publicamos há duas edições, ficou-nos um aviso seu que não era acusação, mas um diagnóstico: a fome, material e mental, está a corroer o jornalismo em Nampula. Gamito não falava apenas da escassez de salários dignos.

Falava da facilidade com que alguns profissionais trocam o rigor por conveniência, investigação por alinhamento, ética por pequenas quantias que aliviam o dia, mas hipotecam a profissão. A preocupação do activista era simples e devastadora: quando o jornalista deixa de honrar a classe, deixa de ser um contrapoder e passa a ser um instrumento.

Os últimos acontecimentos na província ilustram com nitidez essa degradação silenciosa. A TV Glória divulgou uma matéria acusando o governador Eduardo Mariamo Abdula de guardar, na sua residência oficial, donativos destinados às vítimas de calamidades. Trata-se de uma acusação grave, porque mexe com a dor alheia e com a confiança pública. Em resposta, o governador afirmou possuir mensagens enviadas por um jornalista a solicitar apoio financeiro antes da divulgação da notícia, classificando tal conduta como incompatível com o exercício do jornalismo.

Apesar disso, declarou que não pretende divulgar as mensagens nem retaliar, assegurando que os donativos são recebidos, organizados e distribuídos na presença de doadores e parceiros, e advertindo que acusações infundadas podem afastar financiadores e prejudicar as próprias populações vulneráveis.

Até aqui, a tensão é legítima. A imprensa acusa, o poder responde. O problema começa quando o debate deixa de girar em torno dos factos e passa a girar em torno das lealdades. O que se assiste em Nampula nas últimas 48 horas não tem sido uma corrida às provas, mas uma corrida às trincheiras. Órgãos de comunicação social apressam-se a atacar a reportagem da TV Glória, não com investigação alternativa, mas com desqualificação sumária. Outros assumem posição inversa, como se a gravidade da denúncia bastasse para substituir a necessidade de prova. Instalou-se, assim, uma guerra de jornalistas contra jornalistas, onde o alvo deixou de ser a verdade e passou a ser o colega.

O mais inquietante é que quase ninguém parece ter feito o essencial: investigar. Verificar a entrada e saída dos donativos, ouvir doadores, confirmar datas, confrontar documentos, ouvir funcionários, cruzar testemunhos. Em vez disso, assistimos a uma coreografia previsível em que a mensagem é engolida pelo ataque ao mensageiro, ou o poder é defendido com um zelo que ultrapassa o dever de contraditório e resvala para a protecção.

Não se trata aqui de tomar partido. NGANI não tem interesse em defender o governador nem em blindar a reportagem que o acusa. O que nos inquieta é a facilidade com que a classe jornalística se deixa manipular e dividir. A volubilidade tornou-se regra. Basta um sussurro estratégico, uma promessa de proximidade, uma expectativa de publicidade institucional, e rapidamente se formam blocos de ataque e defesa. O jornalismo transforma-se num campo de batalha fratricida onde todos perdem, sobretudo o público.

Se houve, de facto, tentativa de solicitar dinheiro em troca de silêncio ou tratamento favorável, isso deve ser tratado com a máxima seriedade dentro da própria classe. A ética não é negociável. Mas se a acusação dessa conduta estiver a ser utilizada como mecanismo de intimidação ou descredibilização de um órgão de comunicação social, isso também exige escrutínio rigoroso. O que não é aceitável é substituir o apuramento por ataques emocionais e alinhamentos oportunistas.

A profissão de jornalista carrega uma das mais nobres responsabilidades sociais: fiscalizar o poder e dar voz a quem não a tem. Contudo, em contextos como o de Nampula, onde as redacções são frágeis, os salários incertos e a dependência de publicidade institucional é estrutural, a tentação de alinhar é permanente. A precariedade é real, mas não pode ser desculpa para a rendição ética. Quando o jornalista se deixa capturar por interesses políticos, económicos ou pessoais, deixa de ser mediador entre o facto e o cidadão e passa a ser actor numa peça escrita por outros.

O caso do governador deveria ter sido encarado como oportunidade para a classe demonstrar maturidade. A acusação exigia investigação profunda e independente. A resposta do governador exigia verificação documental e contraditório sério. Em vez disso, assistimos a um espectáculo de indignações selectivas e defesas apressadas. A discussão desviou-se da substância, se os donativos foram ou não correctamente geridos, para o terreno pantanoso das rivalidades e suspeitas internas.

É precisamente nesse desvio que a classe perde estatura. O quarto poder não se afirma por proclamação, mas por prática consistente de rigor. Uma sociedade não reconhece autoridade moral a um jornalismo que se comporta como um conjunto de facções facilmente instrumentalizáveis. Quando jornalistas atacam colegas sem apresentar factos, ou defendem governantes sem exigir provas, estão a enfraquecer o próprio instrumento que lhes dá relevância: a credibilidade.

A proximidade entre governantes e cidadãos, defendida pelo governador como modelo de governação, é em si legítima. O problema surge quando essa proximidade contamina a independência da imprensa. O jornalista não pode confundir acesso com alinhamento. Não pode trocar proximidade por complacência. A função de fiscalizar implica manter distância crítica, mesmo quando se partilha o mesmo espaço geográfico, social ou cultural.

Se quisermos ser levados a sério como quarto poder em Nampula, precisamos começar por levar a sério a nós próprios. Caso contrário, continuaremos presos a esta lógica de jornalistas contra jornalistas, facilmente inflamáveis, facilmente divididos, facilmente utilizados. E a cidade, a província que precisam de uma imprensa forte e independente, continuarão a assistir à degradação de uma das suas instituições mais essenciais. @Félix Filipe

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *