Cornélio Quivela: “Moçambique parou no tempo e falhou em transformar riqueza em desenvolvimento”

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O político Cornélio Quivela, presidente do PAHUMO, afirma que Moçambique permanece num ciclo prolongado de estagnação desde a independência, em 1975, com fracas transformações estruturais e forte dependência de infra-estruturas herdadas do período colonial.

Em entrevista ao NGANI, concedida na cidade de Pemba, província de Cabo Delgado, Quivela traça um retrato crítico do país, defendendo que o Estado não conseguiu converter o potencial económico em benefícios concretos para a população.

Segundo o dirigente, um dos sinais mais evidentes dessa estagnação é a degradação das infra-estruturas, sobretudo no sector das estradas e mobilidade, que considera incapazes de responder às exigências actuais. “Há trajectos que hoje levam mais de cinco horas para percorrer o que antes se fazia em menos de uma hora. A pergunta que não quer calar é: o que o Governo faz com os recursos obtidos junto de credores e da exploração dos recursos naturais?”, questionou.

Para Quivela, este cenário revela um bloqueio estrutural ao desenvolvimento, onde o crescimento económico não acompanha o aumento populacional nem as necessidades sociais. O político acusa o Estado de não conseguir transformar os recursos naturais e humanos em riqueza efectiva para o cidadão.

O dirigente aponta ainda que cidades, vilas e postos administrativos continuam com baixos níveis de desenvolvimento, apesar do potencial existente para a sua expansão. No plano económico, considera que o país permanece dependente de actividades informais e de baixo rendimento, sem uma base industrial sólida e sustentável.

Como resposta, defende uma aposta imediata na industrialização, com a criação de fábricas locais capazes de transformar matérias-primas e gerar emprego em larga escala. “O país precisa deixar de importar o que pode produzir. Tínhamos empresas a funcionar desde o tempo colonial. O que custa reactivá-las para empregar a juventude? Há falta de vontade”, afirmou.

Quivela propõe igualmente a mecanização da agricultura, com a introdução de tecnologia e equipamentos modernos para aumentar a produção e reduzir a dependência alimentar externa.

“O mundo actual funciona com base na tecnologia, mas não conseguimos colocar o país a funcionar. Temos terras aráveis, mas continuamos a importar. Os índices de pobreza reflectem essa realidade”, declarou.

Para o político, o Estado deve assumir um papel mais activo, deixando de ser apenas regulador e passando a facilitar a produção, através do financiamento de projectos produtivos e da criação de condições reais de acesso ao crédito para jovens empreendedores.

Defende também a reabilitação urgente das infra-estruturas rodoviárias como eixo central para dinamizar a economia, reduzir custos de transporte e aproximar mercados.

No plano social, Quivela alerta para a necessidade de alinhar a educação com o mercado de trabalho, apostando numa formação técnica orientada para a produção. “O país tem boas leis, mas falha na implementação. Muitos projectos ficam no papel. Tivemos iniciativas como o SUSTENTA, que não produziram os resultados esperados”, criticou.

ANAMOLA surge como expressão de descontentamento

No campo político, Quivela considera que o sistema continua marcado por uma lógica de continuidade desde a independência, com reduzida renovação estrutural.

Neste contexto, analisa o surgimento do partido ANAMOLA como um sinal de reconfiguração do panorama político nacional e expressão do descontentamento popular. “As pessoas estão cansadas. O surgimento do ANAMOLA procura dar voz a um povo que se sente oprimido”, afirmou.

O político entende que a RENAMO e o MDM falharam em afirmar-se como alternativas consistentes de governação, apontando fragilidades organizacionais e falta de consistência política. “A RENAMO representava uma esperança de alternância, mas perdeu essa oportunidade. Faltou seriedade aos partidos que ambicionam governar”, disse.

Ainda assim, alerta que novos movimentos políticos só terão impacto real se apresentarem organização interna sólida, coesão e propostas claras. “Esperamos que não haja fragmentação interna. A falta de unidade pode comprometer qualquer projecto político emergente”, advertiu.

Sobre o seu partido, Quivela assegura que o PAHUMO continua activo e a preparar-se para os próximos desafios eleitorais, com foco na mobilização de base. O dirigente recorda que, nas últimas eleições autárquicas, o partido conquistou oito assentos na Assembleia Municipal de Pemba. “Este resultado demonstra que o PAHUMO está em crescimento. Queremos consolidar o nosso projecto político e contribuir para o fortalecimento da democracia no país”, concluiu. Agostinho Miguel

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