Rapale soma 39 anos, mas desenvolvimento continua incipiente

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O distrito de Rapale, localizado a cerca de 16 quilómetros da cidade de Nampula, assinalou no último sábado (25) os 39 anos de elevação à categoria de vila, num ambiente marcado por críticas ao lento ritmo de desenvolvimento, em contraste com a sua proximidade à capital provincial.

Apesar da sua longevidade administrativa, Rapale continua a debater-se com a escassez de serviços básicos, comprometendo a qualidade de vida da população. Moradores ouvidos pelo NGANI descrevem o cenário como de abandono persistente.

“Estamos perto da cidade, mas vivemos como se estivéssemos longe de tudo”, resumem residentes, apontando a falta de água potável, infraestruturas sociais, saneamento e serviços bancários como alguns dos principais constrangimentos.

A ausência de uma agência bancária é vista como um dos maiores entraves ao desenvolvimento económico local, afectando sobretudo agricultores e pequenos comerciantes.

Hilário Nantoia explica que a população é obrigada a guardar dinheiro em casa, recorrendo a práticas inseguras. “Não faz sentido não termos banco, estando tão próximos da cidade de Nampula. Guardamos dinheiro em casa e, quando precisamos levá-lo à cidade, temos medo de assaltos”, disse.

Segundo o mesmo, há quem recorra a métodos rudimentares, como enterrar dinheiro ou utilizar cofres improvisados. A desconfiança em relação aos serviços de moeda electrónica agrava o problema. “Não confiamos nesses serviços. É fácil perder o pouco que temos. Voltámos ao tempo antigo porque não temos alternativa”, lamentou.

Outro desafio crítico é o acesso à água potável. Em várias comunidades, famílias — sobretudo mulheres — percorrem longas distâncias para obter o recurso.

Cátia Ali relata que o consumo de água de rios continua a ser prática comum, contribuindo para o aumento de doenças como cólera e diarreias.

No sector da saúde, as queixas centram-se no estado degradado do centro de saúde local. Utentes denunciam que os sanitários estão inoperacionais há anos, devido à falta de água.

“Os sanitários não funcionam. É uma vergonha para um centro de saúde”, criticaram, acrescentando que muitos são obrigados a recorrer às matas para satisfazer necessidades fisiológicas, numa situação que consideram indigna e perigosa para a saúde pública.

Os moradores afirmam que as autoridades têm conhecimento dos problemas, mas as soluções tardam em chegar. “Eles sabem, mas nada muda”, acusam.

No capítulo do emprego, jovens denunciam exclusão nas oportunidades geradas por empresas que operam na região.

João Daniel aponta o dedo a algumas empresas privadas, como a Novos Horizontes, acusando-as de privilegiarem trabalhadores oriundos da cidade de Nampula. “Os jovens daqui são ignorados. Ficamos apenas com trabalhos precários, o que gera frustração e conflitos”, disse.

Também no sector cultural se levantam vozes de insatisfação. Artistas locais queixam-se de falta de apoio institucional, situação que tem levado alguns a abandonar temporariamente as suas carreiras.

Luísa Pires, cantora natural de Rapale, afirma que a ausência de incentivos afectou o seu percurso artístico. “Faltou apoio. Isso desmotiva qualquer artista”, lamentou.

Apesar do cenário descrito, alguns moradores reconhecem sinais iniciais de mudança com a entrada em funções da nova administradora distrital.

Maria Noventa é apontada como uma líder mais aberta ao diálogo. “Pelo menos agora sentimos que alguém nos ouve. O anterior governo deixava a desejar”, referiram.

Confrontada com as críticas, a administradora reconheceu os desafios que afectam o distrito, sobretudo nas áreas sociais.

“Temos problemas sérios, principalmente no sector social”, admitiu.

O abastecimento de água foi destacado como uma das maiores preocupações, com várias comunidades ainda dependentes de fontes inseguras.

Na área de energia, embora todos os postos administrativos estejam ligados à rede eléctrica, a dirigente reconheceu que muitas localidades continuam sem acesso. “Ainda temos comunidades sem energia, e isso trava o desenvolvimento”, afirmou.

As más condições das vias de acesso também preocupam. Segundo Maria Noventa, várias estradas foram danificadas pelas chuvas, dificultando a circulação de pessoas e bens.

“Temos estradas em mau estado, sobretudo após a época chuvosa”, explicou.

Nos sectores da saúde e educação, a administradora reconheceu igualmente o défice de infraestruturas e de condições adequadas.

Apesar disso, garantiu que o governo distrital está a mobilizar recursos para melhorar a situação, embora sem avançar prazos concretos. “Estamos a trabalhar para reverter este cenário”, assegurou. Agostinho Miguel

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