O nome de Moçambique aparece 177 vezes em documentos ligados a Jeffrey Epstein, o financista norte-americano que esteve no centro de um dos maiores escândalos de abuso sexual do mundo. Os dados constam de e-mails, agendas e outros registos que foram recentemente tornados públicos e analisados por consórcios internacionais de jornalismo de investigação.
Segundo essas análises, muitas das referências a Moçambique estão associadas a comunicações envolvendo o antigo Presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e a banqueira francesa Ariane de Rothschild, ligada ao grupo Edmond de Rothschild e que manteve, durante vários anos, uma residência de lazer na cidade de Pemba, em Cabo Delgado.
Um dos factos que mais chama a atenção nos documentos é que o avião usado por Bill Clinton numa viagem oficial a África, em 2002 — que incluiu Moçambique — pertencia a Jeffrey Epstein. De acordo com os registos, a aeronave partiu de Nova Iorque, fez escala nos Açores, em Portugal, e seguiu para vários países africanos, incluindo Moçambique, África do Sul, Ghana e Nigéria.
A bordo seguiam várias figuras públicas internacionais, entre elas o actor Kevin Spacey. Na altura, a visita foi apresentada publicamente como uma missão humanitária, focada na sensibilização para o combate ao HIV/SIDA em África.
Durante a sua passagem por Moçambique, Bill Clinton reuniu-se com o então Presidente da República, Joaquim Chissano, e com o falecido Primeiro-Ministro Pascoal Mocumbi.
Não existe qualquer prova pública de que esses encontros tenham tido natureza ilegal.
Ainda assim, o facto de a aeronave utilizada pertencer a Epstein levanta, hoje, questões éticas e dúvidas sobre a proximidade entre figuras políticas de alto nível e um homem que viria a ser condenado por crimes graves.
Os documentos mencionam também temas como educação, saúde, HIV/SIDA, mineração, carvão mineral e contactos com representantes da administração pública moçambicana. No entanto, não há indicação de crimes cometidos em território nacional.
As referências sugerem sobretudo a existência de redes internacionais de influência, circulação de elites políticas e interesses económicos que atravessavam vários continentes.
Quem foi Jeffrey Epstein?
Jeffrey Epstein nasceu em 1953, nos Estados Unidos, e fez fortuna no sector financeiro, prestando serviços a milionários e pessoas muito influentes. Durante anos, manteve relações próximas com políticos, empresários e académicos de vários países.
Em 2008, foi condenado por crimes ligados ao abuso sexual de menores, beneficiando de um acordo judicial controverso. Em 2019, voltou a ser detido por tráfico sexual de menores, mas morreu na prisão antes de ser julgado. A versão oficial aponta para suicídio, embora o caso continue a gerar dúvidas.
A sua antiga companheira, Ghislaine Maxwell, foi condenada em 2021 por recrutar raparigas menores para serem abusadas, confirmando a existência de uma rede organizada.
O que isto significa para Moçambique?
As revelações agora conhecidas não provam que crimes tenham ocorrido em Moçambique. Mas mostram que o país fez parte de um circuito internacional frequentado por figuras poderosas ligadas a Epstein. Para analistas, o caso serve de alerta para a importância da transparência, da vigilância institucional e da responsabilidade nas relações internacionais do Estado.
Organizações de jornalismo de investigação prometem divulgar, nos próximos dias, novos detalhes sobre possíveis ligações económicas e institucionais envolvendo Moçambique.
Num mundo onde o poder circula longe dos holofotes, ficam perguntas simples — e legítimas: quem sabia, quem facilitou e quem beneficiou? Redacção

