Jornalismo de joelhos

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Na semana finda, o país assistiu a um daqueles espectáculos que não precisam de bilhete, mas deixam ressaca moral. Em horário nobre, no Especial Informação da MBCTV, foi encenada uma peça tragicómica que ficará para os anais do mau jornalismo: uma entrevista que se disfarçou de debate, mas que na prática funcionou como tribunal político sem juiz imparcial, sem contraditório e sem vergonha.

O protagonista do interrogatório foi José Belmiro, um jornalista experiente, com percurso suficiente para saber distinguir uma entrevista de uma emboscada. Do outro lado da mesa — ou melhor, da cadeira estrategicamente mais baixa — estava Venâncio Mondlane, presidente do recém-criado partido ANAMOLA.

O que se esperava era simples: perguntas duras, sim; contraditório firme, claro; escrutínio político, obviamente. O que se viu foi outra coisa. Um espectáculo deprimente conduzido não por um jornalista, mas por um comissário político disfarçado de profissional de imprensa, alguém que confundiu microfone com cacetete e jornalismo com ajuste de contas.

Belmiro não entrevistava: interrompia. Não questionava: desmentia. Não esclarecia: humilhava.

Cada vez que o convidado tentava organizar uma ideia, vinha o corte. Cada vez que procurava explicar uma proposta, vinha a ironia mal-educada. A certa altura, o entrevistado esteve a um passo de abandonar o programa. Não por fraqueza — mas por dignidade. Ficou. E ironia das ironias, foi aí que o tiro saiu pela culatra.

Venâncio Mondlane tem estrada. Tem pele grossa. Já enfrentou piores climas do que um estúdio mal refrigerado. E foi essa maturidade política que expôs, ao vivo, a fragilidade de quem deveria estar ali apenas como mediador. Quando um entrevistador passa o programa inteiro a tentar parecer mais preparado do que o entrevistado, o problema já não é o convidado — é o ego.

Em vários momentos, Belmiro revelou uma ignorância constrangedora ao confundir programa de governação com manifesto eleitoral, duas coisas distintas até para um estudante do primeiro ano de Ciência Política. Em vez de ajudar o público a perceber as ideias do ANAMOLA, optou por “corrigir” o convidado, não com base jornalística, mas com opinião pessoal travestida de verdade absoluta.

O mais grave não foi a agressividade. Foi a intenção. Ficou claro, cristalino, que não se tratava de uma entrevista para informar, mas de uma conversa arquitectada para humilhar, desmoralizar e reduzir. Uma armadilha mal disfarçada, montada com a sofisticação de quem acredita que o público é burro e não percebe quando está a ser manipulado.

E não, não vamos perder tempo com os detalhes cénicos — embora eles gritem por si:
– o calor excessivo na sala,
– a cadeira mais baixa do entrevistado,
– o enquadramento visual de superioridade.

Tudo isso pertence à cartilha velha da intimidação psicológica. O problema não é técnico. É ético. Há quem diga: “Mas a lei não proíbe jornalistas de terem partido.” É verdade. Nem a Lei de Imprensa de Moçambique, nem a Constituição da República de Moçambique proíbem um jornalista de se filiar a um partido político. A Constituição, aliás, garante esse direito a qualquer cidadão. Ponto final.

Mas o que a lei permite não é o mesmo que a ética recomenda. A ética não se escreve apenas em códigos. Vive na prática. Um jornalista pode até ter cartão partidário no bolso — mas quando se senta numa cadeira de entrevistador, esse cartão tem de ficar em casa. O microfone não pode servir para militância. A televisão não pode ser usada como trincheira ideológica.

Quando um jornalista actua como militante em serviço, não está a exercer um direito constitucional. Está a trair uma profissão. E aqui sejamos claros: ninguém no NGANI exige jornalistas assexuados politicamente. Exigimos apenas honestidade profissional. Se alguém quiser fazer política, que o faça de peito aberto. Que abandone o jornalismo, concorra a eleições, faça comícios, use camisola partidária sem pudor.

O que não aceitamos — e nunca aceitaremos — é o uso do jornalismo para perseguir opositores do regime, nem o uso da política para sequestrar a imprensa. Ou usar o jornalismo para atacar injustamente quem governa.

É legítimo perguntar — e nós perguntamos: Se naquela cadeira estivesse Daniel Chapo, ou qualquer outro quadro da Frelimo, Belmiro teria a mesma postura? Teria interrompido tanto?
Teria humilhado? Teria falado por cima? Ou veríamos reverência, sorriso contido, perguntas macias e aquele velho lambe-botismo institucional que o país já conhece de cor?

A resposta é óbvia demais para merecer desenvolvimento. No NGANI, não medimos políticos pela cor do partido. Medimos pelo mesmo metro. Governantes, oposição, independentes — todos passam pelo mesmo crivo. Porque respeitamos esta profissão nobre. Porque acreditamos que o jornalismo é um serviço público, mesmo quando exercido num órgão privado.

Aqui não há entrevistas para agradar regimes nem para destruir opositores. Há perguntas duras, sim — mas justas. Há crítica, claro — mas honesta. Há ironia — mas com inteligência.

O que vimos na MBCTV não foi jornalismo. Foi propaganda mal ensaiada. Foi activismo envergonhado. Foi um comício sem bandeiras. E o mais irónico de tudo é que, tentando humilhar Venâncio Mondlane, acabaram por prestar-lhe um serviço político gratuito. O país viu. O público percebeu. A máscara caiu.

No final, ficou a sensação amarga de que parte da nossa imprensa ainda não decidiu de que lado quer estar: do lado da informação ou do lado do poder. No NGANI, já decidimos há muito tempo. Se algum dia quisermos fazer política, abandonaremos o jornalismo. Não faremos as duas coisas juntas. Porque jornalismo de joelhos não informa. Serve. E nós não estamos aqui para servir partidos. Estamos aqui para servir o público.

@NGANI@FelixFilipe,Crónicas do Absurdo

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