O Conselho Executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) concluiu esta terça-feira, em Washington, a avaliação anual da economia moçambicana, no âmbito da chamada “Consulta do Artigo IV”, um processo em que a instituição analisa as contas públicas, a dívida, a inflação e as perspectivas de crescimento do país.
O diagnóstico é claro: Moçambique vive um ambiente económico difícil, com crescimento fraco, dívida pública elevada, redução da ajuda externa e necessidades sociais urgentes. Apesar de alguns sinais positivos, o FMI considera que os riscos continuam elevados e defende reformas profundas para evitar o agravamento da situação.
Segundo o relatório, a economia começou a recuperar lentamente depois da forte desaceleração registada no final de 2024, na sequência das eleições de Outubro. Ainda assim, o crescimento económico em 2025 é estimado em apenas 0,5%, muito abaixo dos 5,5% registados em 2023.
A inflação manteve-se relativamente baixa (3,2% no final de 2025), e as reservas internacionais — o dinheiro que o país tem em moeda estrangeira para pagar importações e dívida externa — são consideradas adequadas, cobrindo cerca de 6,5 meses de importações.
Outro ponto positivo destacado é a saída de Moçambique da “lista cinzenta” do Grupo de Acção Financeira (FATF), o que melhora a imagem do país no sistema financeiro internacional. Também pesa a expectativa de retoma de um grande projecto de gás natural liquefeito (LNG), que poderá impulsionar a economia no futuro.
Mas os problemas continuam
Apesar desses avanços, o FMI alerta que os desafios são sérios:
- A dívida pública continua alta, situando-se acima de 90% do Produto Interno Bruto (PIB).
- O Estado enfrenta dificuldades crescentes para financiar o seu orçamento.
- A ajuda externa tem diminuído.
- O crescimento fora do sector mineiro é fraco, rondando 2%.
O défice do Estado — a diferença entre o que o Governo arrecada e o que gasta — diminuiu de 6,2% do PIB em 2024 para 4,5% em 2025. No entanto, essa redução ocorreu principalmente porque o Governo cortou despesas com bens, serviços e investimentos públicos.
Ao mesmo tempo, os juros da dívida continuam a subir, o que pode voltar a aumentar o défice nos próximos anos. O FMI chama atenção para a necessidade de maior flexibilidade da taxa de câmbio. Actualmente, o metical mantém-se relativamente estável face ao dólar desde 2021, mas há escassez de moeda estrangeira no mercado.
Para lidar com essa situação, o Banco de Moçambique reforçou os controlos cambiais e apertou as regras sobre saída de capitais. O FMI considera que estas medidas ajudam no curto prazo, mas defende que uma taxa de câmbio mais flexível permitiria à economia ajustar-se melhor às pressões externas.
O que o FMI recomenda?
Os directores do FMI defendem um pacote abrangente de reformas para estabilizar a economia e restaurar a sustentabilidade da dívida. Entre as principais recomendações estão:
- Reduzir de forma credível o défice orçamental.
- Controlar a massa salarial do Estado.
- Alargar a base tributária (ou seja, cobrar impostos a mais sectores).
- Melhorar a gestão das empresas públicas.
- Reforçar a transparência e a gestão da dívida.
- Proteger os grupos mais vulneráveis durante o processo de ajustamento.
O FMI também recomenda maior supervisão do sector bancário, dado que muitos bancos detêm grandes quantidades de dívida pública, o que pode representar risco caso o Estado enfrente dificuldades.
No médio prazo, o sector do gás natural é apontado como a principal esperança de crescimento. A produção de LNG é esperada a partir de 2030, o que poderá aumentar significativamente as exportações e as receitas do Estado.
Até lá, o défice externo deverá continuar elevado, devido às importações relacionadas com os projectos de gás e ao pagamento da dívida externa.
O que significa isto para o cidadão?
Em termos simples, o país está a gastar mais do que consegue arrecadar e tem cada vez menos espaço para se financiar. Isso pode traduzir-se em:
- Menos investimentos públicos.
- Maior pressão fiscal.
- Dificuldades no acesso a crédito.
- Possível aumento de preços no futuro.
Ao mesmo tempo, o Governo enfrenta o desafio de equilibrar as contas sem agravar as dificuldades da população mais pobre.
A próxima avaliação do FMI deverá ocorrer dentro de um ano. Até lá, o desempenho da economia dependerá da capacidade do Governo em implementar reformas, manter a estabilidade financeira e preparar o país para beneficiar, de forma sustentável, das futuras receitas do gás. O recado do FMI é inequívoco: há sinais de recuperação, mas sem reformas estruturais profundas, os riscos para a estabilidade económica de Moçambique permanecem elevados. Redacção

