Roubaram a letra! E agora?

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Entre a filosofia e o ridículo, Moçambique acaba de inaugurar uma nova era civilizacional: a era do furto ortográfico. Depois do misterioso desaparecimento da letra “A” numa placa pública na cidade da Matola, eis que surge, com a mesma solenidade de um golpe de Estado gramatical, o roubo da letra “E” na placa de boas-vindas ao município de Marracuene.

Não se trata de metáfora. Não é literatura experimental. É factual: alguém, com ferramentas, tempo e propósito, decidiu subtrair uma letra do nome de um município. Assim, sem mais nem menos. Como quem leva um telemóvel, uma carteira ou um pato. Só que, desta vez, o objecto do desejo não foi um celular, nem bolsa, nem uma ave palmípede. Foi uma vogal.

E aqui estamos nós, a tentar compreender como chegámos ao ponto em que já não roubamos apenas coisas, roubamos letras. Podemos rir. Aliás, devemos rir. Porque há situações em que o riso é a última barricada contra o desespero. Mas rindo, convém castigar os costumes. Porque o que está em causa não é apenas o desaparecimento físico de um “E”. O que desaparece, lentamente, é a noção de pertença, de respeito pela coisa pública, de consciência colectiva.

Uma placa de boas-vindas não é um pedaço de metal pintado. É o cartão de visita de uma comunidade. É o “aqui começa a nossa casa”. Quando alguém arranca uma letra daquela estrutura, não está apenas a danificar um objecto. Está a mutilar uma identidade. E a pergunta impõe-se: o que leva um cidadão a roubar uma letra?

Será o valor comercial do alumínio ou do betão? Será a necessidade económica? Será pura diversão? Ou será, mais grave ainda, a convicção íntima de que aquilo “não é de ninguém”, logo pode ser de qualquer um? Há muito tempo que o espaço público em Moçambique vive sob regime de orfandade. Aquilo que é de todos tornou-se, na prática, de ninguém. E aquilo que é de ninguém, na prática, é território livre para o vandalismo.

Não nos surpreende que se urine nas árvores, na via pública. Não nos espanta que se deixem as nossas praias sujas com todo o tipo de lixo, etc. Tudo isso já foi naturalizado. Mas roubar letras? Eis o novo patamar da criatividade destrutiva.

É quase poético, se não fosse trágico. Talvez estejamos a assistir ao surgimento de uma nova forma de protesto silencioso. Quem sabe? Talvez alguém esteja a enviar mensagens cifradas ao poder, removendo vogais como quem retira a voz de um sistema que não escuta. Mas não sejamos ingénuos. O mais provável é que seja apenas vandalismo banal. A banalidade do mal, aplicada ao alfabeto.

E é aqui onde esta nossa crónica deixa de ser anedota e passa a ser espelho. Quando uma sociedade começa a degradar os seus próprios símbolos, algo está profundamente desalinhado no seu sistema de valores. Não é apenas uma questão de polícia. Não é apenas uma falha de iluminação pública. É uma falha de formação.

O roubo da letra “E” em Marracuene não é um caso isolado. É um sintoma de uma sociedade que perdeu a vergonha pública. Porque, em sociedades saudáveis, há sempre alguém que intervém. Há sempre alguém que diz: “Não faças isso.” Há sempre um olhar que constrange.

Hoje, o olhar é cúmplice ou indiferente. E a indiferença é o terreno fértil da decadência. Alguém viu aquela letra ser arrancada. Não foi obra de um fantasma. Não foi o vento. Houve mãos humanas envolvidas. E provavelmente houve olhos humanos a assistir, silenciosos.

Talvez tenhamos atingido um estágio em que a degradação deixou de chocar. Em que já não nos indignamos. Em que a frase mais comum é: “É assim mesmo.” É assim mesmo?

Não. Não é assim mesmo. Não pode ser assim mesmo. Porque hoje é uma letra. Amanhã é um poste de iluminação. Depois é uma tampa de esgoto. Depois são cabos eléctricos. Depois é um hospital saqueado. E quando dermos conta, estaremos a viver num país onde até o nome das cidades é incompleto.

Talvez devêssemos agradecer aos ladrões de vogais. Eles estão a prestar um serviço pedagógico involuntário. Estão a mostrar, com brutal clareza, o nível a que chegámos. Uma sociedade que não respeita o seu próprio nome está pronta para aceitar qualquer destino.

Mas não nos limitemos a apontar o dedo para o autor material do acto. A responsabilidade é mais ampla. Onde estão as autoridades locais? Onde estão os mecanismos de prevenção? Onde está a manutenção regular? Onde está a vigilância? A repetição de casos — primeiro na Matola, agora em Marracuene — sugere que há um padrão. E padrões exigem respostas estruturais. Não basta repor a letra. É preciso repor a autoridade moral.

É preciso que haja consequências visíveis. Não por vingança, mas por pedagogia. Porque impunidade educa para a reincidência. No entanto, seria demasiado cómodo transformar esta crónica num libelo exclusivo contra o poder público. O problema é mais profundo. Está entranhado na cultura quotidiana.

Quantos de nós respeitamos filas? Quantos de nós paramos no sinal vermelho quando não há polícia? Quantos de nós pagamos impostos com convicção? Quantos de nós cuidamos da rua como cuidamos da sala de casa?

A ética não começa nas grandes decisões. Começa nos pequenos gestos. E o roubo de uma letra é um pequeno gesto com grande significado. Estamos a formar cidadãos ou apenas a formar sobreviventes? Estamos a ensinar responsabilidade ou apenas a ensinar esperteza? Estamos a cultivar pertença ou apenas a alimentar oportunismo?

Se a educação formal não produz cidadãos responsáveis, então precisamos de repensar o modelo. Se a família já não transmite valores de respeito pelo comum, então precisamos de reabilitar o papel da família. Se os líderes dão mau exemplo, então precisamos de exigir coerência.

In Crónicas do Absurdo, 230226

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