Há promessas que nascem para morrer. Outras nascem para envergonhar quem as fez. E há ainda aquelas, raras, mas perigosas, que nascem para incendiar um país inteiro. As capulanas prometidas pelo Gabinete da Primeira-Dama parecem ter escolhido a terceira via.
O que começou como um gesto “bonito”, “sensível”, “maternal” — esses adjectivos que a política adora usar quando não tem substância — terminou com pneus a arder, estrada nacional bloqueada, tiros, atropelamentos e uma sede partidária reduzida a cinzas. Literalmente. A emoção saiu cara.
Durante semanas, fomos embalados pela ideia de que “nenhuma mulher ficaria de fora”. Nenhuma. Uma palavra pequena, mas com um peso logístico equivalente a transportar um país inteiro às costas. Nenhuma significa todas. E todas, em Moçambique, são milhões. Milhões que, como se viu em Nampula, não cabem em discursos.
O problema das promessas emocionais é que elas não conhecem matemática, não conhecem logística, não conhecem realidade. Vivem apenas no território confortável da intenção, esse lugar onde tudo parece possível porque nada foi ainda testado.
Mas depois vem o mundo real. E o mundo real tem mulheres à espera, listas mal feitas, critérios que aparecem depois da promessa, favoritismos, confusão, frustração. E, quando a expectativa é inflacionada ao nível nacional, tem revolta. Em Anchilo, as mulheres fizeram aquilo que o Estado não fez: organizaram-se.
Só que, em vez de filas ordeiras, organizaram barricadas. Em vez de aplausos, levantaram pneus em chamas. Em vez de gratidão, devolveram indignação. Porque há uma regra básica que a política insiste em ignorar: quem promete para todos, responde perante todos. E quando todos não recebem, todos reclamam.
É curioso observar como a emoção oficial raramente prevê o desfecho. Na cabeça de quem promete, a cena é sempre a mesma: mulheres sorridentes, capulanas coloridas ao vento, câmaras a captar o momento, manchetes suaves no dia seguinte. Um país agradecido. Uma liderança sensível. Mas a realidade, essa teimosa, resolveu escrever outro guião. Incluiu uma criança atropelada. Incluiu uma mulher baleada. Incluiu fogo. Incluiu fúria. Incluiu um detalhe incômodo: o povo não é figurante.
Talvez aqui resida o maior equívoco desta história: a ideia de que gestos representativos podem substituir políticas públicas sem consequências, de que distribuir pano é suficiente para cobrir problemas estruturais, de que emoção compensa ausência de estratégia. Não compensa. Pelo contrário, expõe. Mostra a fragilidade do planeamento, a superficialidade das prioridades e uma certa visão paternalista do cidadão, como se bastasse oferecer algo material para gerar satisfação automática.
Mas o cidadão já não é assim tão simples. Aceita o presente, sim, mas cobra a promessa. E quando a promessa falha, transforma-se. Já não é beneficiário. É reclamante. E, em casos extremos, torna-se manifestante. O mais fascinante nesta história é o contraste entre intenção e impacto. A intenção era celebrar a mulher moçambicana. O impacto foi ver mulheres a bloquear a principal estrada do país. A intenção era gerar alegria. O impacto foi gerar caos. A intenção era unir. O impacto foi incendiar, no sentido mais literal possível.
Talvez seja tempo de dizer o óbvio, ainda que com o risco de parecer indelicado: governar com emoção é como construir uma ponte com boas intenções. Parece bonito no papel, mas cai ao primeiro teste. E o teste, desta vez, veio cedo. Veio em forma de perguntas simples: onde estão as capulanas, quem recebe, por que umas sim e outras não, quem decidiu, com base em quê? Perguntas básicas, respostas inexistentes.
E quando não há respostas, há espaço para suspeita. E onde há suspeita, há tensão. E onde há tensão, basta uma faísca. Nampula mostrou isso com uma clareza quase didáctica. Talvez, no meio de toda esta fumaça, reste uma lição, não sobre capulanas, que continuam a ser belas e culturalmente incontornáveis, mas sobre política. Política não é sobre parecer bem. É sobre funcionar bem. Não é sobre prometer para todos. É sobre cumprir para quem se promete. Não é sobre emocionar. É sobre resolver.
Porque, no fim do dia, quando o pano não chega, o que fica não é a cor da capulana. É o rasto do erro. E esse, ao contrário das promessas, não se consegue distribuir. @Crónicas do Absurdo, Jornal NGANI 060426

