Este avião não nos identifica!

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Há coisas que não se explicam com manuais técnicos, certificados de aeronavegabilidade ou relatórios de eficiência operacional. Há coisas que se sentem, e este avião simplesmente não se sente nosso.

Voa bem, ninguém pode negar. Rápido, como se tivesse pressa de ir embora daqui. Sobe com elegância, corta o céu com precisão e pousa sem sobressaltos, como quem já fez aquilo mil vezes e não tem tempo para sentimentalismos. É um avião competente, moderno, funcional. E, ainda assim, completamente estranho.

É que um avião não é apenas um meio de transporte, não é apenas metal, combustível e cálculos de engenharia. Um avião também é identidade, é bandeira, é memória. É aquele momento em que entramos pela porta e sentimos, ainda em terra, que já estamos a viajar pelo nosso país. Mas este não. Este avião não fala connosco.

A crise da LAM trouxe-nos esta solução, um Boeing alugado, emprestado, importado, seja lá de onde for, sem as nossas cores, sem os nossos símbolos, sem aquele orgulho discreto que costumava dizer, mesmo em silêncio: estamos em casa, mesmo a 10 mil metros de altitude. Aqui no NGANI não temos preconceitos.

Já viajámos um pouco pelo mundo, já vimos um pouco de tudo, já entrámos em aviões onde nem sabíamos que língua estavam a falar e, mesmo assim, chegámos ao destino. Gostamos de viajar, gostamos de diversidade, gostamos até de arriscar o inglês malfalado com confiança de quem não tem nada a perder. Mas aqui é diferente. Porque, isto é, Moçambique. E este avião… não é.

Entrámos nele neste fim de semana, vindos de um ponto perdido neste país onde as distâncias já não se medem em quilómetros, mas em paciência — e o bicho estava ali, estacionado, com aquele ar neutro, quase indiferente. Nada da nossa bela bandeira, nada do nosso azul, branco e vermelho, nada da nossa identidade.

Parecia um visitante bem-educado que veio ajudar numa emergência, mas que não pertence à família. Subimos, sentámo-nos e arrancámos. E foi aí que começou aquela sensação estranha, difícil de explicar, como quando estamos numa casa bonita, confortável, mas sabemos que não é nossa.

E depois há outro detalhe que nos deixou a pensar. O avião tinha acabado de chegar, não sabemos de onde, talvez Beira, talvez Nacala, talvez um daqueles circuitos que só os de dentro entendem e, praticamente sem descanso, uma hora depois já estávamos a embarcar para outra província. E nós perguntamos, com toda a humildade de quem não percebe nada de engenharia aeronáutica: isto é normal?

Sabemos que há ciência, que há autonomia de voo, que há protocolos, que os engenheiros sabem o que fazem e que tudo está dentro dos padrões internacionais. Mas sejamos razoáveis. Nem nós conseguimos sair de uma viagem e entrar noutra com aquele sorriso forçado de “está tudo bem”. E o avião? Não cansa?

Durante o voo, uma das hospedeiras, mulungu, simpática, profissional, com aquele sorriso treinado para acalmar turbulências emocionais, decidiu conversar connosco. E nós, com o nosso inglês mafioso, fomos tentando acompanhar. Ela sorria, nós também, ela insistia, nós fingíamos entender. Foi um momento agradável, até humano, quase cinematográfico. Mas não mudou nada. Porque o problema não era a hospedeira, nem o avião, nem o nosso pobre inglês. O problema era outro. Era aquela sensação persistente de não estarmos a voar “nos nossos”.

Porque há uma coisa que ninguém nos tira: a moçambicanidade. Ela está nos detalhes, no sotaque, no jeito de dizer “bom dia”, no sorriso meio tímido, meio caloroso, no caos organizado que só nós entendemos, naquele orgulho discreto de sermos quem somos, mesmo quando tudo parece desmoronar.

E nos nossos aviões antigos, essa identidade costumava a estar. Mas aqui não está. Este avião não tem o nosso cheiro, não tem a nossa história, não tem aquele orgulho silencioso de carregar uma bandeira num pedaço de metal que atravessa nuvens. Não é Cobué, não é Lúrio, não é Rovuma, não é Zambeze. Não é nada disso. É só… um avião.

E talvez seja esse o verdadeiro problema. Porque quando começamos a aceitar “só um avião”, também começamos, lentamente, a aceitar “só um país”, “só uma solução”, “só mais um improviso”. E assim, aos poucos, vamos normalizando a ausência daquilo que nos define. Não temos nada contra o Boeing. Pelo contrário, é uma máquina impressionante, respeitável, faz o seu trabalho melhor do que muitos de nós fazemos o nosso. Mas não é nosso. E isso pesa.

Alguém que nos lê dirá: o importante é voar. E é verdade. Mas também é importante saber quem está a voar connosco. Porque um país que deixa de se reconhecer nos seus próprios atributos começa, lentamente, a desaparecer deles.

E nós não queremos desaparecer. Queremos voar, sim, mas queremos voar como moçambicanos, com as nossas cores, com a nossa identidade, com aquele orgulho que não precisa de ser gritado, mas que se sente. Este avião voa bem, é rápido, é eficiente. Mas não nos identifica. E no fim, talvez seja isso que mais incomoda. Não é a falta de conforto, nem a falta de qualidade. É a ausência de nós.

Organizem-se, resolvam, inventem, negociem, coloquem os nossos símbolos, façam o que for preciso. Mas devolvam-nos os nossos aviões. Porque há viagens que não se medem em quilómetros. Medem-se em pertença. E nós queremos voltar a pertencer, até quando estamos no ar. FFinCrónicasdoAbsurdoJornalNGANI130426

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