O quadro sénior da Renamo, António Muchanga, voltou a criticar publicamente a liderança do partido, liderada por Ossufo Momade, reacendendo o debate interno sobre o rumo da segunda maior força da oposição moçambicana.
Num discurso directo, Muchanga responsabilizou a actual direcção pelo ambiente de apatia e fragmentação que, segundo afirma, se instalou na Renamo nos últimos anos, comprometendo a sua capacidade de mobilização política e de afirmação no cenário nacional.
Para o político, a liderança de Ossufo Momade falhou na missão de preservar a unidade interna e de dar continuidade à herança política deixada por Afonso Dhlakama.
No centro das críticas está a revisão dos estatutos do partido, aprovada em 2019, apontada por Muchanga como um ponto de viragem negativo na vida interna da Renamo. O antigo deputado e ex-candidato à presidência do Conselho Municipal da Matola entende que as alterações introduzidas nesse processo reduziram os mecanismos democráticos internos, afastando as bases da escolha dos seus representantes.
Segundo Muchanga, a revisão estatutária concentrou poderes excessivos na liderança central, enfraqueceu as estruturas de base e diminuiu os mecanismos de controlo interno, criando um distanciamento entre a direcção e os militantes, com reflexos na coesão partidária.
O político acusa ainda Ossufo Momade de ter conduzido o processo de revisão de forma restrita e pouco inclusiva, sem o debate alargado que, no seu entender, um momento dessa natureza exigia, o que comprometeu a legitimidade das mudanças aprovadas.
As declarações foram proferidas à margem da primeira conferência nacional dos desmobilizados de guerra e de membros influentes da comissão de gestão partidária, um encontro que reuniu figuras históricas e quadros estratégicos da Renamo. O evento serviu de palco para a manifestação pública de um descontentamento que, até então, vinha sendo discutido sobretudo nos bastidores.
De acordo com Muchanga, vários membros do partido alertaram previamente o presidente sobre os riscos do actual rumo político, mas os avisos terão sido ignorados, contribuindo para o agravamento da crise interna.
O dirigente sustenta que houve espaço para uma solução de compromisso que poderia preservar a estabilidade do partido, defendendo que Ossufo Momade poderia manter-se na presidência da Renamo, desde que aceitasse viabilizar outro nome para a candidatura presidencial.
A proposta, segundo Muchanga, não avançou, num contexto marcado por divergências internas, incluindo o desentendimento com Venâncio Mondlane. Embora afirme desconhecer os contornos exactos desse conflito, considera que a falta de esclarecimentos alimentou especulações e inquietações entre os militantes.
Num tom crítico, Muchanga afirmou que chegará o momento em que a liderança será “exposta”, numa alusão a um eventual processo interno de responsabilização, revelando o nível de tensão que marca actualmente o ambiente político dentro da Renamo.
O político recordou ainda que, durante a pré-campanha de 2023, ouviu repetidamente de eleitores e simpatizantes que o partido continuava a merecer confiança, mas que não desejavam Ossufo Momade como candidato presidencial em 2024, sinal que, segundo ele, foi subestimado pela direcção.
Para Muchanga, a incapacidade de interpretar os sinais vindos da base eleitoral resultou numa estratégia política desajustada à realidade do terreno, contribuindo para o fraco desempenho eleitoral do partido.
O dirigente revelou também ter sido alvo de críticas internas por posições assumidas no passado, apesar de considerar que sempre actuou em defesa dos interesses da Renamo, alegando ter vencido disputas eleitorais cujos resultados foram posteriormente contestados.
Acusou ainda a direcção de ter orientado a interrupção de manifestações de contestação dos resultados eleitorais, sob promessa de retoma no ano seguinte, algo que, segundo afirma, nunca se concretizou, gerando frustração entre os militantes.
Muchanga defende que o actual contexto político exige uma liderança mais dinâmica, com capacidade de mobilização e rapidez na tomada de decisões estratégicas, características que, no seu entender, não têm sido demonstradas pela direcção liderada por Ossufo Momade.
Apesar das críticas, o político diz não defender confrontos pessoais nem rupturas violentas, mas sim uma transição política organizada e responsável, capaz de restaurar a confiança interna e externa no partido.
Defende ainda que a escolha do próximo líder da Renamo deve basear-se na competência, integridade e capacidade de mobilização nacional, e não em critérios regionais ou étnicos.
Recorde-se que Ossufo Momade já afirmou que não deixará a presidência do partido antes da realização do congresso previsto para 2029, sinalizando que a disputa interna pela liderança da Renamo poderá prolongar-se e intensificar ainda mais as tensões no seio da formação política. Agostinho Miguel

