Maputo acolheu, na terça-feira, a abertura da Conferência sobre a Economia da Vida Selvagem, um encontro que coloca sob escrutínio o modelo de gestão das áreas de conservação em Moçambique e o seu real impacto no desenvolvimento das comunidades.
A sessão foi dirigida pelo ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas, Roberto Mito Albino, que assumiu um tom crítico e defendeu uma mudança de abordagem por parte do Governo, baseada na escuta ativa, aprendizagem e reflexão antes da definição de políticas públicas.
Recorrendo a uma analogia direta, o governante comparou a atuação do Executivo à de um médico, alertando que nenhuma solução eficaz pode ser aplicada sem um diagnóstico rigoroso.
“Tal como um médico não deve prescrever sem ouvir o paciente, também o Governo não deve avançar com decisões sem compreender profundamente os problemas do sector”, defendeu, assumindo o compromisso de acompanhar integralmente os trabalhos da conferência para recolher contribuições dos diferentes intervenientes.
O discurso do ministro foi marcado por três questões centrais que evidenciam desafios estruturais na economia da vida selvagem no país.
A primeira diz respeito ao fraco impacto das áreas de conservação no desenvolvimento local. Apesar do potencial económico, muitas zonas de safari continuam a ser vistas como isoladas e sem benefícios visíveis para as comunidades circundantes.
O segundo ponto destaca a baixa participação da juventude moçambicana no sector. O ministro alertou para a necessidade de tornar a economia da vida selvagem mais atrativa, qualificada e capaz de absorver jovens, num contexto de elevada pressão sobre o emprego.
Por fim, apontou a necessidade urgente de rever o modelo de gestão das áreas de conservação, muitas das quais foram delimitadas nas décadas de 1960 e 1970, num contexto colonial e desajustado da realidade atual.
Conferência aponta para reformas estruturais
Com duração de dois dias, a conferência reúne representantes do Governo, parceiros internacionais e especialistas, afirmando-se como uma plataforma estratégica para redefinir políticas e alinhar visões sobre o futuro do sector.
O encontro surge num momento em que cresce a pressão global para que a conservação da biodiversidade esteja diretamente ligada ao desenvolvimento sustentável e à inclusão das comunidades locais.
Para analistas, o reconhecimento público das limitações do modelo atual poderá abrir espaço para reformas estruturais, num sector visto como chave para o turismo, conservação ambiental e crescimento económico de Moçambique. Redacção

