Jornalistas de vários órgãos de comunicação social reuniram-se esta sexta-feira na província de Nampula para debater a crise que afecta a classe, marcada por alegadas violações éticas e pela precariedade laboral que atinge grande parte dos profissionais.
O encontro colocou no centro da discussão a degradação da ética e da deontologia no exercício do jornalismo, bem como a persistência de vínculos laborais frágeis, muitas vezes inexistentes, que expõem os profissionais a condições de trabalho consideradas indignas.
Para a jornalista Elina Eciate, do jornal Redactor, a situação é preocupante e exige uma mudança urgente de postura dentro da própria classe. Segundo afirmou, tem-se assistido a uma erosão dos princípios fundamentais do jornalismo. “Há clara violação da ética e deontologia profissional. Em vez de preservarmos a nossa profissão, estamos cada vez mais a denegrir a nossa própria imagem”, disse.
Como resposta, defendeu o reforço do diálogo entre o Estado e as entidades patronais, com vista à melhoria das condições de trabalho no sector. Outro ponto crítico destacado por Elina dos Eciate é a ausência de contratos formais, realidade que considera um dos maiores entraves ao desenvolvimento da classe.
“Falar da ausência de contrato na classe jornalística continua a ser um calcanhar de Aquiles. A maioria dos colegas trabalha sem contrato e sem subsídios para garantir a sua sobrevivência”, afirmou.
Na mesma linha, Nelson Tatanha defendeu uma reestruturação profunda das instituições de comunicação social, sublinhando a necessidade de reforçar a formação e os mecanismos internos de regulação profissional. “A capacitação é bem-vinda, embora aconteça de forma esporádica. É altura de reestruturar a classe jornalística do ponto de vista institucional”, referiu.
Por sua vez, o Secretário-Geral do Sindicato Nacional de Jornalistas, Faruck Sadique, confirmou que a precariedade laboral continua a marcar o sector, com jornalistas a trabalharem sem contratos, com salários baixos e, em alguns casos, sem remuneração adequada.
Segundo o dirigente, muitos profissionais não beneficiam de segurança social nem de seguros de trabalho, situação que fragiliza a classe e compromete o seu bem-estar.
Sadique apontou ainda a falta de meios de trabalho e apoio logístico como factores que dificultam o exercício da profissão, além do uso recorrente e abusivo de estagiários em alguns órgãos de comunicação social.
De acordo com o responsável, há jovens que permanecem durante anos como estagiários, sem qualquer vínculo formal, sendo posteriormente substituídos, prática que considera prejudicial à valorização da profissão.
Para o líder sindical, estas fragilidades têm impacto directo na qualidade do jornalismo produzido e na credibilidade dos profissionais.
Faruck Sadique defendeu o reforço da ética e da deontologia como pilares essenciais para restaurar a confiança no sector, sublinhando que a liberdade de imprensa está intrinsecamente ligada ao respeito por estes princípios.
O dirigente reconheceu ainda que o crescimento do sector e o avanço das novas tecnologias impõem novos desafios, exigindo maior responsabilidade e rigor por parte dos jornalistas. Agostinho Miguel

