O secretário provincial da Associação Nacional dos Professores (ANAPRO) em Nampula, Arnaut Naharipo, denuncia estar a ser alvo de ameaças de morte e actos de intimidação, alegadamente protagonizados por colegas de profissão no distrito de Meconta, concretamente na vila de Namialo.
Segundo Naharipo, as ameaças surgem num contexto em que tem intensificado a defesa dos direitos dos professores e denunciado alegadas irregularidades no sector da Educação.
O docente sustenta que a sua postura crítica e interventiva tem incomodado determinados sectores, que, segundo afirma, pretendem silenciá-lo.
“Nos últimos dois anos tenho sofrido ameaças de morte e mensagens de intimidação, algumas delas enviadas directamente para o meu telemóvel”, refere o professor numa participação apresentada às autoridades.
Nos bastidores do sector da Educação em Nampula, o ambiente tem sido marcado por tensões entre organizações que representam os professores. Num passado recente, a ANAPRO denunciou o arrefecimento das relações institucionais com a Organização Nacional dos Professores (ONP) nesta região do país.
De acordo com a associação, os desentendimentos estão sobretudo ligados ao processo de pagamento de horas extraordinárias aos docentes, um assunto que tem gerado polémica entre professores e autoridades educacionais.
A ANAPRO refere que a divergência ganhou maior visibilidade após declarações públicas contraditórias sobre a promessa do Governo de regularizar os valores em atraso referentes às horas extras, sobretudo no período que antecedeu os exames nacionais do ano passado.
Ameaças durante reunião na escola
Alegando recear pela sua segurança, Arnaut Naharipo decidiu formalizar uma participação criminal junto da Procuradoria Distrital de Meconta. O documento deu entrada no dia 5 de Março do corrente ano e descreve vários episódios de intimidação que o professor afirma ter vivido ao longo dos últimos dois anos.
“Venho por este meio relatar as ameaças de morte que tenho sofrido, incluindo mensagens e actos de assédio destinados a manchar a minha imagem”, lê-se no documento submetido à Procuradoria.
Um dos episódios mais preocupantes, segundo o denunciante, ocorreu no dia 18 de Fevereiro de 2026, durante uma reunião do Conselho da Escola Secundária de Namialo, que contou com a presença de 112 funcionários da instituição.
Segundo o relato, foi nesse encontro que as tensões se tornaram públicas. De acordo com Naharipo, um colega identificado como Jamal Adamuge, conhecido por “Leve-Leve” e professor de Educação Física, terá defendido que o dirigente da ANAPRO abandonasse a escola.
“O coordenador regional Norte e secretário provincial da ANAPRO deve sair da Escola Secundária de Namialo e ir trabalhar na cidade de Nampula, porque nós cá estamos sufocados com a presença dele aqui no distrito”, terá declarado o colega durante a reunião.
Momentos depois, segundo o professor, ouviu-se na sala uma voz que afirmou: “nós vamos matá-lo”, ameaça cujo autor não conseguiu identificar.
Naharipo afirma ainda que a direcção da escola, que se encontrava presente na reunião, não reagiu às declarações, situação que, segundo ele, agravou o seu sentimento de insegurança.
Face à situação, o docente pede agora uma investigação das autoridades para o esclarecimento dos factos e para garantir a sua integridade física e a da sua família.
Segundo afirma, as ameaças surgem no contexto das denúncias que tem feito sobre alegados casos de corrupção, assédio sexual e casamentos prematuros envolvendo menores em algumas escolas do distrito. O professor considera que as intimidações visam travar o seu trabalho de denúncia e defesa dos direitos dos docentes.
Alegado bloqueio à transferência
Naharipo acusa igualmente o administrador do distrito de Meconta, Orlando Muaevano, de ter inviabilizado o processo de sua transferência para a cidade de Nampula.
Segundo relata, quando as ameaças começaram, solicitou à direcção da escola a sua transferência para a capital provincial. O pedido terá sido encaminhado à Direcção Distrital de Educação, que, segundo o docente, deferiu o processo e o submeteu à decisão final do administrador distrital.
“Quando iniciaram as ameaças pedi a transferência para a cidade de Nampula. O processo seguiu para a direcção distrital e depois para o administrador Orlando Muaevano. Porém, ele começou a alegar que eu deveria aguardar vários anos até surgir uma troca com outro professor interessado em leccionar no distrito”, contou.
O coordenador regional Norte da ANAPRO afirma ainda que, posteriormente, outros professores que também solicitaram transferência tiveram os seus pedidos autorizados, situação que considera revelar um tratamento discriminatório.
“Fiquei surpreendido quando os pedidos de transferência de outros colegas foram aceites. No meu caso, por ser secretário provincial da ANAPRO, o processo foi bloqueado. Há muita exclusão, mas continuarei a lutar pelos direitos e pela dignidade dos professores, mesmo que tentem silenciar-me”, afirmou.
O dirigente sindical denunciou ainda que, no distrito de Meconta, membros da ANAPRO enfrentam alegadas perseguições por parte de alguns gestores escolares, que, segundo diz, favorecem a Organização Nacional dos Professores (ONP). “O próprio secretário provincial da ONP não dá aulas, mas quando se trata de membros da ANAPRO as perseguições são constantes. Ainda assim, a nossa luta é pela dignidade dos professores”, concluiu. Agostinho Miguel

